Bruno Fernandes
Futebol Premier League

Bruno Fernandes perdeu influência no Manchester United? Por que os números do capitão escondem um problema maior

Há apenas algumas semanas, Bruno Fernandes era celebrado como o principal símbolo da recuperação do Manchester United. O português terminou a temporada 2025/26 com os prêmios de melhor jogador da Premier League concedidos pela PFA e pela associação de jornalistas esportivos, além de ter sido fundamental para a equipe alcançar a terceira colocação e garantir o retorno à Liga dos Campeões. Com nove gols e 21 assistências, estabeleceu um novo recorde de passes para gol em uma edição do campeonato inglês, superando a marca que Thierry Henry e Kevin De Bruyne dividiam. O início da temporada seguinte, entretanto, apresenta um cenário bastante diferente: embora continue sendo titular absoluto e participe de todos os minutos do United no Campeonato Inglês, o capitão parece ter perdido parte da influência que transformou seu futebol em um dos principais motores da equipe.

Os números ajudam a ilustrar a mudança, mas não contam toda a história. Fernandes soma três gols e uma assistência nas seis primeiras rodadas, e todas essas participações aconteceram na vitória sobre o Ipswich, até agora o único triunfo do Manchester United na competição. A produção não é necessariamente inferior à apresentada no início da temporada passada, quando o português marcou duas vezes e não distribuiu assistências nas seis primeiras partidas. A diferença está no contexto: naquela época, Ruben Amorim utilizava o meio-campista em uma função mais recuada. Agora, mesmo com maior responsabilidade na criação ofensiva, Fernandes encontra dificuldades para transformar sua presença em oportunidades claras de gol.

O problema parece ir além de uma simples fase de baixa. A redução na criação de chances, a ausência de um centroavante de referência e as mudanças na estrutura do meio-campo estão afetando a maneira como o capitão consegue participar das partidas. Em um time que conquistou apenas seis pontos nas seis primeiras rodadas, seu rendimento naturalmente se tornou parte da discussão. A questão central, porém, é saber se Fernandes está contribuindo para os problemas do United ou se também é uma das principais vítimas de uma equipe que ainda não encontrou seu funcionamento ideal.

Os números revelam uma mudança importante no jogo de Bruno Fernandes

Fernandes continua sendo um dos jogadores mais ativos do Manchester United no setor ofensivo. Sua média de 3,3 finalizações por partida é a segunda maior de sua carreira na Premier League, próxima do recorde pessoal de 3,5 registrado na temporada 2020/21. O volume de tentativas, portanto, não sugere que o português tenha deixado de procurar o gol ou perdido completamente a confiança para assumir responsabilidades.

O problema aparece quando se observa a qualidade e a construção dessas ações. O meio-campista registra apenas 0,8 finalização no alvo por jogo, uma das médias mais baixas de sua trajetória em Old Trafford. Sua criação de oportunidades também caiu consideravelmente: são 2,5 chances por partida, contra 4,0 na temporada passada. A diferença mais expressiva está nas chamadas grandes chances criadas, aquelas oportunidades que apresentam uma probabilidade elevada de terminar em gol. Fernandes produziu apenas uma até agora, justamente o passe em profundidade para Bryan Mbeumo na vitória sobre o Ipswich. Na campanha anterior, sua média havia sido de uma grande chance criada por jogo.

Esses dados ajudam a explicar por que o capitão parece menos influente, mesmo continuando a participar intensamente das partidas. Fernandes ainda procura passes verticais, arrisca finalizações e tenta acelerar o ataque, mas suas ações não estão produzindo o mesmo efeito. O volume permanece relativamente alto, enquanto a capacidade de transformar esse envolvimento em oportunidades realmente perigosas diminuiu.

A dificuldade ficou particularmente evidente no confronto contra o Tottenham, quando o português demorou impressionantes 23 minutos para completar um passe. Isoladamente, a estatística não define o desempenho de um jogador, mas funciona como um retrato de uma partida na qual ele encontrou dificuldades para participar do jogo com naturalidade.

Também seria precipitado concluir que Fernandes simplesmente perdeu qualidade. Aos 31 anos, ele continua sendo um dos jogadores tecnicamente mais importantes do elenco e possui um histórico suficientemente consistente para que uma sequência de resultados ruins não seja tratada como uma transformação definitiva de seu nível. O que merece atenção é a combinação entre os números, o posicionamento e a dificuldade de encontrar espaços para executar aquilo que normalmente faz melhor.

