Antes dos elogios ou das críticas individuais, a vitória do Brasil por 3 a 0 sobre o Haiti no segundo jogo da fase de grupos da Copa do Mundo deixou algumas pistas importantes sobre o que Carlo Ancelotti tenta construir para a seleção. O nível do adversário impede conclusões definitivas, mas algumas mudanças em relação à estreia contra o Marrocos foram evidentes e ajudam a entender por que a equipe teve uma atuação muito mais confortável.
Houve uma pressão mais coordenada, uma posse de bola mais inteligente, um melhor aproveitamento das características ofensivas dos jogadores e, ao mesmo tempo, ficaram expostas algumas limitações importantes, especialmente em nomes experientes. Confira as principais impressões do segundo jogo da seleção na Copa do Mundo.
A melhora na pressão passa por escolhas melhores
Uma das principais diferenças entre a atuação diante do Haiti e a estreia contra o Marrocos esteve na maneira como o Brasil pressionou a saída de bola. Contra os marroquinos, a sensação era de que cada jogador tinha uma ideia diferente sobre o momento de atacar o portador da bola. O resultado foi uma pressão desorganizada, com atletas correndo para todos os lados e abrindo espaços constantemente.
A equipe parecia obcecada em pressionar o goleiro adversário, o que acabava desmontando a estrutura defensiva. Quando a primeira linha era superada, o Brasil ficava espaçado e exposto, especialmente pelo centro. Não por acaso, Bruno Guimarães precisou fazer um enorme trabalho físico para compensar a desorganização do setor.
Contra o Haiti, a abordagem foi diferente. A seleção abriu mão de perseguir o goleiro e passou a pressionar com mais inteligência. Em vez de uma caça desordenada, houve maior preocupação em fechar linhas de passe e deixar Lucas Paquetá como responsável por atacar o homem da sobra. Por ser um jogador mais físico e intenso, Paquetá conseguiu dar agressividade à pressão sem comprometer tanto a estrutura.
O resultado foi um Brasil mais compacto, recuperando bolas em zonas perigosas e permitindo que os jogadores ofensivos recebessem em condições favoráveis. A intensidade permaneceu, mas agora havia coordenação. Não era mais uma corrida desenfreada, e sim um mecanismo coletivo mais organizado.
Brasil com posse e infiltração: o melhor dos dois mundos
Desde o início do trabalho de Ancelotti, uma das grandes discussões gira em torno da identidade da equipe. O elenco brasileiro foi montado para jogar em transição, aproveitando a velocidade de Vinícius Júnior, Raphinha, Martinelli e outros atacantes. Ao mesmo tempo, uma seleção do tamanho do Brasil precisa saber controlar jogos e ter posse de bola.
Contra o Marrocos, a equipe sofreu justamente porque não teve a bola e deixou a seleção marroquina mais confortável para jogar. Diante do Haiti, onde a equipe precisava ter a bola, surgiu uma solução interessante. O Brasil teve a posse, mas sem abrir mão das características dos seus jogadores. Em muitos momentos, a equipe chamava o adversário para o próprio campo e, quando atraía a pressão, acelerava através de infiltrações rápidas e bolas longas nas costas da defesa.
Foi assim que surgiram diversas oportunidades. Os defensores encontravam constantemente Vinícius Júnior, Raphinha e Matheus Cunha em profundidade. O Haiti insistia em subir a linha defensiva e oferecia espaços que a seleção aproveitou muito bem.
Essa solução parece atender às duas necessidades. O Brasil continua tendo a bola, mas não transforma a posse em um exercício estéril de passes horizontais. Ao mesmo tempo, não depende exclusivamente de entregar a posse ao adversário para encontrar espaços em transição. É um equilíbrio interessante, principalmente pelas características do elenco.
Bruno Guimarães e Matheus Cunha mudam a dinâmica ofensiva, mas ainda faltam testes mais exigentes
Individualmente, dois jogadores tiveram papel fundamental na melhora ofensiva da equipe: Bruno Guimarães e Matheus Cunha. Bruno foi o grande organizador da partida. Mais do que um volante responsável pela saída de bola, ele atacou espaços, aproximou-se dos pontas e criou superioridade numérica pelos lados do campo. A parceria com Vinícius Júnior e Raphinha foi um dos destaques da partida, gerando overloads constantes e permitindo que o Brasil encontrasse situações de um contra um em velocidade.
O problema é que ainda existe uma dúvida importante. Contra o Marrocos, uma seleção tecnicamente muito mais qualificada, Bruno ficou sobrecarregado. O meio-campo marroquino conseguia cercá-lo, e a falta de apoio comprometeu seu rendimento. O Haiti, pela diferença de nível, não ofereceu esse tipo de desafio. Por isso, embora a atuação tenha sido excelente, ainda é cedo para afirmar que Bruno pode sustentar sozinho toda a construção ofensiva contra adversários de maior qualidade.
Já Matheus Cunha trouxe uma dinâmica diferente ao ataque. Ao contrário de um centroavante fixo, o camisa 9 recuou constantemente para participar do jogo e atrair os zagueiros. Esse movimento abriu espaços para as infiltrações diagonais de Vinícius Júnior, uma das armas mais letais do futebol brasileiro.
Além dos dois gols, Cunha ajudou a conectar o meio-campo ao ataque e criou corredores para que os pontas atacassem as costas da defesa. Considerando que muitos dos jogadores brasileiros são especialistas em explorar profundidade, esse tipo de movimentação pode ser extremamente importante ao longo da Copa. Mais do que os gols, Matheus Cunha ofereceu um encaixe coletivo que potencializa os principais talentos da seleção.
Casemiro e Danilo seguem como os principais problemas
Se alguns jogadores cresceram, outros seguem preocupando. Casemiro talvez seja hoje a principal questão da seleção brasileira. O volante está longe de ser aquele jogador dominante dos tempos de Real Madrid. Na marcação, chega atrasado aos botes e tem dificuldade para proteger os espaços centrais. Isso obriga Bruno Guimarães a fazer um trabalho físico enorme para cobrir as lacunas deixadas pelo companheiro.
Com a bola, o problema também existe. Casemiro diminui o ritmo das jogadas, participa pouco da circulação e compromete o dinamismo do meio-campo. Contra o Haiti, isso não foi tão perceptível pela diferença técnica entre as equipes. Contra seleções mais fortes, entretanto, essa limitação pode se tornar um problema grave.
Danilo também merece atenção. O lateral fez uma partida segura e não comprometeu defensivamente, mas os sinais físicos são evidentes. Sua dificuldade para acelerar e sustentar intensidade durante os noventa minutos pode se tornar um problema importante em confrontos mais exigentes.
A Copa do Mundo costuma ser um torneio de detalhes, e seleções fortes não costumam perdoar fragilidades físicas ou individuais. O Brasil deu uma resposta positiva contra o Haiti e mostrou caminhos interessantes para o futuro, mas as próximas partidas serão um teste muito mais relevante para saber se essas soluções são sustentáveis e se as limitações de alguns veteranos não acabarão custando caro na busca pelo hexa.
(Foto: Roberto Schmidt/AFP)