A expulsão de Moisés Caicedo no duelo entre Chelsea e Arsenal não passou batido, e se encontra como uma das polêmicas deste final de semana. Só que não pelo fato de ter sido injusta… Enzo Maresca, técnico dos Blues, chegou a ter a vantagem no placar, mesmo com um a menos, mas ao terminar os 90 minutos no 1 a 1, não teve caminho diferente do que pensar sobre o fato de seu atleta ter sido punido ao máximo, enquanto não foi desta maneira em outras situações.
“É vermelho, mas por que o do Bentancur não foi?”, desabafou o treinador, citando uma entrada do meio-campista do Tottenham sobre Reece James algumas semanas antes. A questão é que, não dá pra contraargumentar Maresca, existe base em suas falas. Quando você coloca os dois lances lado a lado, é impossível negar aquela sensação de que a arbitragem sofre bastante com critério.
VAR nota pequena diferença entre lances de Caicedo e Bentancur
A grande explicação está em pequenas, mas importantes, diferenças técnicas.
Enquanto Bentancur chegou “pisando”, num movimento mais baixo e sem tanta elevação, Caicedo deu um pequeno salto na dividida, o que muda completamente a interpretação do acontecimento. Esse saltinho, somado ao ponto de contato mais alto e à forma como o tornozelo de Mikel Merino dobrou, foi suficiente para o VAR entender que havia força excessiva por parte do equatoriano, que é exatamente o critério que transforma um amarelo em vermelho.
Para completar, o painel de Key Match Incidents (KMI) da Premier League avaliou os dois lances. No caso de Bentancur, decidiu por 4 votos a 1 que o amarelo estava correto. Já para Caicedo, não houve debate: expulsão.
Claro, isso não resolve o problema da inconsistência. Na próxima rodada, um lance igualzinho pode receber uma decisão completamente diferente. Acabam sendo os ossos do ofício, mesmo com a presença do VAR, e também, se apresenta como um ponto interessante, sobre quem diz que os erros só aparecem no Brasil, e na Premier League não existe…
Teve até confusão na comunicação: o VAR mandou dar amarelo?
Muita gente achou que o VAR chamou Anthony Taylor para ele aplicar o amarelo a Caicedo antes da revisão. Mas não foi nada disso.
A sequência foi bem mais simples: Taylor deu vantagem ao Arsenal, a jogada continuou, Moisés Caicedo caiu, o jogo parou com a bola saindo, e o árbitro esperou o volante levantar para poder aplicar o cartão, porque a recomendação é não mostrar cartão para jogador no chão.
Enquanto Caicedo era atendido, o VAR já estava revisando o lance, e na minha cabeça, creio que o equatoriano já estava ciente do que viria pela frente. Assim que o juiz finalmente mostrou o amarelo, o VAR entrou e avisou: “vai no monitor, porque isso aí é vermelho”. E aí a expulsão veio.
Ironicamente, como Taylor deu vantagem e não marcou a falta antes, o Arsenal acabou prejudicado, já que o reinício foi um simples lateral, e não uma falta frontal com potencial de ataque perigoso.
Kavanagh rejeita revisão de vermelho, só a segunda vez na Premier League
Outro capítulo raro da rodada foi Chris Kavanagh recusando uma recomendação do VAR para expulsar Jhon Arias em lance com Boubacar Kamara. Segundo o VAR, Arias entrou com os dois pés de forma perigosa. Segundo Kavanagh, não houve força suficiente para vermelho, entra o ponto de que em certas situações, o juiz colocará seu corpo na linha do tiro, por confiar na própria interpretação.
E, considerando o histórico recente da liga, onde já vimos entradas bem mais feias passarem sem expulsão (inclusive aquela voadora de Lisandro Martínez na temporada passada), dá para entender a decisão.
E o gol do Chelsea? Era pra anular por impedimento?
Mais polêmica: no gol de Trevoh Chalobah, Enzo Fernández estava impedido e muito próximo dos defensores do Arsenal, tão próximo que se estivesse de vermelho, seria difícil de decifrar se há mais alguém metido naquele meio.
Embora não tenha tocado na bola, ele encosta em Hincapié e pode ter influenciado a jogada. A questão é: influenciou o suficiente? Para o VAR, não. Para quem assistiu, depende do humor do torcedor, e para muitos, depois do impedimento dado contra Andrew Robertson em City x Liverpool, esse tipo de lance precisa ser revisto com lupa e bastante atenção.
Hincapié e o “não foi cotovelada”
E não pense que as polêmicas acabaram por aí. Pouco depois da expulsão de Caicedo, Hincapié pulou para disputar uma bola com Chalobah e acabou acertando o rosto do defensor do Chelsea, o ritmo frenético e o nível do clássico abriram espaço para essas movimentações mais brutas. Maresca, claro, pediu cartão vermelho, se a partida virasse um 10×10, o time que está vencendo sairia bem da situação.
A arbitragem, porém, interpretou o lance como algo natural da disputa aérea, logo, Caicedo se manteve como o único no vestiário. Para configurar cotovelada para expulsão, os árbitros buscam sinais claros de que o movimento foi antinatural, agressivo ou deliberado, e nada disso apareceu no gesto de Hincapié, deixando Caicedo ser o único equatoriano expulso. O braço estava lá porque faz parte do movimento do salto, não porque ele decidiu “abrir o compasso facial” do Chalobah.
Isso não significa que o impacto foi leve, Chalobah saiu com um belo olho roxo, daqueles que fazem treinador perguntar se o árbitro está realmente vendo o mesmo jogo. Mas, pela regra, a presença de lesão não determina a gravidade da infração. Um rosto marcado pode vir tanto de uma cotovelada intencional quanto de um choque acidental, e para o árbitro, esse lance foi claramente a segunda opção. Por isso, ficou apenas no amarelo mesmo.
O VAR é claro… até a hora em que deixa de ser
No fim das contas, Maresca tem razão em algo: consistência não existe. Cada árbitro interpreta de um jeito, cada VAR olha por um ângulo diferente e a Premier League segue firme na missão de provar que entender decisões de arbitragem sem café forte é impossível.
Caicedo mereceu o vermelho? Sim.
Bentancur deveria ter sido expulso? Provavelmente.
Vai acontecer tudo de novo na próxima rodada? Com toda certeza.
E estaremos aqui, tentando entender. E reclamando, porque isso sim é consistente no futebol.
Foto: Getty Images