Nem mesmo a vitória diante do Puerto Cabello, por 1 a 0, nesta quarta-feira (08), pela segunda rodada da Copa Sul-Americana, foi capaz de acalmar os ânimos do torcedor do Vasco da Gama. O clima em São Januário foi tenso do início ao fim, com vaias direcionadas a Fábio Carille durante o jogo inteiro e, principalmente, após o apito final. O treinador, que já não conta com o apoio da torcida há algum tempo, vê sua situação cada vez mais insustentável no cargo. O que se viu ontem foi mais uma prova de que sua permanência parece ser apenas uma questão de tempo – e talvez não dure até o próximo jogo.
O adversário, vale lembrar, era o Academia Puerto Cabello, da Venezuela, um time considerado quase semi amador por muitos torcedores e analistas. Mesmo jogando em casa, com apoio da torcida (mesmo que desconfiada), o Vasco não conseguiu transformar a superioridade técnica em um placar elástico. Criou, sim, diversas chances de gol, mas parou numa atuação espetacular do goleiro Romero, que foi eleito, com justiça, o melhor em campo. O camisa 1 venezuelano fez pelo menos cinco defesas difíceis, sendo quatro delas em finalizações de Philippe Coutinho, que, diga-se, foi um dos poucos que se salvaram em campo.
Boa notícia para o torcedor do Vasco
Coutinho, aliás, vem sendo uma das raras boas notícias nesse time do Vasco. Aos poucos, o meia vai reencontrando seu bom futebol. Contra o Puerto Cabello, mostrou qualidade, visão de jogo, criatividade e presença ofensiva. Pisou na área várias vezes, deu bons passes e foi responsável por grande parte das jogadas de perigo. Mesmo sem balançar as redes, saiu como um dos destaques da partida. É o tipo de jogador que, se conseguir manter esse nível, pode ser fundamental para o Vasco pensar em algo maior na temporada.

Sempre ele
Do lado de quem decide, Vegetti segue sendo o cara. O argentino mais uma vez mostrou por que é o jogador mais importante do elenco vascaíno. Artilheiro, capitão e referência dentro e fora de campo, ele marcou o gol da vitória em um lance que parecia sem grandes pretensões. Um escanteio meio desajeitado, mal batido, mas que encontrou a cabeça de Vegetti. O centroavante subiu mais que a zaga e mandou um foguete no cantinho, sem chances para Romero. Um gol de raça, de quem conhece a área como poucos. O problema é que, tirando ele, o Vasco ainda mostra uma dificuldade absurda em balançar as redes.

Apesar da vitória, o time seguiu apresentando os mesmos problemas das últimas partidas. Falta de intensidade, pouca variação ofensiva, erros de posicionamento e pouca confiança. O resultado final mascarou um pouco a atuação fraca, mas o torcedor, que não é bobo, viu e entendeu tudo. Prova disso foram as vaias que começaram ainda no primeiro tempo e só aumentaram na etapa final. Quando o jogo terminou, a cena mais simbólica da noite: Carille correndo em direção ao vestiário, sob vaias ensurdecedoras. Um pique daqueles, como quem queria desaparecer dali o mais rápido possível. Cena estranha, simbólica, que diz muito sobre o ambiente interno do clube.
E se a vaia já seria pesada, teve ainda mais lenha na fogueira depois do gol de Vegetti. Na comemoração, o argentino chamou os jogadores para um abraço coletivo em Carille, numa tentativa clara de mostrar apoio ao treinador. Mas a torcida não gostou nada da cena. Pelo contrário, respondeu com mais vaias e gritos de protesto. O gesto, que em outro momento poderia soar como união, foi visto como provocação ou insensibilidade por parte dos atletas. O recado da arquibancada foi claro: o problema não é com os jogadores, é com o técnico.
E não é difícil entender o porquê. O Vasco não vem jogando bem há algumas partidas. Antes do jogo contra o Puerto Cabello, o time vinha de um empate sem graça por 0 a 0 com o Fortaleza, na estreia da Sul-Americana. No Brasileirão, perdeu para o Bragantino por 2 a 1 e venceu o Grêmio por 2 a 1, num jogo em que sofreu muito no segundo tempo. Ou seja, os resultados até podem aparecer de vez em quando, mas o desempenho não convence. O futebol apresentado é pobre, sem criatividade, e isso vem minando qualquer chance de paciência que ainda restava ao torcedor.
Problemas de identidade
A verdade é que Carille parece não ter conseguido dar uma identidade ao time. E quando o torcedor não vê evolução dentro de campo, o desgaste é inevitável. A falta de conexão entre técnico e torcida está clara, e a cada jogo a pressão só aumenta. O gesto dos jogadores tentando blindar o treinador até pode ter sido nobre, mas ficou nítido que ele não tem mais o respaldo das arquibancadas. E sem o apoio da torcida, o ambiente se torna tóxico, instável e, muitas vezes, insustentável.
Próximo compromisso do Vasco
Agora, o Vasco volta a campo neste sábado, novamente em São Januário, para enfrentar o Sport, pela terceira rodada do Campeonato Brasileiro. Um jogo que pode ser decisivo não apenas para a sequência do time na competição, mas também para o futuro de Carille no comando técnico. Resta saber se ele chega até lá como treinador. Porque, ao que tudo indica, a corda está no limite. E quando a torcida perde a paciência, o fim costuma ser inevitável.
