Michael Carrick começou a temporada 2026/27 em uma situação muito diferente daquela que o colocou no comando definitivo do Manchester United. Depois de assumir a equipe durante a temporada passada e conduzir o clube ao terceiro lugar da Premier League, o treinador recebeu um contrato de dois anos e a confiança da diretoria para continuar o trabalho.
A expectativa era de continuidade. Carrick havia vencido 12 dos 17 jogos disputados na Premier League na temporada anterior e conseguiu recuperar uma equipe que vinha apresentando dificuldades sob Ruben Amorim. O desempenho foi suficiente para transformar uma solução temporária em uma aposta de longo prazo.
O problema é que os resultados desta temporada mudaram rapidamente o cenário. Em sete partidas por todas as competições, o Manchester United venceu apenas duas. Os triunfos aconteceram contra Ipswich Town e Sabah, enquanto a equipe sofreu uma derrota por 2 a 0 para o recém promovido Hull City, deixou escapar vantagens contra o Everton, perdeu para o Manchester City e desperdiçou uma vantagem de dois gols diante do Brighton na Copa da Liga Inglesa.
O empate por 1 a 1 com o Fulham também aumentou a preocupação. O adversário começou a quinta rodada na última posição da tabela, e o United novamente não conseguiu transformar sua superioridade territorial em uma vitória.
Os números mostram que o problema não está simplesmente na falta de posse de bola ou de volume ofensivo. Na realidade, o Manchester United passou a ter mais a bola, mas ainda não encontrou a melhor maneira de utilizar esse domínio.
Mais posse, mas menos eficiência

Uma das principais mudanças em relação ao trabalho de Carrick na temporada passada está justamente na posse de bola. Em 2025/26, o Manchester United teve média de 49,1% de posse. Nesta temporada, esse número subiu para 58% considerando todas as competições e para 59,9% apenas na Premier League.
O aumento é expressivo, mas também representa um desafio para uma equipe que parecia funcionar melhor quando podia explorar transições rápidas.
Um dos melhores exemplos aconteceu no clássico contra o Manchester City. Antes da expulsão de Phil Foden, o United conseguiu competir e apresentar bons momentos. Porém, quando passou a ter um jogador a mais e precisou assumir o controle da partida, a equipe pareceu desconfortável.
Isso ajuda a explicar uma das principais questões do atual Manchester United. A equipe tem jogadores capazes de atacar espaços, mas está passando mais tempo enfrentando defesas organizadas e tentando construir as jogadas.
O United teve 113 finalizações nesta temporada, 18 a mais do que qualquer outro time da Premier League. Também registrou 182 toques na área adversária, 22 a mais do que qualquer outra equipe. O xG sem pênaltis chegou a 9,1, ficando atrás apenas de Brighton, Manchester City e Brentford.
Mesmo assim, a equipe não está convertendo esse volume em gols.
O principal problema está na qualidade das finalizações. A distância média dos chutes do United é de 17,9 metros, a segunda maior da competição. O valor médio de xG das finalizações sem pênaltis é de apenas 0,08, um dos menores índices da liga.
Ou seja, o Manchester United chega muito, mas muitas vezes finaliza de posições pouco perigosas.
Os problemas de intensidade e pressão

Outro ponto importante está relacionado à maneira como o United tenta recuperar a bola. A equipe passou a utilizar um bloco alto em 42% do tempo nesta temporada, o maior percentual da Premier League. Na temporada passada, sob Carrick, esse índice era de apenas 26%.
A mudança parece indicar uma tentativa de pressionar os adversários mais acima no campo. O problema é que o sistema exige uma defesa capaz de atuar com uma linha mais adiantada e jogadores com mobilidade suficiente para cobrir os espaços.
O United não parece completamente confortável nesse cenário.
A equipe permite que os adversários façam, em média, 12,1 passes antes de uma ação defensiva, número próximo da média da Premier League, que é de 12,5. Além disso, o clube registrou apenas 26 recuperações de bola em zonas altas, o 15º maior número entre os 20 participantes.
Isso significa que o bloco alto nem sempre está produzindo o efeito esperado.
Existe ainda outro problema. Os atacantes não estão ajudando tanto quanto poderiam na recomposição. O United é o último colocado em corridas sem a bola acompanhando adversários, com apenas 188 ações, e também apresenta a menor proporção nesse indicador, com 32,4%.
Quando a pressão inicial é superada, o adversário encontra espaços para avançar e atacar a defesa.
A chegada de Carlos Baleba pode ajudar nesse aspecto. O meio-campista deve ganhar condições para estrear depois da pausa internacional e pode oferecer mais força física e mobilidade no setor central.
Lesões e mudanças no ataque complicam Carrick

