O Bournemouth viverá um momento histórico nesta temporada. Depois de 126 anos enfrentando exclusivamente clubes da Inglaterra e do País de Gales, a equipe fará sua primeira partida em uma competição europeia.
A estreia será contra a Real Sociedad, fora de casa, pela Liga Europa. A campanha ainda levará o clube a diferentes partes do continente, com adversários da Noruega até Israel e uma visita ao tradicional San Siro.
Para um clube que passou boa parte de sua história longe da elite, o simples fato de disputar uma competição europeia já representa uma transformação enorme.
As próprias cores do Bournemouth ajudam a dimensionar essa evolução. As listras vermelhas e pretas foram inspiradas no grande Milan da década de 1960, época em que imaginar um confronto entre os dois clubes parecia praticamente impossível.
Naquele período, o Bournemouth, que ainda se chamava Bournemouth & Boscombe Athletic, disputava a quarta divisão inglesa. O clube voltou a enfrentar dificuldades graves décadas depois e, em 2010, esteve perto da falência.
O então proprietário Jeff Mostyn precisou colocar dinheiro do próprio bolso para manter a equipe funcionando. Foi nesse contexto que começou uma das maiores histórias de ascensão do futebol inglês moderno.
De quase falido à Premier League
Eddie Howe teve papel fundamental nessa transformação.
O treinador conseguiu evitar o rebaixamento na Football League mesmo começando uma temporada com uma punição de 17 pontos negativos. A partir daí, liderou o Bournemouth em uma subida impressionante pelas divisões até alcançar a Premier League.
O clube disputou nove das últimas 11 temporadas na elite inglesa e, mais recentemente, conseguiu seu melhor resultado histórico no campeonato.
Sob o comando de Andoni Iraola, o Bournemouth terminou a Premier League na sexta colocação e garantiu a classificação inédita para a Europa.
O crescimento fez com que o clube passasse a ser citado ao lado de Brighton e Brentford como exemplos de equipes capazes de competir acima de seu tamanho financeiro.
A comparação fica ainda mais impressionante quando se observa a estrutura. O estádio inteiro do Bournemouth é menor do que apenas a arquibancada sul do Tottenham.
Além disso, os Spurs conseguem arrecadar quase em um único dia de jogo aquilo que o Bournemouth obtém durante seus 19 compromissos como mandante na Premier League.
Mesmo com essa diferença enorme de recursos, o Bournemouth conseguiu construir uma estrutura esportiva eficiente e competitiva.
Recrutamento virou uma das armas do Bournemouth
Brighton, Brentford e Bournemouth seguiram caminhos diferentes para encontrar vantagens no mercado.
O Brighton utiliza a empresa de dados Jamestown Analytics, ligada ao proprietário Tony Bloom, para identificar jogadores pouco conhecidos.
O Brentford se especializou em buscar pequenas vantagens competitivas, principalmente em aspectos como bolas paradas.
No caso do Bournemouth, a estratégia esteve muito ligada à contratação de jogadores atléticos, capazes de atuar dentro de um futebol intenso.
Esse estilo começou a ser consolidado com Eddie Howe e evoluiu ainda mais com Iraola.
O novo treinador, Marco Rose, também segue essa linha. O alemão é conhecido por um futebol baseado em pressão alta, intensidade e ataques verticais.
Por isso, o analista principal do clube, Jonas Munkvold, colocou Rose no topo da lista de possíveis substitutos durante o processo de escolha do novo técnico.
O mercado de transferências também se tornou fundamental para o crescimento financeiro.
Nos últimos 18 meses, Bournemouth vendeu Antoine Semenyo, Dominic Solanke, Illia Zabarnyi, Dango Ouattara, Milos Kerkez e Dean Huijsen por mais de 300 milhões de libras.
A lógica é semelhante à utilizada por Brighton e Brentford: comprar em mercados menos caros e vender posteriormente por valores muito superiores.
Mas a principal força do clube talvez seja ainda mais simples.

Plano claro e continuidade explicam crescimento
Omar Chaudhuri, diretor de inteligência da Twenty First Group, empresa que trabalha com clubes em estratégias de mercado, destacou que muitas equipes procuram uma espécie de fórmula mágica para conseguir vantagem competitiva.
