A vitória por 2 a 1 sobre o Egito encerrou a preparação da seleção brasileira para a Copa do Mundo com mais perguntas do que respostas. O resultado foi positivo, o time mostrou capacidade de reação e encontrou a virada nos minutos finais com Endrick, mas o amistoso também escancarou problemas que Carlo Ancelotti precisará resolver rapidamente se quiser transformar o Brasil em candidato real ao título.
Durante boa parte da partida, a equipe repetiu defeitos que já haviam aparecido nos compromissos anteriores. Houve instabilidade emocional após sofrer um gol, dificuldade para controlar determinados momentos do jogo e algumas escolhas individuais que parecem comprometer o funcionamento coletivo. Ao mesmo tempo, alguns jogadores reforçaram suas credenciais para ocupar espaços importantes durante o Mundial.
Mais do que o placar, o confronto contra os egípcios serviu como um laboratório definitivo para Ancelotti entender quais peças realmente elevam o nível da equipe e quais podem se tornar problemas em uma competição de tiro curto.
Confira as cinco lições que tiramos de Brasil x Egito:
1 – Ancelotti não demorou para ver as consequências de suas escolhas
O primeiro tempo foi praticamente um resumo de como uma decisão de convocação pode alterar toda a dinâmica de uma equipe. A lesão precoce de Wesley obrigou Ancelotti a mexer na estrutura da seleção antes do planejado. Até aquele momento, o Brasil tinha profundidade pelo lado direito, intensidade na pressão e uma saída de bola mais agressiva. Quando o lateral deixou o gramado, entrou Danilo.
O problema não foi apenas a troca de um jogador por outro. Foi a mudança completa de características. Wesley oferece velocidade, apoio constante e agressividade ofensiva. Danilo entrega experiência, mas já não possui a mesma capacidade física para sustentar o ritmo exigido pelo modelo que Ancelotti tenta implementar.
A consequência foi imediata. O lado direito perdeu força, o time passou a circular menos a bola por aquele corredor e a seleção ficou mais lenta e previsível. O episódio também reabre uma discussão que surgiu no momento da convocação. Danilo sequer parecia um nome necessário para a Copa. O argumento utilizado por parte da comissão técnica era justamente o de liderança e experiência de grupo, sem necessariamente ocupar papel relevante dentro de campo.
Mas a Copa não é feita apenas de planos ideais. Lesões acontecem. Suspensões acontecem. Imprevistos acontecem. E quando eles surgem, os reservas precisam responder. No primeiro teste mais exigente, Danilo mostrou exatamente os sinais que geravam dúvidas antes mesmo da convocação. A sensação deixada pelo amistoso é que Ancelotti descobriu cedo um problema que poderia aparecer de forma ainda mais dolorosa durante o Mundial.
2 – Ibañez precisa ser titular, seja como zagueiro ou como lateral
Se houve um vencedor individual no amistoso, esse jogador foi Roger Ibañez. O defensor foi, mais uma vez, um dos atletas mais seguros da equipe brasileira. Forte nos duelos físicos, rápido nas coberturas e extremamente confortável defendendo espaços grandes, ele apresentou características que se encaixam perfeitamente no futebol moderno.
O mais interessante é que sua atuação amplia as possibilidades para Ancelotti. Como zagueiro, Ibañez oferece mais velocidade e agressividade do que algumas das opções atualmente utilizadas. Como lateral em uma linha defensiva mais conservadora, também pode cumprir função semelhante àquela que vários treinadores europeus vêm adotando com defensores híbridos.
O amistoso também evidenciou uma questão importante: a seleção brasileira já não pode mais se dar ao luxo de escolher titulares apenas pelo histórico. O rendimento precisa falar mais alto. E, atualmente, o rendimento de Ibañez está entre os melhores do elenco.
A falha de Marquinhos no lance do gol egípcio apenas reforça essa percepção. Enquanto alguns nomes seguem ocupando espaço por status, Ibañez continua acumulando atuações sólidas e mostrando que merece protagonismo maior. Seja formando dupla de zaga ou atuando aberto pelo lado, sua presença entre os onze titulares parece cada vez mais inevitável.
