Fernando Alonso Aston Martin
Automobilismo Fórmula 1

Catástrofe anunciada se concretiza e Aston Martin está por um fio de não largar na Austrália

Todas as previsões negativas feitas para a Aston Martin durante e após a pré-temporada da Fórmula 1 parecem, de fato, estar se materializando. Nos treinos livres do GP da Austrália, a equipe mal conseguiu ir à pista e, quando foi, registrou os piores tempos de volta da sessão. Como se os problemas já não fossem grandes o suficiente, Adrian Newey, chefe do time, revelou que há apenas duas baterias disponíveis para o restante do fim de semana, ambas já instaladas nos carros da dupla.

A parte elétrica da unidade de potência tornou-se o verdadeiro tendão de Aquiles do AMR26. As falhas e o fraco desempenho observados nos testes são consequência de vibrações na bateria, que se propagam por todo o chassi. O efeito compromete a confiabilidade e a performance do conjunto e também afeta a saúde física de Fernando Alonso e Lance Stroll. Segundo Newey, a equipe terá de limitar o número de voltas dos pilotos para evitar lesões permanentes nos nervos das mãos.

Vale lembrar que Stroll sofreu uma grave lesão no punho em 2023, que o tirou da pré-temporada e colocou em dúvida sua participação nas primeiras etapas do campeonato. O canadense forçou um retorno mesmo ainda sentindo dores e, diante desse histórico, não é impossível que as vibrações da Aston Martin reacendam ou agravem os problemas na mão.

Disponibilidade de baterias pode encurtar planos da Aston Martin

Fernando Alonso Aston Martin
Foto: Race Pictures

No Treino Livre 1, poucos minutos após o início da sessão, a Aston Martin informou que Alonso não sairia da garagem por causa de um problema na unidade de potência. O programa de testes também foi bastante limitado para Stroll, que completou apenas três voltas (considerando a out-lap e a in-lap) e marcou um tempo cerca de 30 segundos mais lento que o de Charles Leclerc, líder do TL1.

A situação apresentou uma leve melhora no TL2, quando a dupla completou 18 e 13 voltas, respectivamente. Ainda assim, os tempos permaneceram muito distantes do restante do pelotão. O espanhol terminou a sessão a 1 segundo do antepenúltimo colocado, Valtteri Bottas, da Cadillac, enquanto Stroll foi 2 segundos mais lento.

O que mudou de uma sessão para a outra foi a troca das baterias utilizadas pelos pilotos. O problema é que a equipe levou apenas quatro unidades para Melbourne e todas já foram usadas. Caso algum problema obrigue uma nova substituição, o piloto afetado será forçado a abandonar.

E, no contexto atual da Aston Martin, uma nova falha não seria surpresa. As vibrações vêm causando danos significativos ao AMR26, tanto na estrutura quanto em componentes externos, com relatos inclusive de perda de espelhos pela pista em decorrência das oscilações do chassi.

Apesar de a Honda afirmar ter mitigado parte do problema, a unidade de potência continua longe do ideal. Uma nova falha seria apenas o desfecho de uma crise anunciada desde os testes realizados em Barcelona e em Sakhir.

O risco de não vermos a Aston Martin no grid do GP da Austrália é maior do que se esperaria de uma marca com tanto investimento e renome na Fórmula 1 moderna. Mesmo que os carros consigam disputar a classificação, ainda existe a ameaça de não atingir os 107% exigidos para garantir vaga na corrida.

Neste último cenário, a história recente mostra que a chance de não largar é menor. Se o tempo obtido na sessão classificatória não for suficiente, a FIA costuma abrir exceções quando o limite foi alcançado ao longo do fim de semana nos treinos. Até o TL2, apenas Alonso conseguiu entrar dentro dessa margem, mas Stroll segue acima do mínimo necessário.

Equipe técnica da Honda é formada por novatos

Com o passar dos dias, fica claro que a situação da Aston Martin é ainda mais delicada do que parecia inicialmente. O grupo de engenheiros da Honda responsável pelo motor que levou a Red Bull ao título de pilotos em 2021 com Max Verstappen não é o mesmo que trabalha hoje no projeto da fabricante japonesa.

A Honda deixou a Fórmula 1 ao fim de 2021 e retornou em 2023 para supervisionar a operação da Red Bull Powertrains. No entanto, apenas cerca de 30% da equipe técnica anterior teria voltado. O restante foi realocado para outras áreas da empresa, e o grupo atual é formado em grande parte por engenheiros mais jovens sem experiência prévia na Fórmula 1.

O ponto central, segundo Newey, é que a Aston Martin não tinha conhecimento dessa mudança quando assinou o acordo de fornecimento de motores com a fabricante. A alta cúpula da equipe britânica só teria descoberto essa realidade em novembro de 2025.

O projeto, que nasceu com a ambição de disputar as primeiras posições da Fórmula 1 sob o novo regulamento, agora parece destinado a lutar pelas últimas posições do grid ao menos até que os problemas da unidade de potência sejam resolvidos. Nesse contexto, torna-se difícil até avaliar qual seria o verdadeiro potencial do chassi sem as vibrações que hoje dominam o comportamento do carro.

Apesar de tudo, Newey mantém o discurso otimista. O diretor e projetista acredita que, uma vez solucionadas as questões do motor, a equipe poderá disputar posições no meio do pelotão e frequentar o Q3 com regularidade ao longo da temporada. Pode ser uma tentativa de conter o impacto da crise na Aston Martin, que pode tomar contornos comerciais se a imagem da marca for afetada, mas também pode indicar que o AMR26 nasceu bem do ponto de vista aerodinâmico e que o verdadeiro problema está concentrado na parte híbrida da unidade de potência.

Foto principal: Fernando Alonso, Aston Martin (IMAGO / PanoramiC)