Mohamed Salah já conquistou praticamente tudo no futebol de clubes. Empilhou títulos, quebrou recordes e se tornou um dos maiores ídolos da história do Liverpool. Mas, para o camisa 10, poucas vitórias tiveram tanto significado quanto a classificação histórica do Egito às oitavas de final da Copa do Mundo.
Na dramática vitória sobre a Austrália, decidida nos pênaltis após empate em 1 a 1, Salah não marcou durante a bola rolando, mas foi o grande protagonista da partida. Jogou lesionado, liderou tecnicamente a equipe e converteu sua cobrança na disputa que colocou os Faraós, pela primeira vez, entre os oito melhores do Mundial.
Nem as pausas esfriavam a festa por Salah
As pausas para hidratação voltaram a dividir opiniões na Copa do Mundo. Em praticamente todos os estádios, os três minutos de interrupção são acompanhados por vaias dos torcedores, incomodados com a quebra do ritmo da partida — e também com os tradicionais intervalos comerciais das transmissões.
No AT&T Stadium, porém, havia uma exceção. Atrás do banco de reservas egípcio, centenas de torcedores aproveitavam cada parada para registrar um momento especial: a aproximação de Mohamed Salah.
Celulares erguidos, gritos de incentivo e camisas vermelhas dominavam aquele setor do estádio. Para eles, qualquer oportunidade de ver de perto o maior jogador da história recente do país merecia ser celebrada.
A idolatria por Salah também se espalhava pelos corredores da arena. Em meio às tradicionais camisas dos Estados Unidos, México e Austrália, uma peça chamava atenção: o uniforme do Liverpool estampado com o nome do atacante egípcio.
Faixas como “Obrigado pelas memórias, Mo”, “Você nunca caminhará sozinho” e outras homenagens mostravam que sua influência ultrapassa há muito tempo as fronteiras do Egito.
Mesmo jogando no sacrifício, Salah foi decisivo

Só o fato de Salah estar em campo já era notícia. O atacante havia agravado uma lesão na coxa durante a fase de grupos, diante do Irã, e chegou cercado de dúvidas para o confronto eliminatório.
Os egípcios, inclusive, afirmaram que o capitão fez um tratamento intensivo para que possa ficar disponível para o jogo contra a Austrália. A estratégia até deu resultado e Salah chegou a treinar na quarta e quinta-feira — véspera do duelo —, mas ainda sim sua condição de jogo era incerta.
Mesmo assim, nunca pareceu cogitar ficar de fora. Durante os 120 minutos, foi o jogador mais participativo da seleção egípcia.
Criou cinco chances de gol, acumulou oito toques dentro da área adversária e exigiu atenção constante da defesa australiana, frequentemente cercado por dois ou três marcadores. Foi um choque de realidade e tanto, já que foi apenas a segunda vez que ‘Mo’ completou mais de 90 minutos nessa Copa do Mundo — e ainda foi além ao estar em ação durante toda a prorrogação.
Nos pênaltis, demonstrou toda sua personalidade. Com extrema frieza, deslocou Mathew Ryan com uma cavadinha no centro do gol e abriu caminho para a classificação histórica dos Faraós.
“Um dos melhores dias da minha vida”

Após o apito final, Salah resumiu o tamanho do momento.
“Não sei se esta será a última dança de alguns grandes jogadores, mas hoje foi incrível. Nada me deixa mais orgulhoso do que ver meus companheiros felizes. Hoje foi um dos melhores dias da minha vida. Fizemos história com esta equipe.”
A declaração ganha ainda mais peso quando parte de um jogador que venceu praticamente tudo no futebol europeu.
Mesmo com títulos da Champions League, Premier League, Mundial de Clubes e inúmeras premiações individuais, colocar o Egito nas quartas de final de uma Copa do Mundo parece ocupar um lugar especial em sua trajetória.
O técnico australiano Tony Popovic também destacou o tamanho da atuação do camisa 10.
“Ele é um jogador excepcional. Atuou os 120 minutos mesmo lesionado. Sim, é um atleta capaz de carregar uma seleção.” — ressaltou, Tony.
Uma Copa entre gerações

A Copa do Mundo de 2026 vem sendo marcada pelo encontro entre diferentes gerações. Lionel Messi e Cristiano Ronaldo continuam decisivos mesmo próximos do fim da carreira. Ao mesmo tempo, nomes como Kylian Mbappé, Erling Haaland, Vini Jr. e Lamine Yamal representam o futuro do futebol mundial.
Salah ocupa um espaço peculiar nesse cenário. Aos 34 anos, vive um momento de indefinição sobre o futuro da carreira, mas segue demonstrando que ainda pode decidir grandes partidas.
‘Mo’ continua sendo o principal símbolo de uma seleção que nunca havia alcançado tamanho protagonismo em uma Copa do Mundo. Somente neste Mundial, os egípcios conquistam sua primeira vitória na história da competição, uma classificação inédita para o mata-mata e também o avanço para as oitavas.
Um legado que vai além dos gols
Curiosamente, Salah não balançou as redes contra a Austrália. Ainda assim, saiu de campo como o grande nome da classificação. Foi para o jogador que a Fifa entregou o prêmio de melhor da partida, em mais uma exibição de protagonismo e, acima de tudo, liderança.
Seu desempenho foi decisivo para conduzir o Egito à maior campanha de sua história em Mundiais e ampliar um legado que há muito deixou de ser medido apenas em estatísticas.
O técnico Hassan Hossam resumiu o sentimento do país após a classificação.
“Foi uma pressão enorme. Queríamos dar essa alegria ao nosso povo. Esta é uma conquista nacional.”
No centro de toda a festa estava justamente quem todos esperavam ver. Mesmo sem marcar durante os 120 minutos, Mohamed Salah mostrou mais uma vez por que continua sendo muito maior do que um simples artilheiro.
Para milhões de egípcios, ele segue sendo o rosto de um sonho que, agora, também passa a fazer parte da história das Copas do Mundo.
Créditos da foto de capa: IMAGN IMAGES via Reuters/Maria Lysaker