O setor ofensivo também sofreu alterações importantes. A principal delas foi o retorno de Marcus Rashford depois de períodos emprestado a Aston Villa e Barcelona.
A volta do atacante provocou uma mudança na posição de Matheus Cunha, que passou a atuar mais centralizado. O problema é que o brasileiro costuma render melhor quando tem espaço para acelerar e atacar a defesa adversária.
Como referência central, Cunha tem sido obrigado a recuar para participar do jogo, muitas vezes ficando de costas para o gol e ocupando regiões próximas às que Bruno Fernandes prefere explorar.
Benjamin Sesko poderia ajudar a resolver parte desse problema, mas o atacante disputou apenas 76 minutos de Premier League nesta temporada devido a uma lesão. Sua ausência pesa ainda mais porque o United tem enfrentado muitos adversários que adotam blocos baixos.
Bryan Mbeumo aparece como outra alternativa. O jogador já atuou centralizado em diversas oportunidades e possui movimentação suficiente para incomodar defesas mais fechadas. Pelo lado direito, porém, não conseguiu apresentar o mesmo impacto.
A lesão de Amad Diallo também prejudicou as opções de Carrick. O marfinense é um dos jogadores mais habilidosos do elenco em espaços curtos e possui capacidade para atacar os laterais no um contra um.
Sem essas alternativas, o United passou a depender muito dos cruzamentos. Foram 104 cruzamentos com a bola rolando, 17 a mais do que qualquer outro time da Premier League. O problema é que Sesko, justamente o jogador que mais poderia aproveitar esse tipo de jogada, esteve disponível em apenas 16,8% dos minutos da equipe na competição.
Carrick precisa reagir antes que a pressão aumente

Apesar de todos os problemas, existe um ponto importante que impede uma avaliação completamente negativa. O Manchester United também teve uma dose considerável de azar.
A equipe acertou a trave seis vezes, mais do que qualquer outro clube da Premier League. O gol do Fulham no empate por 1 a 1 foi contra e o Everton conseguiu marcar no fim com uma finalização extremamente difícil de Ainsley Maitland Niles.
Defensivamente, o United sofreu oito gols, enquanto o xG indicava que deveria ter sofrido aproximadamente 6,8. Portanto, alguns resultados poderiam ter sido diferentes com maior eficiência ou um pouco mais de sorte.
Isso não elimina os problemas. O United tem dificuldades para transformar posse em chances claras, apresenta falhas na pressão e ainda não encontrou a melhor combinação no ataque.
A situação de Carrick, portanto, não parece ser simplesmente uma questão de resultados ruins. O treinador precisa encontrar uma maneira de fazer o estilo de jogo combinar com as características de seus jogadores.
Na temporada passada, sua equipe funcionava muito bem em determinados contextos e conseguiu terminar em terceiro lugar. Agora, o desafio é provar que aquele desempenho não foi apenas consequência de uma sequência positiva.
O Manchester United ainda possui números ofensivos que mostram potencial. O problema é transformar volume em eficiência.
Quanto mais tempo Carrick levar para encontrar essa resposta, maior será a pressão sobre seu trabalho. A temporada ainda está no começo, mas a margem para erros começa a diminuir.
(Foto de capa: OPTA)



