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Brasil tem empate amargo, mas situação não é preocupante; o que a seleção tem que melhorar?

O empate por 1 a 1 do Brasil contra a Tunísia em Lille trouxe incômodo, mas não deveria gerar alarmismo. A seleção de Carlo Ancelotti oscilou, perdeu intensidade no segundo tempo e falhou nas decisões mais importantes da noite. Ainda assim, o cenário geral não é negativo. O Brasil mostra identidade, mostra evolução coletiva e sabe exatamente quais pontos precisam de ajuste para chegar forte à Copa do Mundo.

O pênalti perdido por Lucas Paquetá ampliou a sensação de frustração, mas não muda as conclusões centrais: o time ainda está em construção e enfrenta dificuldades naturais para furar sistemas muito fechados. A Tunísia, com linha de cinco e postura extremamente compacta, expôs lacunas que já estavam no radar da comissão técnica. A diferença é que, desta vez, elas apareceram todas juntas.

Falta de mobilidade entre linhas

O principal problema da seleção foi a falta de circulação no setor central. Ancelotti abriu Estêvão e Rodrygo para atrair os tunisianos para as laterais. A ideia era simples: esticar a defesa adversária, abrir espaço por dentro e permitir infiltrações dos meias. Na prática, nada disso aconteceu.

O Brasil ficou preso nas pontas. O time girava a bola rápido, mas não encontrava ninguém atacando o espaço entre os zagueiros. A seleção virou um ataque estático, previsível e linear. Contra uma linha de cinco tão disciplinada, isso é receita para esbarrar sempre nos mesmos corredores.

Esse é um ponto que a equipe precisa ajustar. Hoje, o Brasil depende muito de ações individuais para romper defesas baixas. Precisa balancear melhor o uso dos meias e melhorar o timing dos movimentos de aproximação. Quando o time estaciona, qualquer adversário competitivo consegue segurar.

Decisões ruins em momentos importantes

O lance do gol tunisiano nasce de uma falha individual que podia ter sido evitada. Wesley perdeu o duelo, ficou fora da jogada e abriu o corredor para Abdi construir a jogada do gol. Não foi apenas um erro técnico. Foi falta de leitura de risco.

No outro extremo, Paquetá teve a chance de virar o jogo, mas desperdiçou o pênalti. Não se trata de crucificar ninguém. Erros acontecem. Mas mostram que, quando o time precisa ser frio, às vezes ele não é. Em jogos eliminatórios, esse tipo de detalhe define destino.

A seleção precisa aprender a controlar emocionalmente as partidas. Nem sempre será possível atropelar o rival com imposição técnica. Em noites mais travadas, o Brasil terá de saber esperar, acelerar no momento certo e decidir com mais clareza.

Outro ponto que chamou atenção foi o volume de passes fáceis desperdiçados. Contra um adversário fechado, cada erro quebra o ritmo e devolve a posse ao rival. A Tunísia agradeceu. Cada passe errado diminuía a pressão brasileira, devolvia estabilidade ao bloco defensivo africano e alimentava a sensação de desorganização no ataque.

Esses erros não refletem falta de qualidade. Refletem desconexão momentânea. Mas esse tipo de desconexão não pode aparecer quando a seleção encara equipes que optam por abdicar da bola. O Brasil precisa ser mais clínico na execução.

A dificuldade recorrente contra defesas muito recuadas

A seleção tem funcionado melhor contra equipes que tentam jogar. Senegal pressionou alto e abriu espaços; por isso o Brasil sobrou. A Tunísia fez o contrário: recuou tudo, não deu transição e congestionou a entrada da área.

Esse tipo de adversário exige algo mais. Exige circulação mais rápida, exige que alguém ataque o espaço entre os zagueiros, exige que o time tenha jogadores que funcionem em zonas curtas e apertadas. Hoje, o Brasil ainda depende demais da troca de passes lateralizados quando encontra esse cenário.

Não é um defeito sem solução. É um aspecto da construção. A seleção vai enfrentar rivais desse perfil no Mundial e precisa desenvolver mecanismos específicos.

O que fica de positivo

Apesar das falhas, o desempenho dos últimos jogos é sólido. O Brasil tem identidade, tem ideias claras e tem competitividade. O time sabe pressionar, sabe recuperar alto, sabe criar a partir de movimentos coordenados e sabe conduzir o jogo. A oscilação em Lille não apaga nada disso.

A estrutura existe. Falta refinamento. Falta sincronizar movimentos, diminuir erros individuais e acelerar a bola nos momentos certos. Nada que não seja possível corrigir com trabalho até a Copa do Mundo.

O empate foi amargo, mas não preocupante. O jogo mostrou onde o Brasil ainda tropeça, mas também mostrou que a seleção sabe onde precisa mexer. Ancelotti tem material humano, tem ideias, mas não tem tempo para desenvolver, o que pode ser um problema. A seleção sai de Lille com lições claras, não com dúvidas sobre o caminho.

(Foto: Franck Fife/AFP)