Brasil x Egito
Copa do Mundo

Brasil estreia com escolhas questionáveis e Ancelotti pode estar correndo um risco desnecessário

A provável escalação do Brasil para a estreia da Copa do Mundo de 2026 já começa a gerar debates entre torcedores e analistas. Não porque a equipe seja ruim ou porque faltem opções de qualidade no elenco, mas porque algumas das escolhas de Carlo Ancelotti parecem ir contra aquilo que foi apresentado dentro de campo durante o ciclo de preparação.

A Copa do Mundo é um torneio diferente de qualquer outro. Não existe tempo para testes longos, insistências exageradas ou espaço para esperar que um jogador encontre sua melhor versão ao longo da competição. Um erro em uma partida pode significar uma eliminação precoce e o fim de quatro anos de trabalho.

Por isso, algumas possíveis decisões de Ancelotti chamam atenção. Em setores importantes do time, jogadores que aproveitaram suas oportunidades e apresentaram bom rendimento podem acabar começando no banco, enquanto atletas que ainda não convenceram totalmente seguem com a confiança do treinador.

O problema não está em ter convicções. Todo grande treinador precisa delas. O problema aparece quando essas convicções não são confirmadas dentro de campo.

Douglas Santos e Ibañez mostraram mais do que seus concorrentes

Douglas Santos - Seleção Brasileira
Créditos da foto: Rafael Ribeiro/CBF.

Uma das disputas mais discutidas está na lateral esquerda.

Alex Sandro chegou à Copa cercado de confiança por parte da comissão técnica, mas seu momento no Flamengo não era dos melhores quando foi convocado. Além disso, na partida contra o Panamá, o lateral não conseguiu fazer uma atuação convincente.

O cenário mudou quando Douglas Santos entrou em campo.

No segundo tempo contra o Panamá, o jogador trouxe mais segurança defensiva e participou melhor das ações ofensivas. A equipe passou a atacar com mais naturalidade pelo setor e também sofreu menos defensivamente.

A boa impressão foi reforçada diante do Egito.

Desta vez como titular, Douglas Santos fez uma partida segura, sem comprometer em nenhum momento e demonstrando equilíbrio entre defesa e ataque. Não foi uma atuação espetacular, mas foi exatamente o tipo de desempenho que um treinador procura antes de uma Copa do Mundo: confiança e regularidade.

Na lateral direita, o debate também existe.

Ibañez aproveitou muito bem suas oportunidades durante o ciclo de preparação. Defensivamente mostrou segurança, venceu duelos importantes e ainda contribuiu para a construção das jogadas com passes de qualidade.

O defensor conseguiu algo importante para qualquer lateral: participar da saída de bola sem comprometer a estrutura defensiva da equipe.

Por outro lado, Danilo continua sendo uma das grandes convicções de Ancelotti.

O problema é que, até o momento, ainda não existe um desempenho tão superior que justifique essa diferença de status entre os dois. Ibañez mostrou em campo que possui condições de disputar a posição de igual para igual.

E em uma Copa do Mundo, mérito recente deveria ter um peso enorme nas decisões.

O desempenho aumenta na disputa entre Paquetá e Danilo

Lucas Paquetá - Seleção brasileira
Créditos da foto: Rafael Ribeiro/CBF.

Nem todas as decisões de Ancelotti geram questionamentos. No meio-campo, por exemplo, Danilo Santos e Lucas Paquetá apresentam argumentos sólidos para ocupar a vaga.

Lucas Paquetá mostrou mais uma vez por que continua sendo uma peça tão valorizada dentro da Seleção Brasileira. Contra o Panamá, o meia mudou completamente a dinâmica da partida quando entrou em campo. O Brasil passou a circular melhor a bola, encontrou espaços com mais facilidade e ganhou qualidade na distribuição das jogadas. Foi uma atuação que lembrou o jogador que durante anos foi um dos principais articuladores da equipe.

Por outro lado, Danilo Santos também aproveitou muito bem as oportunidades recebidas durante o ciclo de Ancelotti. O meio-campista se destacou pela intensidade e pela capacidade de participar de praticamente todas as fases do jogo. Além de ajudar na construção das jogadas, Danilo tem mostrado personalidade para atacar os espaços e aparecer dentro da área adversária, algo que agrega uma característica diferente ao setor.

A principal diferença entre os dois está justamente na função que exercem. Enquanto Paquetá oferece mais criatividade e capacidade de organizar o jogo entre as linhas, Danilo entrega mais mobilidade, presença física e participação sem a bola. São características distintas que podem ser úteis dependendo do adversário e do contexto da partida.

Por isso, ao contrário de outras posições em que o desempenho recente parece apontar um caminho mais claro, a disputa entre Danilo Santos e Lucas Paquetá é uma das poucas em que Ancelotti possui argumentos consistentes para qualquer decisão que tomar. Afinal, ambos corresponderam quando foram chamados e mostraram qualidades que podem ser importantes para a Seleção durante a Copa do Mundo.

Quantas vezes Endrick ainda precisará provar seu valor?

Endrick Brasil x Egito
Foto: Kirk Irwin/AFP

Se existe uma decisão que pode gerar ainda mais debate, ela envolve o comando de ataque.

A pergunta que muitos torcedores fazem é simples: quantas vezes Endrick precisará se provar?

Mesmo muito jovem, o atacante já acumulou momentos decisivos com a camisa da Seleção Brasileira. Em diversas oportunidades apareceu justamente quando o time mais precisava de alguém capaz de mudar o rumo das partidas.

Contra o Egito, isso voltou a acontecer.

Com o jogo empatado em 1 a 1 e a partida ficando cada vez mais complicada, Endrick marcou o gol da virada e decidiu um confronto que caminhava para um cenário desconfortável para o Brasil.

Mais uma vez, mostrou personalidade.

Mais uma vez, mostrou estrela.

Igor Thiago também deixou uma boa impressão contra o Panamá, participou bem das jogadas ofensivas, fez seu gol de pênalti e mostrou características interessantes para um centroavante de área.

Já Matheus Cunha oferece algo diferente.

Ao contrário de Endrick e Igor Thiago, o atacante costuma recuar para participar da construção das jogadas. Sua movimentação ajuda a abrir espaços para Vinícius Júnior e Raphinha atacarem as costas da defesa adversária.

É uma função importante e que pode ser extremamente útil dependendo do adversário.

Ainda assim, o momento de Endrick levanta uma discussão legítima.

Em torneios curtos como a Copa do Mundo, o histórico recente costuma importar muito. E poucos atacantes brasileiros conseguiram ser tão decisivos quanto ele quando receberam oportunidades.

No fim das contas, a provável escalação do Brasil não indica um erro evidente de Ancelotti. O que ela mostra é um treinador disposto a confiar em suas próprias convicções. O problema é que a história das Copas do Mundo costuma ser cruel com treinadores que insistem em escolhas que não são sustentadas pelo desempenho dentro de campo.

Grandes seleções normalmente são construídas com planejamento, mas títulos mundiais costumam ser conquistados por quem identifica rapidamente o que está funcionando.

E, quando a bola começar a rolar, não haverá tempo para corrigir teimosias. Afinal, em uma Copa do Mundo, cada decisão pode ser a diferença entre levantar a taça ou voltar para casa mais cedo do que o esperado.

(Foto: Kirk Irwin/AFP)

 

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Kaique