Martin Odegaard Brasil x Noruega
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Como o Brasil perdeu o meio-campo para a Noruega: o ajuste de Solbakken que decidiu a classificação

A eliminação do Brasil para a Noruega nas oitavas de final da Copa do Mundo pode ser resumida em uma frase simples: a Seleção perdeu o controle do meio-campo. Mais do que uma derrota construída pela inspiração de Erling Haaland ou pela eficiência ofensiva dos noruegueses, a classificação europeia nasceu da capacidade de Ståle Solbakken de perceber uma fragilidade estrutural brasileira e modificar sua equipe para explorá-la.

Curiosamente, durante boa parte do primeiro tempo, o plano de Carlo Ancelotti funcionava exatamente como havia sido desenhado. O treinador brasileiro abriu mão da posse de bola, recuou o bloco defensivo e aceitou que a Noruega tivesse iniciativa. A estratégia era semelhante à utilizada contra Marrocos ainda na fase de grupos: defender em bloco médio, controlar os espaços e impedir que o adversário acelerasse por dentro.

A diferença estava no comportamento da Noruega.

Sørloth deixava a defesa brasileira confortável em sua estratégia

Nos primeiros 45 minutos, Solbakken manteve Alexander Sørloth aberto pelo lado direito. Embora o atacante partisse nominalmente da ponta, sua função era bastante específica. O objetivo era receber bolas longas, disputar pelo alto e atacar a área sempre que a jogada fosse construída pelo corredor direito.

Essa característica acabava influenciando diretamente Martin Ødegaard. Como Sørloth precisava constantemente de apoio para disputar a segunda bola e criar superioridade naquele setor, o camisa 10 permanecia muito mais preso ao lado direito do campo. Em vez de circular livremente entre as linhas, como costuma fazer no Arsenal, Ødegaard era obrigado a participar da sustentação das jogadas naquele corredor.

Na prática, isso facilitava bastante o trabalho defensivo brasileiro. Bruno Guimarães conseguia controlar boa parte do espaço central, Casemiro protegia a entrada da área e os zagueiros permaneciam concentrados quase exclusivamente nas disputas físicas contra Sørloth e Haaland. A Noruega tinha posse de bola, mas encontrava dificuldades para transformar esse domínio em circulação realmente perigosa.

O problema surgiu depois do intervalo. Solbakken percebeu rapidamente que o Brasil não repetia a pressão agressiva apresentada em outros momentos da Copa. A Seleção aceitava defender em bloco baixo, mas praticamente não atacava o início da construção norueguesa. Foi então que veio o ajuste mais importante da partida.

Oscar Bobb em campo e o ajuste no posicionamento de Ødegaard

A entrada de Oscar Bobb modificou completamente a dinâmica ofensiva da Noruega. Diferentemente de Sørloth, Bobb não precisava permanecer fixo em um corredor nem disputar constantemente bolas aéreas. Sua movimentação era muito mais associativa, aproximando-se dos meio-campistas e oferecendo opções curtas para a saída de bola.

Esse simples ajuste libertou Ødegaard. Sem a obrigação de permanecer próximo ao lado direito para apoiar Sørloth, o meia passou a circular por praticamente toda a largura do campo. Começou a aparecer entre Bruno Guimarães e Casemiro, recuou para participar da saída de bola, aproximou-se dos zagueiros e passou a funcionar justamente como o homem livre da construção norueguesa.

Foi exatamente nesse momento que o Brasil começou a perder completamente o meio-campo. Sem Lucas Paquetá, Carlo Ancelotti perdeu seu principal jogador de pressão.

Muito além da criatividade ofensiva, Paquetá desempenha uma função fundamental sem a bola. É ele quem normalmente abandona o meio para pressionar o chamado “homem da sobra” durante a saída adversária, impedindo que esse jogador organize a construção com liberdade. Contra a Noruega, esse homem era Ødegaard. Sem Paquetá, ninguém assumiu essa responsabilidade.

Bruno Guimarães participava da primeira fase da pressão, constantemente marcando Sander Berge, enquanto os atacantes brasileiros fechavam parcialmente as linhas de passe, mas não pressionavam os zagueiros com intensidade suficiente para impedir a construção apoiada.

O resultado foi imediato. Ødegaard passou a receber livre praticamente em todas as saídas de bola. Com tempo para levantar a cabeça, encontrou facilidade para inverter jogadas, acelerar passes verticais e fazer a Noruega avançar de maneira organizada. A equipe escandinava deixou de depender exclusivamente das bolas longas para Haaland e Sørloth e passou a construir ataques posicionais muito mais sofisticados.

As mudanças que não resolveram o problema brasileiro

Talvez a solução estivesse no próprio banco de reservas. A entrada de Danilo Santos poderia ter alterado completamente esse cenário. Com características muito mais físicas e maior capacidade de pressão sem a bola, o meio-campista teria condições de perseguir Ødegaard durante a construção, reduzir seu tempo de decisão e devolver ao Brasil um nível de combatividade que desapareceu ao longo do segundo tempo.

Em vez disso, Ancelotti escolheu outro caminho. A entrada de Neymar tinha como objetivo oferecer maior capacidade criativa para buscar a vitória. Na teoria, fazia sentido aumentar o talento ofensivo em um momento de necessidade.

Na prática, porém, a substituição acabou ampliando justamente o principal problema brasileiro. Neymar tentou participar da primeira linha de pressão, mas sua abordagem foi pouco agressiva. Os zagueiros noruegueses rapidamente perceberam que aquela pressão não oferecia risco real de recuperação da posse. Passaram, então, simplesmente a ignorá-la.

Sem necessidade de acelerar a circulação, conseguiam encontrar Ødegaard com enorme facilidade, permitindo que a Noruega saísse jogando praticamente sem oposição. Foi justamente nesse momento que o Brasil perdeu definitivamente o controle da partida.

A Noruega passou a dominar territorialmente o confronto, manteve longos períodos de posse e obrigou a Seleção a correr atrás da bola durante boa parte da etapa final. Quando Haaland marcou o gol da vitória, o problema já estava consolidado havia vários minutos.

Mais do que uma falha individual ou um erro específico, a eliminação brasileira nasceu da perda completa da batalha pelo meio-campo. Solbakken percebeu rapidamente que o Brasil havia abandonado a pressão alta, ajustou a movimentação ofensiva para libertar Ødegaard e transformou o principal jogador técnico da Noruega justamente no homem que organizou toda a construção da equipe.

Ancelotti, por outro lado, não encontrou uma resposta para esse novo cenário. Sem Paquetá para pressionar o organizador adversário, sem um volante de maior poder de marcação para assumir essa função e, posteriormente, com Neymar incapaz de incomodar a saída de bola, a Seleção passou a assistir à Noruega controlar exatamente o setor mais importante de uma partida: o meio-campo.

No fim, a eliminação não aconteceu apenas porque Haaland marcou dois gols. Ela aconteceu porque, antes disso, a Noruega venceu a disputa tática que determinou quem teria controle do jogo.

(Foto: Getty Images)