O Palmeiras pode estar entrando na reta final de 2026 com uma mudança que parece pequena na escalação, mas que altera completamente a maneira como a equipe pode jogar. Depois de apostar frequentemente em uma linha de três zagueiros desde o retorno da Copa do Mundo, Abel Ferreira encontrou no empate por 0 a 0 com o Grêmio uma formação que, apesar de não ter produzido gols, entregou uma das atuações mais dominantes do time no período. Com Marlon Freitas, Lucas Evangelista e Andreas Pereira juntos no meio-campo, o Verdão criou 29 oportunidades de finalização fora de casa e transformou a partida em um bombardeio contra o gol de Weverton.
O resultado, portanto, não deve ser analisado apenas pelo placar. O 0 a 0 esconde uma mudança importante na estrutura palmeirense. Ao abrir mão de um dos três zagueiros e colocar Lucas Evangelista ao lado de Marlon Freitas, Abel ganhou uma peça a mais para circular entre linhas, aproximar os jogadores de ataque e sustentar a posse no campo ofensivo. Andreas, partindo de uma posição mais avançada pela esquerda, também passou a ter mais liberdade para receber entre o meio-campo e a defesa adversária.
O que apareceu em Porto Alegre pode ser justamente a versão de Palmeiras que Abel estava procurando para os últimos meses da temporada.
Não necessariamente um time que abandona definitivamente os três zagueiros, mas uma equipe que encontrou uma alternativa capaz de aumentar sua presença ofensiva sem perder completamente o equilíbrio. Em uma reta final que terá Brasileirão, Libertadores e Copa do Brasil, essa flexibilidade pode ser tão importante quanto qualquer titularidade.
O Palmeiras passa a ter três jogadores para controlar o meio
A principal transformação desse modelo está no meio-campo. Com Marlon Freitas, Lucas Evangelista e Andreas Pereira juntos, Abel deixa de depender de apenas dois jogadores para fazer praticamente todo o trabalho de construção pelo corredor central. A consequência é uma distribuição diferente das responsabilidades.
Marlon pode atuar como o jogador mais responsável por organizar a saída, oferecer apoio aos zagueiros e proteger a equipe quando os laterais avançarem. É uma função que combina com sua capacidade de circulação e leitura do jogo, além de permitir que o Palmeiras tenha uma referência mais segura atrás da bola.
Lucas Evangelista, por sua vez, oferece uma característica complementar. Ele não precisa ficar preso à frente da defesa. Pode avançar alguns metros, aproximar-se de Andreas e participar mais diretamente da criação. Essa movimentação é importante porque impede que o Palmeiras fique excessivamente dependente de um único jogador para conectar meio-campo e ataque.
Andreas aparece como a peça que pode dar mais liberdade ao sistema. Partindo pela esquerda, ele pode receber em zonas intermediárias, aproximar-se dos atacantes, atacar o espaço e participar da pressão imediatamente após a perda da bola. Isso cria uma espécie de triângulo no meio que pode mudar constantemente de formato de acordo com o momento da jogada.
Quando o Palmeiras estiver construindo, Marlon pode ficar mais atrás enquanto Lucas e Andreas avançam. Quando perder a bola, Lucas pode retornar ao lado de Marlon, enquanto Andreas fecha o corredor ou pressiona o primeiro passe adversário.
É uma estrutura que oferece mais soluções sem necessariamente exigir que Abel mude completamente a identidade do time.
A grande vantagem está em liberar os laterais
O novo esquema também pode ser importante para os laterais. Em uma formação com três zagueiros, existe naturalmente uma maior proteção para que os alas avancem. Um defensor adicional pode cobrir os espaços deixados nas costas e permitir que os jogadores dos corredores atuem quase como pontas em determinadas fases.
Com quatro defensores, esse risco aumenta. Mas o meio-campo com três jogadores pode compensar parte dessa perda.
Se Marlon permanecer mais próximo da defesa e Lucas conseguir fazer a cobertura lateral quando necessário, o Palmeiras pode liberar seus laterais para atacar sem deixar um buraco enorme entre defesa e meio-campo. A estrutura passa a depender menos de um terceiro zagueiro e mais da capacidade de os meio-campistas ocuparem os espaços corretamente.
Isso é especialmente interessante porque o Palmeiras possui laterais capazes de dar profundidade e participar da construção ofensiva.
