Quando se fala em dinheiro mudando o destino de um clube de futebol, muita gente lembra imediatamente do Chelsea. E não é por acaso. O que aconteceu em Londres a partir de 2003, com a chegada do bilionário russo Roman Abramovich, acabou criando um modelo que, duas décadas depois, influencia projetos modernos no futebol inglês, incluindo o crescimento meteórico do Wrexham.
Neste fim de semana, os dois clubes se encontram na quinta rodada da FA Cup, em um duelo que mistura tradição, celebridade e um curioso paralelo histórico. De um lado, o Chelsea que revolucionou o futebol europeu no início dos anos 2000. Do outro, o Wrexham, que vive uma ascensão quase cinematográfica desde que foi comprado pelos atores Ryan Reynolds e Rob McElhenney.
A comparação pode parecer exagerada à primeira vista, afinal, um é gigante da Premier League e o outro ainda está construindo sua história recente. Mas a lógica por trás das transformações tem pontos muito semelhantes.
Quando o Chelsea mudou o jogo
Antes de Abramovich aparecer em Stamford Bridge, o Chelsea era um clube tradicional, mas longe de dominar o futebol inglês. O russo comprou o time por cerca de 140 milhões de libras e ainda assumiu aproximadamente 80 milhões em dívidas. A partir dali, começou uma revolução.
No primeiro verão sob nova administração, o Chelsea gastou mais de 120 milhões de libras em reforços, uma cifra absurda para a época. Chegaram nomes importantes, o elenco ganhou profundidade e a estrutura do clube mudou completamente.
Investimentos pesados passaram a acontecer em todas as áreas: centro de treinamento, categorias de base, futebol feminino e até projetos de expansão do estádio.
O resultado veio rapidamente. O Chelsea deixou de ser apenas mais um clube competitivo e se transformou em uma potência europeia. Nos anos seguintes, o time conquistou títulos da Premier League, copas nacionais e até a tão sonhada UEFA Champions League.
Esse modelo de investimento agressivo abriu caminho para outros projetos semelhantes no futebol europeu. Não demorou para que clubes com novos donos bilionários surgissem, casos como o Manchester City e o Paris Saint-Germain são exemplos claros dessa nova era.
O Wrexham segue um roteiro parecido
Mais de 20 anos depois, um clube de realidade completamente diferente começou a trilhar um caminho parecido.
O Wrexham, fundado em 1864, passou mais de uma década fora da Football League e chegou a enfrentar sérios problemas financeiros. Em 2011, torcedores precisaram levantar cerca de 100 mil libras para salvar o clube.
A história mudou de rumo em 2021, quando Reynolds e McElhenney compraram o time. O valor inicial foi simbólico, mas os investimentos que vieram depois transformaram completamente a estrutura do clube.
Desde então, o Wrexham saiu da quinta divisão inglesa (National League) e chegou até a Championship em poucos anos, com acesso após acesso. A estratégia lembra bastante o que aconteceu com o Chelsea lá atrás: investir forte no elenco, melhorar infraestrutura e expandir a marca globalmente.
O clube contratou jogadores experientes, ofereceu salários competitivos e quebrou recordes de transferência. Um exemplo recente foi a contratação de Nathan Broadhead, que custou até 10 milhões de libras.
Mas o projeto também aposta em identidade local. Assim como o Chelsea teve ídolos formados em casa, caso de John Terry, o Wrexham vê o defensor Max Cleworth como símbolo da nova fase do clube.
Marca global e impacto fora de campo
Outro ponto que aproxima as duas histórias é a expansão da marca.
Quando Abramovich assumiu o Chelsea, o clube se tornou um fenômeno global. Patrocínios, audiência internacional e relevância comercial cresceram rapidamente.
No caso do Wrexham, o fenômeno tem um toque hollywoodiano. A presença de Reynolds e McElhenney ajudou a transformar o clube em um produto midiático global, especialmente nos Estados Unidos.
A popularidade cresceu tanto que emissoras americanas passaram a transmitir jogos da equipe regularmente, algo raríssimo para um clube das divisões inferiores inglesas.
Além disso, o Wrexham já enfrentou gigantes em amistosos internacionais, incluindo Manchester United e Bournemouth, ampliando ainda mais sua visibilidade.
Um encontro simbólico na FA Cup
Por tudo isso, o confronto entre Chelsea e Wrexham na FA Cup vai muito além de um simples jogo de copa.
Para o Chelsea, representa enfrentar um clube que, de certa forma, segue um caminho que o próprio time londrino ajudou a popularizar. Já para o Wrexham, é uma oportunidade de medir forças com um dos pioneiros do futebol moderno.
Se o resultado dentro de campo ainda é imprevisível, uma coisa é certa: o duelo simboliza duas eras diferentes do futebol movido por investimento e ambição.
No início dos anos 2000, o Chelsea mudou as regras do jogo. Agora, em plena década de 2020, o Wrexham tenta escrever seu próprio capítulo nessa história.
Foto: Getty Images


