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Futebol Premier League

A caça às joias inglesas: por que a Premier League está de olho na EFL

O futebol inglês criou uma das estruturas de formação mais fortes do mundo, mas os grandes clubes da Premier League perceberam que não precisam necessariamente esperar que um jovem talento se destaque durante anos dentro de suas próprias academias. Cada vez mais, os clubes da elite estão olhando para divisões inferiores em busca de jogadores que possam ser desenvolvidos e, posteriormente, transformados em peças importantes do time principal.

Essa estratégia ganhou força com histórias como as de Antoine Semenyo, Eberechi Eze, Ollie Watkins e Adam Wharton. Todos passaram por clubes fora do grupo mais poderoso do futebol inglês antes de chegarem ao mais alto nível. O caminho percorrido por esses jogadores mostra que existe muito talento espalhado pela estrutura do futebol nacional.

Um dos exemplos mais recentes é Jeremy Monga. O Manchester City desembolsou £12,5 milhões para contratar o jogador de 17 anos do Leicester City, vencendo a concorrência do Arsenal. Monga chegou ao Leicester aos oito anos e rapidamente começou a quebrar marcas de precocidade.

Em abril de 2025, ele se tornou o segundo jogador mais jovem do Leicester a atuar na Premier League, aos 15 anos e 271 dias, e também superou Jude Bellingham como o jogador mais jovem a marcar na Championship.

O caso mostra como o mercado mudou. Quando um jogador ainda está no início da formação, seu preço pode ser relativamente acessível. Porém, depois que ele começa a aparecer no futebol profissional, seu valor pode crescer rapidamente.

É justamente nesse espaço que os clubes da Premier League querem agir.

Clubes ingleses estão procurando talentos cada vez mais jovens

Semenyo Bristol City
Foto: Andy Watts/JMP

A League One também ganhou importância nesse processo. Sete dos 14 jogadores recrutados neste verão vieram dessa divisão, enquanto apenas dois haviam feito esse caminho na temporada anterior.

Entre os jovens que mudaram de clube estão Blade Earley, do Cambridge United para o Aston Villa, Valentin Joseph e George Munday, que deixaram o Cambridge United e o Blackburn Rovers rumo ao Brighton, Harrison Bettoni, do Wigan Athletic para o Chelsea, e Maxwell Adedeji, do Leicester City para o Tottenham.

A preferência por jogadores de 18 anos possui uma explicação lógica.

Nessa idade, os atletas já passaram por vários anos de treinamento e formação profissional, mas ainda têm tempo suficiente para serem moldados dentro de uma nova estrutura. Um clube da Premier League pode colocá-los em sua equipe sub-21, trabalhar aspectos específicos de seu jogo e decidir posteriormente se o melhor caminho é um empréstimo ou uma promoção ao time principal.

Além disso, o investimento costuma ser relativamente baixo.

Dos 14 jogadores identificados neste verão, nove chegaram por transferências gratuitas, enquanto os outros cinco tiveram valores não divulgados. Na temporada anterior, oito dos 14 também foram contratados sem custos de transferência.

Para clubes que movimentam dezenas de milhões de libras em contratações de jogadores estabelecidos, apostar em vários jovens representa um risco financeiro muito menor.

Se apenas um deles se transformar em titular da Premier League, o investimento pode ser extremamente lucrativo.

Brexit mudou a forma como os clubes ingleses procuram jovens talentos

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Foto: Getty Images

Para entender por que as academias da EFL ganharam ainda mais importância para os clubes da Premier League, é preciso falar sobre o Brexit. O termo se refere à saída do Reino Unido da União Europeia, processo que foi aprovado em um referendo realizado em 2016 e que foi concluído oficialmente no fim de 2020. A partir de 2021, novas regras passaram a afetar diretamente a circulação e o trabalho de cidadãos europeus no Reino Unido.

Antes do Brexit, jogadores de países da União Europeia tinham muito mais facilidade para se mudar para a Inglaterra e atuar profissionalmente. Os clubes ingleses podiam observar jovens talentos em países como Espanha, França, Portugal, Alemanha e Itália e contratá-los sem enfrentar as mesmas exigências de autorização de trabalho que existem atualmente.

