Benfica inicia a temporada 2026/27 diante de um cenário pouco comum para um clube acostumado a disputar a Champions League. A saída de José Mourinho para assumir o Real Madrid encerrou um ciclo que, apesar de não ter rendido títulos nacionais, devolveu competitividade ao time. Agora, cabe a Marco Silva liderar uma nova fase em Lisboa, marcada por mudanças no elenco, orçamento mais enxuto e o desafio de recolocar as Águias na briga pelo Campeonato Português.
A missão não será simples. Além de perder um treinador com enorme peso no futebol europeu, o Benfica também precisará lidar com o impacto esportivo e financeiro de disputar apenas a Europa League. Isso mudou completamente o planejamento da temporada, obrigando a diretoria a ser mais cautelosa no mercado e apostar em um elenco que mistura jovens promessas, jogadores experientes e reforços pontuais.
Se o ciclo de Mourinho ficou marcado pela intensidade e pela disciplina, a expectativa agora é que Marco Silva mantenha a competitividade enquanto implementa uma identidade própria.
Mourinho deixa um legado, mas também um gosto amargo
A passagem de José Mourinho pelo Benfica terminou de maneira curiosa.
O treinador português conseguiu algo extremamente raro: encerrou a última edição do Campeonato Português invicto. Foram 23 vitórias e 11 empates, números que normalmente seriam suficientes para conquistar o título.
Mas o futebol nem sempre segue a lógica.
Mesmo sem perder uma única partida, o Benfica terminou apenas na terceira colocação, atrás de Porto e Sporting. O excesso de empates acabou custando caro, deixando o clube fora da Champions League e aumentando ainda mais a sensação de frustração entre torcedores e dirigentes.
Foi um daqueles casos em que as estatísticas contam apenas parte da história.
Na prática, o time mostrou organização e consistência defensiva, mas faltou transformar alguns empates em vitórias. No fim das contas, essa diferença mudou completamente o planejamento da temporada seguinte.
Ausência da Champions pesa dentro e fora de campo
Não disputar a principal competição europeia representa muito mais do que uma questão esportiva.
O impacto financeiro é enorme.
A Champions League distribui uma premiação significativamente superior à da Europa League, e isso obrigou o Benfica a rever sua estratégia no mercado de transferências.
Depois de investir cerca de 116 milhões de euros na temporada passada, o clube reduziu drasticamente os gastos neste verão, ficando abaixo da marca dos 60 milhões de euros.
A consequência é clara.
Em vez de buscar estrelas consagradas, a diretoria passou a priorizar jogadores com potencial de crescimento, empréstimos estratégicos e contratações capazes de agregar qualidade sem comprometer as finanças do clube.
É um movimento compreensível para quem precisa equilibrar competitividade e responsabilidade financeira.
Mercado aposta em qualidade e potencial
Mesmo com orçamento menor, o Benfica conseguiu montar um elenco interessante.
A principal contratação é o meia ucraniano Georgiy Sudakov. Aos 23 anos, ele chega após boas temporadas no Shakhtar Donetsk e será responsável por dar criatividade ao setor ofensivo.
Sua tendência é formar um meio-campo bastante técnico ao lado de Richard Ríos e Leandro Barreiro, combinação que promete oferecer equilíbrio entre intensidade e qualidade na construção das jogadas.
Outros dois reforços importantes chegaram por empréstimo.
O zagueiro Clément Lenglet adiciona experiência ao sistema defensivo, enquanto Jhon Durán oferece força física e mobilidade para o ataque, aumentando as opções ofensivas de Marco Silva ao longo da temporada.
Sem grandes investimentos milionários, o Benfica tenta montar um elenco funcional, capaz de competir em diferentes frentes.
Jovens ganham ainda mais protagonismo
Se o mercado foi discreto, a expectativa em torno de alguns jogadores do elenco aumentou bastante.
Um dos principais nomes é Andreas Schjelderup.
Depois de se destacar pela seleção da Noruega durante a Copa do Mundo, o atacante chega cercado por enorme expectativa para assumir o protagonismo ofensivo da equipe.
Ao lado dele, Vangelis Pavlidis continua sendo a principal referência dentro da área, enquanto Gianluca Prestianni aparece como candidato a ganhar espaço pela ponta direita.
A disputa por posição tende a ser intensa, principalmente porque Dodi Lukébakio não conseguiu repetir o desempenho esperado na temporada passada.
Essa concorrência pode elevar o nível do setor ofensivo ao longo do campeonato.
Saídas deixam lacunas importantes
Se chegaram reforços interessantes, algumas despedidas também preocupam.
A principal delas talvez seja Nicolás Otamendi.
Mesmo já em reta final de carreira, o zagueiro argentino representava uma liderança importante dentro do vestiário e era uma extensão da comissão técnica em campo.
Sua transferência para o River Plate encerra um ciclo iniciado anos atrás e obriga o Benfica a encontrar um novo líder para o sistema defensivo.
Outra baixa significativa foi Orkun Kökçü. O meia turco se transferiu para o Besiktas depois de desempenhar papel importante durante o trabalho de Mourinho.
Além da qualidade técnica, sua saída reduz as opções de um setor que precisará rapidamente encontrar novos protagonistas.
Marco Silva chega para construir uma nova identidade
A escolha de Marco Silva transmite uma mensagem clara da diretoria. O Benfica não buscou um treinador para copiar Mourinho. Buscou alguém capaz de iniciar um novo projeto.
O português chega respaldado pelo excelente trabalho realizado no Fulham, onde conseguiu transformar uma equipe sem grandes estrelas em um adversário competitivo na Premier League.
Sua reputação foi construída justamente pela capacidade de organizar sistemas táticos eficientes, potencializar jogadores e competir mesmo diante de clubes financeiramente superiores.
Esse perfil parece encaixar perfeitamente no momento vivido pelo Benfica. Sem orçamento para grandes extravagâncias, a aposta passa pela organização coletiva.
Campeonato Português será a prioridade
Com a Europa League no calendário, o Benfica certamente buscará uma boa campanha continental. No entanto, o grande objetivo da temporada parece bastante claro.
Voltar a conquistar o Campeonato Português.
A ausência na Champions tornou ainda mais urgente recuperar espaço entre os dois primeiros colocados da liga, tanto pelo prestígio esportivo quanto pelo impacto financeiro que a competição representa.
Para isso, Marco Silva precisará fazer o elenco absorver rapidamente suas ideias.
A boa notícia é que ele herda uma equipe acostumada a competir em alto nível e que já possui uma base consolidada. A má notícia é que reconstruções costumam exigir tempo, algo que raramente existe em clubes do tamanho do Benfica.
Benfica inicia um novo capítulo
Toda troca de treinador representa uma mudança de rumo, principalmente quando o comandante anterior é um nome do tamanho de José Mourinho.
Agora, o Benfica tenta escrever uma história diferente. Sem os recursos financeiros de temporadas anteriores e longe dos holofotes da Champions League, o clube aposta em planejamento, organização e desenvolvimento de talentos para voltar ao topo do futebol português.
Não será uma temporada de glamour ou grandes contratações. Pelo contrário. O momento exige inteligência nas escolhas, eficiência dentro de campo e paciência para consolidar um novo projeto.
Se Marco Silva conseguir repetir em Lisboa a capacidade de organização que demonstrou na Inglaterra, o Benfica pode voltar rapidamente à disputa pelos principais títulos nacionais. Afinal, reconstruções nem sempre começam com grandes estrelas. Às vezes, elas começam com um treinador capaz de fazer o coletivo jogar acima da soma das peças individuais.
Foto: Imago


