O início de mais uma Copa do Mundo sempre acende uma chama de esperança para o Brasil. O torcedor da seleção brasileira aguarda ansiosamente pelo sexto título do torneio. Apesar do desejo, às vésperas da competição sediada no México, Estados Unidos e Canadá, as expectativas em torno da seleção brasileira parecem se sustentar muito mais no peso histórico das cinco estrelas na camisa e no brilho individual de seus jogadores do que na preparação e ciclo para a Copa de 2026. Depois da Copa do Mundo de 2022, com a saída de Tite no comando técnico do Brasil, que estava à frente desde 2016, a equipe viveu uma forte crise de identidade, sendo comandada por quatro técnicos diferentes e utilizando 84 jogadores em campo.
A calmaria na seleção canarinha só começou a se desenhar em junho de 2025, com a chegada do italiano Carlo Ancelotti. Com pouquíssimo tempo de amostragem na Seleção, Ancelotti esteve à frente da equipe em apenas quatro partidas oficiais das Eliminatórias Sul-Americanas, sendo duas delas protocolares, já que a vaga já estava garantida. O grosso dos seus testes táticos ocorreram em sete amistosos internacionais. Diante de um cardápio farto de atacantes e escassez de meio-campistas, Ancelotti fez a escolha de implementar ao Brasil o sistema do 4-2-4 para que a seleção brigue pela taça do mundo.
O sistema tático do Brasil
O esquema tático optado pela comissão técnica italiana é um reflexo direto do desequilíbrio estrutural da safra de atletas disponíveis. Enquanto os volantes parecem não demonstrarem dúvidas com Casemiro, sendo um dos jogadores mais experientes da equipe e com 10 jogos como titular sob comando do Carlo Ancelotti, e Bruno Guimarães, que também caiu nas graças do italiano e iniciou nove jogos do Brasil, formando uma dupla “fixa”, a linha de frente se transformou em um grande quebra-cabeça.
O plano original de Carlo Ancelotti foi alterado com as lesões de Rodrygo, artilheiro geral do ciclo com oito gols, e do jovem Estêvão, que iria disputar sua primeira Copa do Mundo e liderava as estatísticas da era com o italiano com cinco gols anotados. Sem a dupla e carecendo de um centroavante incontestável de ofício, como o Igor Thiago, do Brentford, que corre por fora na disputa e sendo uma boa opção de banco, o treinador estuda alternativas, como remanejar seus pontas para atuarem em funções centralizadas, ocupando estes espaços no campo.
Sob as ordens do italiano, Vinícius Júnior atuou 57% de seus minutos na Seleção como atacante por dentro. Já Raphinha desempenhou a função de meia-atacante centralizado em 43% de seu tempo de jogo. A justificativa passa pela necessidade de aproximar estes jogadores ao gol do adversário, tentando replicar o grande desempenho que ambos ostentam em seus clubes em solo europeu.
Se na Europa a dupla apresenta um desempenho consistente, a entrega na seleção ainda carece de maior regularidade. Vini Júnior soma 183 participações diretas em gols em 257 exibições pelo Real Madrid nas últimas cinco temporadas; na seleção, o índice despenca para 17 ações em 48 jogos. Raphinha segue os mesmos dados, tendo 127 participações em 177 partidas pelo Barcelona, contra 18 em 38 jogos pelo Brasil.
A disputa pela vaga no ataque
Com duas vagas encaminhadas para Vinícius Júnior e Raphinha, o restante do quarteto ofensivo vira alvo de uma concorrência entre Matheus Cunha, Luiz Henrique, Rayan, Gabriel Martinelli, Endrick e o surpreendente retorno de Neymar.
Neste cenário, Matheus Cunha larga na frente por sua inteligência tática jogando no apoio. O atacante gerou 11 chances de gol sob a batuta de Ancelotti, número inferior apenas aos atletas que mais somaram minutos em campo, que são Vinícius Júnior, Casemiro e Bruno Guimarães. Luiz Henrique surge como a opção da espontaneidade e drible agressivo, em apenas 344 minutos, o atacante completou 14 fintas, quase igualando os 18 dribles de Vini Júnior, em 685 minutos. Vindos do banco, Rayan e Endrick já provaram que têm estrela em grandes palcos e que não sentem a pressão do cargo, com o ponta do Bournemouth marcando contra o Panamá no Maracanã, enquanto a promessa madrilenha silenciando o Wembley na vitória contra a Inglaterra.
Essa abundância de velocistas dita a forma como o Brasil se comporta estrategicamente. Longe de praticar um futebol de posse de bola com paciência, a seleção de Ancelotti aposta nas transições rápidas e verticais. Os números dizem que a seleção brasileira efetuou praticamente o mesmo número de ataques em transições ofensivas quanto ataques construídos, com 25 a 30, respectivamente.
Contra as seleções europeias, o Brasil abriu mão da bola. Registrou 45% de posse na vitória contra a Croácia e apenas 46% na derrota contra a França, número que era de apenas 40% até a expulsão de Upamecano aos 55 minutos. A seleção brasileira busca atrair os adversários até seu campo para contra-atacar em velocidade.
A dupla de zaga está confirmada
Se o ataque ainda gera dúvidas no técnico italiano e nos torcedores, a defesa brasileira transmite segurança. A dupla de zaga titular é composta por dois finalistas da última UEFA Champions League: Marquinhos, do Paris Saint-Germain, e Gabriel Magalhães, do Arsenal.
Marquinhos assume a braçadeira de capitão, chancelado por uma marca histórica: com 122 jogos, é o segundo atleta não europeu com mais partidas na história da Champions League, atrás apenas de Lionel Messi, com 163.
Ao seu lado, Gabriel Magalhães é um dos melhores zagueiros do mundo, liderando as estatísticas europeias de jogos sem sofrer gols, tanto na Premier League, em 19 partidas, quanto na própria Champions, em nove jogos. Curiosamente, a dupla iniciou apenas duas partidas juntas sob o comando de Carlo Ancelotti, nas vitórias de 3 a 0 sobre o Chile e na de 2 a 0 contra Senegal.
A última chance de Neymar conquistar a Copa do Mundo
O retorno de Neymar à seleção brasileira mobilizou o país, tanto daqueles que eram favoráveis quanto dos que eram contra. O jogador é o maior artilheiro da história da seleção brasileira em jogos oficiais com 79 gols, e estava afastado da seleção desde outubro de 2023. Seu retorno ao Santos em 2025 foi peça fundamental na convocação. Mesmo atuando em apenas 43 partidas pelo clube da Vila Belmiro, Neymar liderou diversas estatísticas na equipe e demonstrou que poderia ser útil.
Mesmo com o Santos brigando para não cair no Campeonato Brasileiro, Neymar foi decisivo na permanência do clube e convenceu Carlo Ancelotti. Na Copa do Mundo de 2026, Neymar irá atuar com menos velocidade nas explosões de arrancadas e nos dribles, porém o jogador pode entregar na liderança, experiência e armação do time. Caso balance as redes, Neymar se juntará ao Pelé como o único brasileiro a marcar gols em quatro edições distintas de Copa do Mundo. Cabe ao treinador italiano escalar o jogador na equipe, seja como referência criativa desde o início dos jogos ou como a arma secreta vinda do banco para resolver partidas apertadas. Esta é a última cartada de Neymar para buscar a glória, que nunca alcançou desde 2014, fazendo com que seja o roteiro perfeito para o fechamento de uma era.
Créditos da foto de capa: Rafael Ribeiro/CBF