3 – Quantas vezes Endrick vai precisar se provar?
A pergunta já começa a soar repetitiva. Desde que surgiu na seleção principal, Endrick acumula momentos decisivos. Fez gols importantes, mudou partidas saindo do banco e frequentemente apresentou impacto superior ao de jogadores mais experientes.
Contra o Egito, a história se repetiu. Mais uma vez ele entrou e mudou o jogo. Mais uma vez trouxe intensidade ao ataque. Mais uma vez incomodou os defensores adversários. E mais uma vez foi decisivo ao marcar o gol da vitória. O curioso é que, apesar disso, o atacante continua sendo tratado como uma promessa que ainda precisa provar alguma coisa. Em algum momento, o debate precisa mudar.
Endrick já não é apenas potencial. Ele é produção. Enquanto outros atacantes recebem oportunidades consecutivas mesmo atravessando fases irregulares, o jovem segue respondendo sempre que é acionado. Seu perfil também parece ideal para uma Copa do Mundo. É um jogador agressivo, vertical, competitivo e que não demonstra sentir o peso dos grandes palcos.
Se a lógica for baseada em desempenho recente, não há argumento forte para mantê-lo no banco de reservas. O amistoso contra o Egito reforçou algo que já vinha ficando evidente: Endrick merece começar a Copa como titular.
4 – O psicológico é algo que assombra o Brasil
Talvez o aspecto mais preocupante da atuação tenha sido o comportamento emocional da equipe. O Brasil sofreu um golpe duplo em poucos minutos. Primeiro viu Marquinhos cometer uma falha que resultou no gol egípcio. Depois perdeu Wesley por lesão.
A partir daí, a seleção entrou em um período de instabilidade que durou boa parte do primeiro tempo. O time perdeu confiança, passou a errar passes simples e teve dificuldades para retomar o controle emocional da partida. O mais preocupante é que esse não foi um episódio isolado.
Algo parecido já havia acontecido contra o Panamá. Em momentos de adversidade, a seleção parece perder organização e clareza de decisões. Em uma Copa do Mundo, esse tipo de fragilidade pode ser fatal. Grandes seleções normalmente são definidas pela capacidade de reagir quando os planos deixam de funcionar. Nem sempre o melhor time vence. Muitas vezes vence o mais resiliente.
Ancelotti certamente percebeu isso. O Brasil tem talento suficiente para competir com qualquer adversário. A dúvida é se possui a mesma força mental para suportar os momentos difíceis que inevitavelmente surgirão ao longo do torneio.
5 – No final, o problema nunca foi o 4-2-4
Durante meses, o debate girou em torno do sistema tático. Muitos apontavam o 4-2-4 como a origem dos problemas da seleção. A partida contra o Egito mostrou que talvez a discussão estivesse olhando para o lugar errado. O sistema não é o principal problema. Os intérpretes são.
Quando o Brasil conseguiu colocar em campo jogadores mais adequados às funções exigidas, o desempenho melhorou imediatamente. A entrada de Endrick elevou o nível ofensivo. Danilo Santos novamente mostrou dinamismo. Outros atletas mostraram capacidade de oferecer características que faltavam aos titulares.
O futebol está cheio de exemplos que desmontam a ideia de que existe um esquema perfeito. O sucesso depende muito mais das peças escolhidas do que dos números desenhados no papel. E é justamente aí que Ancelotti talvez tenha encontrado sua principal conclusão antes da estreia na Copa. A seleção parece mais forte quando jogadores como Endrick, Ibañez, Douglas Santos, Danilo Santos e Rayan ganham protagonismo.
O amistoso contra o Egito não resolveu todos os problemas do Brasil. Mas serviu para mostrar quais caminhos parecem mais promissores e quais insistem em levar a equipe para as mesmas dificuldades de sempre.
Agora cabe a Ancelotti decidir se vai confiar no que viu em campo ou continuar apostando em hierarquias construídas pelo passado. Em Copa do Mundo, normalmente o relógio não oferece muito tempo para corrigir escolhas erradas.
(Foto: Kirk Irwin/AFP)