Isso era especialmente importante para as academias. Um clube inglês poderia encontrar um adolescente promissor em outro país europeu e incorporá-lo ao seu sistema de formação ainda muito jovem.

Com o Brexit, esse cenário mudou. Jogadores estrangeiros precisam cumprir determinados critérios para obter uma autorização de trabalho no Reino Unido, e as exigências são ainda mais relevantes quando se trata de atletas muito jovens e sem experiência no futebol profissional.

Uma estimativa da Analytics FC, feita em 2022 em parceria com especialistas em imigração da Fragomen, ajuda a dimensionar essa mudança. Antes do Brexit, cerca de 60 mil jogadores profissionais na Europa poderiam estar potencialmente disponíveis para clubes britânicos. Com o novo sistema de autorização, esse número caiu para aproximadamente 5 mil jogadores elegíveis, uma redução de cerca de 92%.

Na prática, isso não significa que os clubes ingleses ficaram impedidos de contratar jogadores estrangeiros. A questão é que o processo passou a ser muito mais restritivo, principalmente para atletas que ainda estão no início da carreira.

Por isso, o mercado doméstico ganhou importância.

Um jovem formado em uma academia inglesa já está inserido no sistema do país e não precisa enfrentar esse mesmo obstáculo para trabalhar no futebol profissional. Para um clube da Premier League, contratar um jogador de 17 ou 18 anos que já esteja se desenvolvendo na EFL pode ser uma maneira mais simples de encontrar talento e, ao mesmo tempo, evitar as dificuldades que uma contratação internacional poderia apresentar.

O caso de Ifeanyi Ndukwe, do Liverpool, mostra como essas regras podem afetar até mesmo jogadores que já estão integrados a clubes ingleses. O zagueiro de 18 anos chegou do Austria Vienna e impressionou durante a pré temporada, mas não pode disputar partidas oficiais pelo Liverpool porque ainda não atende aos requisitos para obter uma autorização de trabalho. A expectativa é que um empréstimo para outro país permita que ele acumule experiência e cumpra os critérios necessários no futuro.

Um jovem formado em uma academia inglesa não enfrenta esse mesmo problema. Isso torna o mercado doméstico ainda mais atraente para os grandes clubes.

A Premier League passou a ter uma vantagem adicional ao olhar para a EFL: os jogadores já estão dentro do sistema inglês e não precisam superar as mesmas barreiras burocráticas encontradas em contratações internacionais.

Essa realidade ajuda a explicar por que clubes estão tentando encontrar talentos antes que eles se tornem nomes conhecidos em todo o futebol europeu.

O objetivo é antecipar a valorização.

Semenyo é um excelente exemplo. Antes de chegar ao Bournemouth e posteriormente ao Manchester City, o atacante havia sido rejeitado por várias academias. O Bristol City o descobriu jogando futebol universitário e iniciou um processo de desenvolvimento que passou por empréstimos ao Newport County e ao Sunderland.

Depois de se consolidar na Championship, Semenyo foi contratado pelo Bournemouth por aproximadamente £10 milhões. Mais tarde, o Manchester City pagou £64 milhões para contar com o jogador.

Eze percorreu caminho semelhante. Depois de ser dispensado pelo Arsenal, passou pelo Millwall e pelo QPR antes de se estabelecer na Premier League.

Ollie Watkins também construiu sua carreira fora dos grandes centros, começando no Exeter City antes de chegar ao futebol de elite.

Esses casos mostram exatamente o que os departamentos de recrutamento procuram.

O próximo grande atacante pode não estar em uma das academias mais famosas da Inglaterra. Pode estar atuando em uma equipe da League One, Championship ou até em uma estrutura menos conhecida.

Para os clubes da Premier League, encontrar esse jogador cedo pode significar economizar milhões e, ao mesmo tempo, conquistar um atleta com enorme potencial de valorização.

Para os clubes da EFL, entretanto, o cenário representa um desafio. Quanto melhor for sua capacidade de revelar talentos, maior será o interesse dos clubes mais ricos.

A grande disputa agora não é apenas por jogadores já estabelecidos.

É por descobrir quem será o próximo Semenyo, Eze, Watkins ou Wharton antes que o mercado perceba o tamanho de seu potencial.

(Foto de capa: Getty Images)

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Kaique