Em outras palavras, o Manchester United não está apenas recebendo menos gols e assistências de seu capitão. Está encontrando dificuldades para criar as condições necessárias para que ele volte a produzir no nível habitual.

A ausência de Sesko e Casemiro mudou o ambiente ao redor do capitão

Uma das explicações mais importantes está na ausência de dois jogadores que tiveram participação significativa no período de maior produtividade de Fernandes na temporada passada: Benjamin Sesko e Casemiro.

O centroavante esloveno funcionava como uma referência para os passes em profundidade e para as jogadas que exigiam alguém atacando a área. Dos nove gols marcados por Sesko no Campeonato Inglês em 2026, quatro tiveram participação direta de Fernandes, responsável pela assistência. Casemiro também oferecia uma estrutura que permitia ao português assumir riscos. Nos últimos cinco gols do brasileiro pelo United a partir de 1º de fevereiro, Fernandes foi o responsável por quatro assistências.

Essas conexões não explicam sozinhas a diferença entre as duas temporadas, mas ajudam a compreender como o futebol do capitão depende do funcionamento coletivo. Fernandes é um jogador que procura passes capazes de quebrar linhas, encontra companheiros em profundidade e frequentemente tenta acelerar o jogo antes que a defesa adversária consiga se reorganizar. Para que essas características produzam resultados, porém, ele precisa ter jogadores ocupando os espaços certos e oferecendo alternativas de passe.

Casemiro, apesar das limitações físicas e da queda de intensidade que marcaram parte de sua passagem final pelo clube, ainda possuía experiência para interpretar os momentos da partida e proteger determinadas zonas do campo. Com essa cobertura, Fernandes podia assumir mais riscos na construção sem deixar o time tão vulnerável às transições adversárias.

A saída do brasileiro para o Inter Miami retirou essa referência do meio-campo. O United reforçou o setor durante a janela de transferências, mas a ausência de um jogador com características semelhantes alterou o equilíbrio da equipe. O problema não é necessariamente que o substituto seja inferior em todos os aspectos, mas que o comportamento coletivo passou a exigir outras respostas.

A situação de Sesko é igualmente importante. O atacante sofreu uma nova lesão na canela, prolongando um período de participação limitada, e ainda não existe uma previsão clara para seu retorno. O clube decidiu não contratar mais um centroavante para ampliar as opções de ataque, apostando que o elenco conseguiria administrar a ausência do esloveno.

O plano inicial previa a utilização de Mbeumo como referência ofensiva, mas uma lesão no tornozelo de Amad Diallo pouco antes da abertura da temporada obrigou Michael Carrick a rever a estratégia. Matheus Cunha recebeu a função, mas passou a recuar frequentemente para participar da construção, ocupando espaços semelhantes aos utilizados por Fernandes.

Essa sobreposição ajuda a explicar parte das dificuldades do português. Quando Cunha abandona a última linha para buscar a bola, o United pode ganhar um jogador na construção, mas também corre o risco de concentrar atletas em zonas próximas e deixar a área sem uma referência clara. Fernandes, que precisa de espaço para receber e encontrar os passes decisivos, acaba disputando regiões do campo com um companheiro que também deseja participar da criação.

O resultado é um ataque que nem sempre oferece profundidade, presença de área e linhas de passe complementares. Para um jogador cuja principal virtude é identificar e explorar espaços antes que eles desapareçam, esse cenário representa uma limitação considerável.

A lesão pode explicar parte da queda, mas não resolve o diagnóstico

Existe ainda uma variável física que não deve ser ignorada. Fernandes foi poupado de uma partida recente da seleção portuguesa contra a Noruega porque, segundo o treinador Jorge Jesus, estava atuando com dores. O meio-campista, entretanto, retornou para os dois compromissos seguintes e também completou os 90 minutos na vitória por 4 a 0 sobre o Sabah FK, pela Liga dos Campeões.

Michael Carrick minimizou a preocupação antes do confronto contra o Atlético de Madrid. O treinador reconheceu que o capitão vinha lidando com um problema físico, mas afirmou que a situação era administrável e que o jogador estava praticamente recuperado. Segundo ele, Fernandes participou bem do treinamento e demonstrava disposição para voltar a campo.

É uma informação relevante, mas insuficiente para atribuir toda a queda de rendimento à condição física. O português tem um histórico de disponibilidade elevado e costuma jogar mesmo quando enfrenta pequenos problemas. Ainda assim, atuar com dores pode afetar a aceleração, a mobilidade e a capacidade de repetir esforços, elementos importantes para um meio-campista que participa tanto da construção quanto da pressão sobre o adversário.

