A lesão de Raphinha na vitória do Brasil diante do Haiti obrigou a seleção a repensar uma peça importante de seu sistema ofensivo para a Copa do Mundo. Mais do que um ponta que oferece profundidade, o atacante do Barcelona se tornou um elemento fundamental sem a bola, participando da pressão, ajudando na recomposição e dando equilíbrio ao lado direito. Sua ausência, portanto, não significa apenas substituir um jogador, mas reorganizar toda a estrutura ofensiva do Brasil.
Carlo Ancelotti tem algumas possibilidades à disposição, e cada uma delas aponta para um modelo de jogo diferente. Seja mantendo a formação atual, reforçando o setor ofensivo ou aumentando a densidade do meio-campo, a escolha do treinador pode alterar significativamente a maneira como a seleção se comportará nos próximos compromissos.
Ancelotti pode manter o 4-3-3 e apostar em Rayan
A solução mais simples é também a que exige menos mudanças. O Brasil pode continuar utilizando o 4-3-3, apenas substituindo Raphinha por Rayan. O jovem atacante oferece características diferentes do camisa 11, mas preserva a estrutura que a equipe já conhece.
Rayan é mais vertical, procura constantemente o ataque ao espaço e tem facilidade para atacar a área. Sua presença permitiria manter Vinicius Júnior pela esquerda e Matheus Cunha centralizado, sem grandes alterações nos movimentos do restante da equipe. O trio de meio-campo continuaria responsável pela construção e pelo controle das partidas.
Entretanto, existe uma diferença importante. Raphinha é um jogador extremamente disciplinado defensivamente e participa intensamente da pressão pós-perda. Rayan ainda está em desenvolvimento nesse aspecto. A consequência pode ser um Brasil mais agressivo com a bola, mas menos equilibrado sem ela. Por outro lado, o atacante traz imprevisibilidade e explosão em campo aberto, algo que pode ser especialmente valioso neste estilo de jogo do Brasil.
A volta do 4-2-4 com Endrick e Rayan
Outra alternativa é abraçar uma proposta mais ofensiva e retornar ao 4-2-4, sistema que Ancelotti usou durante praticamente toda a sua passagem na seleção, mas abandonou durante a Copa do Mundo. Nesse desenho, Endrick e Matheus Cunha atuariam por dentro, alternando movimentos e ocupando constantemente a área. Pelos lados, Vinicius Júnior permaneceria na esquerda, enquanto Rayan ou Luiz Henrique assumiriam a faixa direita.
A presença de Matheus Cunha acrescenta mobilidade ao ataque. Diferentemente de um centroavante mais fixo, o jogador tem facilidade para sair da área, recuar para participar da construção e criar espaços para as infiltrações de Endrick. A movimentação dos dois poderia gerar muitos problemas para defesas que gostam de marcar individualmente.
Além disso, a equipe teria quatro jogadores constantemente ameaçando a profundidade. Em transições rápidas, seria um sistema extremamente perigoso, especialmente aproveitando a velocidade de Vinicius e a explosão de Rayan ou a capacidade associativa de Luiz Henrique.
Mas existe um preço. Com apenas dois homens no meio-campo, os volantes seriam obrigados a cobrir muito espaço, coisa que Casemiro não vem conseguindo fazer muito bem nesta Copa do Mundo. Além disso, o 4-2-4 pode se mostrar frágil com Danilo pela direita, já que ele teria mais exigências físicas. É uma formação que privilegia o talento ofensivo e aposta em transformar a qualidade individual em superioridade dentro da área adversária.
O 4-4-2 como alternativa de equilíbrio
Talvez a opção mais interessante seja a adoção de um 4-4-2. Não necessariamente um sistema rígido, mas uma estrutura capaz de oferecer mais controle e maior compactação. Nesse cenário, Endrick e Matheus Cunha formariam a dupla de ataque, enquanto Vinicius Júnior partiria da esquerda com liberdade para se aproximar dos atacantes. Do outro lado, um meia ou ponta mais trabalhador poderia ajudar na recomposição, aproximando-se do setor central quando o time estivesse sem a bola.
A principal vantagem desse desenho é o fortalecimento do meio-campo. Com quatro jogadores na faixa intermediária, o Brasil ganharia superioridade numérica em diversas zonas do campo e teria mais facilidade para controlar partidas, algo que faltou em alguns momentos recentes.
Matheus Cunha também se beneficiaria bastante. Atuando próximo de Endrick, ele teria mais liberdade para flutuar entre as linhas e criar conexões com Vinicius. O jovem centroavante, por sua vez, continuaria sendo a referência mais próxima da área. Sem a posse, a equipe poderia facilmente continuar o seu sistema de um 4-4-2 compacto, dificultando a circulação adversária e protegendo melhor os laterais.
A ausência de Raphinha representa um problema, mas também abre possibilidades interessantes. Ancelotti não precisa simplesmente encontrar um substituto; ele pode aproveitar o momento para adaptar a equipe às características dos jogadores disponíveis.
A escolha dependerá do adversário e do contexto da competição. Mas uma coisa parece evidente: sem Raphinha, a seleção brasileira talvez precise abrir mão de algumas das virtudes coletivas que o atacante proporciona e encontrar novas maneiras de fazer seu enorme talento ofensivo funcionar.
(Foto: Shaun Bottenil/FIFA)