A lógica, portanto, muda. Em vez de ter um zagueiro a mais para proteger os laterais, Abel pode usar um meio-campista a mais para controlar a região central e permitir que os laterais avancem.
É uma troca de proteção por controle. E, diante de adversários que se fecham em bloco baixo, essa mudança pode ser extremamente útil.
Andreas deixa de ser apenas um meia e passa a ser a principal fonte de ligação
Outro ponto importante está no papel de Andreas. Quando o Palmeiras utiliza dois volantes e jogadores mais avançados, Andreas pode ficar distante da construção ou depender de receber a bola em situações nas quais o adversário já está organizado. Com Lucas Evangelista ao seu lado, existe a possibilidade de o brasileiro naturalizado escocês ocupar espaços diferentes.
Ele pode baixar para participar da circulação, abrir pelo lado esquerdo, aproximar-se de Flaco López ou Vitor Roque e aparecer na entrada da área.
Essa liberdade é valiosa porque Andreas não precisa ser o único responsável por criar. Lucas pode carregar a bola. Marlon pode acelerar a circulação. Os laterais podem produzir amplitude. Os atacantes podem movimentar-se por dentro.
Andreas, então, passa a ser o jogador que conecta esses movimentos. Essa é provavelmente uma das maiores diferenças em relação ao Palmeiras que vinha utilizando três zagueiros. A presença de um terceiro homem no meio não significa apenas adicionar um jogador ao setor. Significa criar mais possibilidades para que os principais jogadores ofensivos recebam em melhores condições.
A dupla Flaco López e Vitor Roque pode ser beneficiada
O ataque também pode ganhar com a mudança. No jogo contra o Grêmio, Abel utilizou Flaco López e Vitor Roque juntos. A ideia faz sentido dentro de uma estrutura com três jogadores no meio porque o Palmeiras passa a ter mais capacidade de abastecer dois atacantes sem precisar sacrificar completamente o equilíbrio.
Flaco pode atuar como referência física, atacar a área e servir como ponto de apoio. Vitor Roque, por outro lado, possui características para atacar espaços, sair da referência e pressionar a última linha adversária.
A combinação pode criar um problema para os zagueiros. Se o adversário subir a linha, Vitor Roque pode atacar a profundidade. Se recuar, Flaco ganha mais espaço para disputar bolas dentro da área e participar das jogadas de cruzamento.
Mas existe um detalhe ainda mais importante: os dois podem permitir que o Palmeiras mantenha mais jogadores próximos da área.
Em vez de depender exclusivamente de um atacante que precisa sair da zona de finalização para participar da construção, Abel pode manter uma referência dentro da área enquanto os jogadores do meio e os laterais trabalham ao redor.
Isso ajuda a explicar por que uma equipe pode produzir 29 finalizações e, ao mesmo tempo, terminar sem marcar. O problema do Palmeiras contra o Grêmio não foi necessariamente a falta de presença ofensiva. Foi a eficiência. O próprio clube aproveitou a Data Fifa para trabalhar finalizações depois de uma sequência em que acumulava volume, mas convertia pouco desse volume em gols.
O problema que Abel terá de resolver: equilíbrio defensivo
Se o novo esquema oferece mais alternativas com a bola, também cria uma pergunta inevitável: o que acontece quando o Palmeiras perde a posse?
Esse pode ser o principal teste do modelo. Com apenas dois zagueiros, os laterais avançados e Andreas e Lucas em posições mais altas, a equipe pode ficar exposta caso a pressão pós-perda não funcione. O Palmeiras precisa impedir que o adversário escape do primeiro combate e consiga atacar rapidamente os espaços laterais.
É justamente por isso que Marlon Freitas ganha importância. O volante precisa funcionar como o ponto de equilíbrio da estrutura. Quando o Palmeiras atacar, ele não pode simplesmente acompanhar a jogada. Precisa pensar na jogada seguinte e permanecer em uma posição que permita controlar uma eventual transição.
Lucas também terá uma função fundamental nesse processo. Se Andreas estiver mais adiantado pela esquerda, Lucas precisará ter capacidade para deslocar-se e cobrir o corredor quando Piquerez ou outro lateral avançar. Do lado direito, algo semelhante pode acontecer com o lateral e a movimentação dos jogadores mais avançados.
Isso significa que o sistema pode parecer um 4-3-1-2 no papel, mas assumir diferentes desenhos durante o jogo. Com a bola, pode virar quase um 2-3-5. Sem a bola, pode se transformar em um 4-4-2 ou 4-3-1-2 mais compacto.