A questão é que a dificuldade de Fernandes também aparece em aspectos coletivos que uma recuperação física, por si só, não resolveria. Mesmo que volte a jogar sem limitações, o capitão continuará precisando de uma estrutura ofensiva mais clara, de companheiros ocupando espaços complementares e de uma equipe capaz de controlar melhor os momentos da partida.

O próprio Carrick afirmou que ninguém tem vaga garantida na equipe, embora suas declarações não indiquem que esteja planejando deixar o capitão fora da escalação. A posição faz sentido. Fernandes é um jogador de qualidade comprovada, tem experiência e costuma ser decisivo quando encontra condições para atuar em seu melhor nível. Sacrificá-lo com base em uma sequência curta de resultados seria uma reação exagerada.

Isso não significa, entretanto, que sua titularidade deva impedir uma avaliação crítica de seu papel. O United precisa descobrir se a melhor maneira de aproveitar Fernandes continua sendo a mesma ou se o contexto atual exige mudanças em seu posicionamento, nas responsabilidades defensivas ou na relação com os outros jogadores de meio-campo.

O Manchester United precisa recuperar Fernandes sem depender apenas dele

O grande risco para o United é transformar a recuperação de seu capitão em mais uma tentativa de resolver individualmente um problema coletivo. Durante a temporada passada, Fernandes foi tão decisivo que conseguiu esconder parte das limitações da equipe. Seus gols, assistências e passes criativos ajudaram a sustentar uma campanha que terminou muito acima das expectativas iniciais.

Essa dependência, porém, também pode criar uma armadilha. Quando o português está em grande fase, o time encontra soluções mesmo quando a construção coletiva não funciona perfeitamente. Quando sua produção diminui, as dificuldades que antes eram compensadas por sua qualidade aparecem com muito mais clareza.

O cenário atual sugere justamente isso. A ausência de Sesko reduziu a presença ofensiva na área, a saída de Casemiro alterou o equilíbrio do meio-campo e a utilização de Cunha como centroavante não produziu uma relação eficiente com Fernandes. O capitão continua tentando resolver os problemas, mas encontra um ambiente no qual suas principais características são menos aproveitadas.

A resposta precisa envolver tanto o jogador quanto a comissão técnica. Fernandes terá de recuperar a precisão nas decisões, melhorar a escolha dos momentos para arriscar e encontrar maneiras de influenciar a partida mesmo quando não conseguir receber a bola nas condições ideais. Ao mesmo tempo, Carrick precisa organizar o ataque para que o português não seja obrigado a resolver todas as fases da construção e da criação.

Isso pode significar oferecer mais profundidade com os atacantes, evitar que Cunha e Fernandes ocupem constantemente as mesmas zonas e garantir que o meio-campo tenha equilíbrio suficiente para permitir que o capitão jogue com liberdade. Também será necessário avaliar como a equipe pode compensar a ausência de um centroavante de referência enquanto Sesko não estiver disponível.

O desafio é urgente porque o início de temporada já colocou o Manchester United em uma posição desconfortável. Seis pontos em seis rodadas representam o pior começo de campeonato do clube em quatro décadas, um dado que aumenta a pressão sobre Carrick e torna cada decisão mais importante.

Fernandes, naturalmente, será parte central dessa discussão. Ele é o capitão, o principal articulador do time e um dos jogadores que mais influenciam a maneira como o United ataca. Mas seria simplista tratá-lo como o responsável exclusivo pela crise. Seus números mostram uma queda na criação, porém o contexto aponta para uma equipe que perdeu conexões importantes e ainda não encontrou uma estrutura ofensiva capaz de potencializar seu principal jogador.

Carrick continua confiante de que o português voltará a produzir em alto nível. A confiança tem fundamento, considerando o histórico de Fernandes e a importância que ele teve na temporada anterior. O que o United não pode fazer é esperar que a solução apareça apenas porque seu capitão costuma resolver problemas.

A temporada passada mostrou até onde Fernandes pode levar a equipe quando encontra condições favoráveis. A atual está revelando o quanto o Manchester United ainda depende dele e, ao mesmo tempo, o quanto precisa aprender a funcionar sem exigir que seu capitão seja a resposta para tudo.

O português pode voltar a marcar, criar grandes chances e decidir partidas. Para que isso aconteça com regularidade, entretanto, o United precisará reconstruir o contexto que tornou seu futebol tão produtivo. A recuperação de Fernandes é importante, mas a recuperação da equipe depende de algo maior: transformar a qualidade individual do capitão em parte de um sistema que volte a funcionar como um todo.

(Foto: Getty Images)