Na prática, segundo ele, o mais importante é ter um plano bem definido e disciplina para executá-lo.
É justamente aí que o Bournemouth se diferencia.
O clube apresentou uma grande continuidade de ideias e também das pessoas responsáveis por colocá-las em prática.
Eddie Howe ficou aproximadamente dez anos como treinador.
Richard Hughes passou seis anos como jogador e depois mais dez como diretor esportivo, comandando o recrutamento.
Juntos, Howe e Hughes ajudaram a construir uma identidade que continuou mesmo depois de suas saídas.
Outro exemplo é Matt Ritchie, contratado durante essa era e que hoje trabalha como diretor técnico do clube. Ele assumiu o cargo anteriormente ocupado pelo ex-companheiro Simon Francis.
Dentro do campo, a continuidade também aparece.
O capitão Adam Smith e o vice-capitão Lewis Cook defendem o Bournemouth há mais de uma década.
Esse tipo de estabilidade contrasta com muitos clubes que mudam frequentemente de treinador, modelo de jogo, estrutura e estratégia de contratação.
Sucesso também trouxe interesse dos gigantes
O crescimento do Bournemouth naturalmente chamou atenção de clubes maiores.
Na temporada passada, Pep Guardiola chegou a destacar a intensidade do time de Iraola e afirmou que aquele modelo representa uma das tendências do futebol moderno.
Pouco depois, o Liverpool contratou o próprio Iraola.
O clube também já havia buscado Richard Hughes e o lateral-esquerdo Milos Kerkez.
Esse tipo de movimento passou a fazer parte da realidade do Bournemouth.
Grandes clubes da Premier League e da Europa observam constantemente seus jogadores, treinadores e dirigentes.
Mesmo assim, o clube não trabalha apenas com a ideia de comprar atletas para revendê-los rapidamente.
Quando um jogador chega, existe a compreensão de que Bournemouth oferece uma plataforma na Premier League para que ele consiga se desenvolver e aumentar seu nível.
Mas isso não significa que qualquer proposta será aceita.
O clube deixou claro durante a última janela que Alex Scott não seria vendido, mesmo diante de valores próximos de 100 milhões de libras.
A mesma postura foi adotada com Junior Kroupi e Rayan, considerados dois dos jovens mais talentosos do futebol mundial.
Existe a consciência de que esses jogadores podem deixar o clube no futuro, mas apenas quando Bournemouth considerar o momento correto e por valores capazes de permitir uma reconstrução adequada.
Europa é o próximo passo de um projeto histórico
Agora, o principal desafio é continuar crescendo sem perder estabilidade.
O clube precisa conciliar a Premier League com uma competição europeia pela primeira vez, ao mesmo tempo em que lida com uma constante renovação do elenco.
Fora de campo, os investimentos continuam.
Um novo centro de treinamento de alto nível foi inaugurado no ano passado.
Parte do dinheiro obtido com vendas recentes também será utilizado em uma reforma de 85 milhões de libras no Vitality Stadium, que terá sua capacidade ampliada para mais de 20 mil pessoas.
Esse aumento é importante principalmente porque o Bournemouth ficou apenas na 14ª posição entre os clubes ingleses em receitas na temporada 2024/25.
Com as novas regras de controle de custos de elenco da Premier League, aumentar a arrecadação em dias de jogos pode ajudar bastante.
Uma boa campanha na Liga Europa também teria impacto financeiro e esportivo.
Os títulos europeus recentes de West Ham, Crystal Palace e Aston Villa aumentaram a expectativa sobre clubes ingleses que entram nessas competições.
O poder financeiro da Premier League também mudou completamente o cenário europeu.
Por isso, mesmo fazendo sua estreia continental, o Bournemouth começa a Liga Europa apontado como o quarto principal candidato ao título, atrás apenas de Bayer Leverkusen, Juventus e Milan.
Só isso já mostra o tamanho da transformação.
Décadas atrás, o Bournemouth adotou suas cores inspirado no Milan sem imaginar que um dia poderia dividir o mesmo palco europeu.
Agora, depois de sair da quarta divisão, escapar da falência, chegar à Premier League e construir um modelo reconhecido em toda a Inglaterra, o clube finalmente está pronto para viver seu primeiro capítulo internacional.
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