A capacidade de alternar essas estruturas será determinante para saber se o novo modelo realmente pode se tornar o “esquema ideal” de Abel.
No entanto, o maior erro seria interpretar a mudança como uma sentença definitiva contra o sistema com três zagueiros.
Abel Ferreira não costuma trabalhar dessa maneira. O treinador já demonstrou diversas vezes que utiliza diferentes estruturas de acordo com o adversário, o momento da temporada e as características dos jogadores disponíveis. Desde o retorno da Copa do Mundo, o Palmeiras utilizou três zagueiros em dez dos 18 jogos, enquanto atuou com linha de quatro em oito.
A tendência, portanto, pode ser menos uma substituição e mais uma ampliação do repertório. Contra equipes que pressionam alto e deixam espaços nas costas, três zagueiros podem continuar sendo úteis. O sistema oferece segurança para sair da pressão e permite que os alas ataquem espaços mais avançados.
Contra adversários que se fecham e obrigam o Palmeiras a construir diante de um bloco baixo, a linha de quatro pode fazer mais sentido.
Nesse cenário, Lucas Evangelista ganha um papel especialmente importante porque sua presença no meio aumenta a capacidade do Palmeiras de circular a bola e encontrar espaços entre as linhas.
Abel pode, então, escolher a estrutura não apenas pensando em quem defenderá melhor, mas em qual formação permitirá atacar melhor cada adversário.
O novo “esquema ideal” pode ser menos uma formação e mais um princípio
Se o Palmeiras realmente transformar a estrutura utilizada contra o Grêmio em sua principal alternativa para a reta final, o mais interessante não será observar se Abel utilizará exatamente os mesmos 11 jogadores.
Será observar se os princípios permanecerão. Marlon precisa dar equilíbrio. Lucas precisa aproximar setores. Andreas precisa encontrar liberdade entre linhas. Os laterais precisam fornecer amplitude. Flaco e Vitor Roque precisam ocupar a área e atacar diferentes espaços.
Quando a equipe perder a bola, todos esses jogadores terão uma segunda função: impedir que o adversário transforme a superioridade ofensiva palmeirense em uma transição perigosa.
Essa é a grande diferença entre uma formação que funciona no papel e um sistema que funciona dentro de campo. O Palmeiras não precisa necessariamente de três zagueiros para ser seguro. Também não precisa necessariamente de quatro defensores para ser ofensivo. O que Abel precisa encontrar é uma distribuição de jogadores que permita à equipe atacar com mais gente sem perder a capacidade de controlar o jogo depois da perda.
E o empate com o Grêmio apresentou um primeiro sinal de que essa combinação pode existir. Foram 29 finalizações, 13 delas no alvo, contra uma equipe que conseguiu sobreviver graças a uma atuação extraordinária de Weverton. O resultado deixou dois pontos pelo caminho, mas também mostrou um Palmeiras capaz de criar um volume ofensivo muito alto fora de casa.
Agora, a missão de Abel é transformar essa produção em algo sustentável. O desafio será ainda maior porque o Palmeiras está a três pontos do líder do Brasileirão e continua vivo nas semifinais da Libertadores e da Copa do Brasil. O time não terá tempo para experimentar indefinidamente. Precisará encontrar respostas rapidamente e, principalmente, conseguir reproduzi-las em partidas de características completamente diferentes.
Por isso, o novo esquema pode representar algo maior do que uma simples mudança na escalação. Ele pode ser a tentativa de Abel de encontrar o equilíbrio entre o Palmeiras que precisa controlar e o Palmeiras que precisa atacar.
Com Marlon Freitas protegendo, Lucas Evangelista conectando e Andreas Pereira ganhando liberdade, o meio-campo passa a ter mais ferramentas para controlar o jogo. Com dois atacantes na frente, o time também pode ocupar melhor a área e aumentar a quantidade de jogadores próximos ao gol.
O que faltou contra o Grêmio foi transformar domínio em gol. Se o Palmeiras conseguir corrigir justamente esse detalhe sem perder o controle que apresentou no Sul, o 4-3-1-2 pode deixar de ser apenas uma alternativa interessante e se transformar na principal versão do time para os meses decisivos de 2026.
(Foto: Cesar Greco/Palmeiras)



