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Futebol

Como os dados revolucionaram o scouting no futebol moderno e mudaram a forma de contratar jogadores

O futebol sempre foi um esporte em que o olhar humano teve enorme importância. Durante décadas, clubes montaram seus elencos com base na experiência de olheiros que viajavam o mundo acompanhando partidas, observando atletas e produzindo relatórios detalhados sobre suas qualidades técnicas e comportamentais. Muitos dos grandes craques da história foram descobertos dessa maneira, graças ao conhecimento e à intuição de profissionais especializados.

Nos últimos anos, porém, esse cenário passou por uma transformação profunda. O avanço da tecnologia permitiu que os clubes tivessem acesso a uma quantidade gigantesca de informações sobre cada jogador. Hoje, praticamente todas as ações realizadas dentro de campo são registradas e analisadas. Passes, desarmes, velocidade, posicionamento, intensidade da marcação, criação de oportunidades e diversos outros indicadores passaram a fazer parte do processo de avaliação dos atletas.

Isso não significa que o trabalho dos observadores tradicionais tenha perdido importância. Pelo contrário. O que aconteceu foi uma integração entre diferentes formas de análise. Atualmente, as principais equipes do futebol mundial combinam a observação presencial com departamentos especializados em ciência de dados, buscando reduzir riscos nas contratações e tomar decisões cada vez mais precisas.

Essa mudança alterou não apenas a maneira como os clubes trabalham internamente, mas também transformou a forma como torcedores, jornalistas e comentaristas analisam o futebol.

A análise de dados virou uma das principais ferramentas dos grandes clubes

Moisés Caicedo em ação contra o Barcelona, pela Champions League. Foto: Chelsea F.C/Reprodução.
Moisés Caicedo em ação contra o Barcelona, pela Champions League. Foto: Chelsea F.C/Reprodução.

A profissionalização da análise estatística fez surgir um novo perfil dentro dos departamentos de futebol.

Hoje, muitos clubes contam com analistas de desempenho, cientistas de dados e profissionais especializados em inteligência esportiva trabalhando diariamente ao lado da comissão técnica. O objetivo é transformar milhares de informações coletadas durante partidas e treinamentos em conhecimento útil para o clube.

Em vez de observar apenas um jogo para decidir se um atleta merece ser contratado, os clubes conseguem analisar seu desempenho durante uma temporada inteira. É possível identificar padrões de comportamento, regularidade, evolução técnica e até prever como determinado jogador poderá se adaptar ao estilo de jogo da equipe.

Esse tipo de trabalho tornou-se ainda mais importante porque o mercado de transferências está cada vez mais competitivo.

Os investimentos realizados pelos grandes clubes cresceram significativamente nos últimos anos, tornando cada contratação uma decisão financeira extremamente relevante. Um erro pode representar prejuízos de dezenas de milhões de euros.

Por isso, reduzir riscos tornou-se prioridade.

A análise estatística permite confirmar ou questionar aquilo que o observador viu ao vivo. Se um atacante apresenta excelente desempenho em uma partida específica, por exemplo, os dados ajudam a verificar se aquela atuação representa uma tendência ou apenas um desempenho acima da média.

Esse processo também facilita a descoberta de talentos em mercados menos valorizados. Em vez de competir apenas pelos jogadores já consolidados nas principais ligas europeias, muitos clubes utilizam modelos estatísticos para identificar atletas promissores antes que seus preços aumentem.

Essa estratégia ficou bastante conhecida após o sucesso de equipes que passaram a contratar jogadores ainda pouco conhecidos, utilizando critérios estatísticos para antecipar seu desenvolvimento.

Um dos exemplos mais conhecidos desse modelo é o de Moisés Caicedo. O Brighton identificou o volante equatoriano por meio de uma combinação entre scouting e análise de dados quando ele ainda atuava no Independiente del Valle. Contratado por cerca de €5 milhões, Caicedo evoluiu rapidamente na Premier League e acabou sendo vendido ao Chelsea por mais de €115 milhões, mostrando como a análise estatística pode antecipar a descoberta de talentos antes da valorização no mercado.

Como consequência, praticamente todos os grandes clubes da Premier League passaram a investir em departamentos de análise de dados, transformando essa área em uma parte fundamental da estrutura esportiva.

As estatísticas mudaram a forma como o futebol é discutido

A influência dos dados não ficou restrita aos bastidores dos clubes.

Os próprios torcedores passaram a incorporar diversas métricas às discussões sobre futebol.

Uma das mais conhecidas é o chamado xG, ou “gols esperados”. Essa estatística mede a probabilidade de uma finalização resultar em gol, levando em consideração fatores como distância, ângulo da finalização e posição do goleiro.

Há alguns anos, esse indicador era utilizado apenas por analistas especializados. Hoje, faz parte das transmissões esportivas, programas de televisão e debates nas redes sociais.

Situação semelhante ocorre com estatísticas relacionadas à pressão na saída de bola, passes progressivos, ações defensivas, construção ofensiva e participação em jogadas decisivas.

Os torcedores passaram a consumir esse tipo de informação com muito mais frequência, tornando as discussões cada vez mais fundamentadas em números.

Ao mesmo tempo, empresas especializadas em estatísticas esportivas ampliaram significativamente sua presença no mercado. Plataformas que oferecem gráficos, mapas de calor, métricas avançadas e comparações entre jogadores tornaram-se ferramentas comuns tanto para profissionais quanto para o público em geral.

Esse fenômeno também influenciou outros segmentos ligados ao futebol, como fantasy games, plataformas de análise esportiva e até mercados de apostas, que passaram a utilizar modelos estatísticos para oferecer informações mais detalhadas aos usuários.

No entanto, apesar de toda essa evolução tecnológica, existe um consenso entre os profissionais da área: os dados, sozinhos, não tomam decisões.

A interpretação humana continua sendo indispensável.

Um número pode indicar que determinado jogador realiza muitos passes progressivos, mas somente a observação presencial consegue avaliar aspectos como liderança, personalidade, capacidade de adaptação ao ambiente, comportamento tático sem a bola e características emocionais.

Por isso, os departamentos mais bem estruturados trabalham justamente combinando essas duas formas de análise.

Primeiro, os dados ajudam a reduzir o universo de jogadores monitorados. Depois, entram em ação os observadores, que acompanham treinamentos, partidas e comportamento dos atletas para validar as informações encontradas pelas estatísticas.

Essa integração entre tecnologia e experiência humana representa o novo modelo de scouting adotado pelos principais clubes do futebol mundial.

À medida que campeonatos e competições produzem volumes cada vez maiores de informações, a tendência é que os modelos estatísticos se tornem ainda mais sofisticados. Inteligência artificial, aprendizado de máquina e ferramentas preditivas já começam a ganhar espaço dentro dos departamentos de futebol.

Mesmo assim, dificilmente o olhar humano deixará de ser importante. O futuro do scouting parece caminhar justamente para um equilíbrio entre os dois mundos: a sensibilidade dos observadores tradicionais e a precisão oferecida pelos dados. Os clubes que conseguirem unir essas duas competências terão maiores condições de identificar talentos, reduzir erros nas contratações e construir equipes cada vez mais competitivas em um futebol que se torna, a cada temporada, mais estratégico e orientado por informação.

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Kaique