O que era para ser um marco na história do futebol mundial começa a se desenhar como um erro estratégico e simbólico da FIFA. A edição inaugural da nova e ampliada Copa do Mundo de Clubes da FIFA, com 32 equipes e aspirações de grandeza, está sendo realizada nos Estados Unidos, um país em meio a uma crise política e social cada vez mais evidente.
A ideia era expandir, globalizar e monetizar o futebol de clubes em um novo patamar. Mas, até agora, o que se vê são riscos de arquibancadas vazias, tensões diplomáticas, repressão a imigrantes e críticas à própria essência do projeto.
A FIFA apostou alto. O modelo replicaria o da Copa do Mundo de seleções: mais times, mais jogos, mais dinheiro. Com o calendário inflado, a entidade máxima do futebol prometeu um espetáculo “à altura dos melhores campeonatos”. Mas os problemas começaram antes mesmo do apito inicial.
Venda de ingressos: fracasso comercial em plena terra do marketing
A primeira evidência de que algo estava errado veio com a baixa procura por ingressos. Mesmo com clubes como Manchester City, Real Madrid, Palmeiras, Fluminense, Al Ahly e Inter Miami no torneio, os bilhetes não venderam. A FIFA teve que reduzir drasticamente os preços em várias partidas. Ingressos para jogos da fase de grupos caíram de US$ 140 para US$ 30, e até as semifinais viram valores serem cortados pela metade.
O vexame foi maior quando a FIFA precisou emitir novos comunicados após cancelar ingressos adquiridos por torcedores internacionais, sob alegação de “erros de sistema” e problemas com repasses de taxas. Para completar, muitos dos estádios utilizados são arenas enormes, projetadas para NFL e com capacidades entre 60 e 90 mil pessoas, o que evidencia ainda mais as cadeiras vazias.
Fãs de clubes europeus e sul-americanos criticaram o evento nas redes sociais, acusando a FIFA de transformar o torneio em um “show vazio”, realizado em um país sem cultura de clubes e com dificuldades para compreender a importância de uma competição global que vai além de seleções e ídolos individuais.
Crise política e clima hostil: o erro de realizar o torneio nos EUA
Além dos desafios comerciais, o evento acontece em um momento conturbado nos Estados Unidos, com a crise imigratória voltando a ser um ponto central da política nacional. O governo norte-americano intensificou ações nas fronteiras, reforçou a presença da Patrulha de Fronteira (CBP) e colocou agentes do ICE e do DHS nos arredores dos estádios da Copa do Mundo de Clubes.
O que era para ser uma festa de integração se transformou em um clima de vigilância e intimidação, principalmente para torcedores estrangeiros vindos da América Latina e da África. Há relatos de torcedores do Flamengo e do River Plate que decidiram cancelar viagens com medo de deportação ou repressão policial. Grupos de imigrantes denunciaram ações arbitrárias em hotéis, onde agentes exigiam documentos mesmo de turistas com visto regular.
Na semana de abertura do torneio, a tensão aumentou com o envio de tropas federais para a Califórnia, alegando controle sobre manifestações em Los Angeles. Enquanto isso, clubes como o LAFC expressaram preocupação pública com o ambiente instável, criticando a abordagem excessiva das autoridades e exigindo garantias mínimas de segurança para atletas e torcedores.
O modelo FIFA para a Copa do Mundo de Clubes
A crítica à realização da Copa do Mundo de Clubes nos EUA não para apenas nos problemas logísticos e políticos. A ideia em si foi alvo de críticas de jogadores, sindicatos e até técnicos. A FIFPRO, sindicato global dos atletas, já havia alertado em 2024 sobre o risco da ampliação do calendário. Com Eurocopa, Copa América, Olimpíadas e torneios nacionais, a temporada 2024/2025 é uma das mais desgastantes da história recente.
A inclusão da Copa do Mundo de Clubes como mais um torneio de verão acendeu o alerta: qualidade de jogo em queda, aumento de lesões e esgotamento mental. Jogadores de elite — como Kevin De Bruyne e Toni Kroos — chegaram a criticar abertamente a FIFA, chamando o torneio de “cash grab”, uma jogada financeira desconectada da realidade dos atletas.
O modelo de competição, além disso, privilegia os clubes mais ricos, que já contam com elencos recheados e podem se dar ao luxo de rodar suas equipes. Os demais viajam com delegações reduzidas, enfrentam longos deslocamentos e lidam com a burocracia de um país onde o futebol ainda é visto como espetáculo pontual, não como paixão nacional.
Uma escolha política que escancarou contradições
A FIFA escolheu os Estados Unidos por motivos óbvios: estrutura, patrocinadores e proximidade com a Copa do Mundo de 2026. Mas essa decisão também carrega peso simbólico. Sediar um torneio que se propõe a representar o futebol global em um país que vive um momento de intolerância, fechamento de fronteiras e polarização interna é contraditório.
Como falar de união, diversidade e integração cultural quando torcedores estrangeiros são barrados, hostilizados ou ameaçados de deportação? Como promover o futebol como ferramenta de inclusão quando o país-sede aplica políticas de exclusão em larga escala?
A FIFA, neste caso, optou por ignorar os sinais. Fechou os olhos para a instabilidade institucional e decidiu apostar no poder do dinheiro e das marcas. O resultado é um torneio com pouca alma, muitos espaços vazios e ainda menos identificação popular.
A Copa do Mundo de Clubes de 2025 tinha tudo para marcar o início de uma nova era. Mas, ao insistir em fórmulas comerciais e ignorar o contexto político e social dos Estados Unidos, a FIFA expôs a própria fragilidade do projeto.
Torcedores não se sentem bem-vindos. Clubes viajam desgastados. E os jogadores questionam o sentido de mais um torneio espremido entre competições extenuantes. Em vez de ser uma celebração do futebol global, o evento virou uma demonstração de como o esporte pode ser manipulado para atender interesses que pouco têm a ver com o jogo dentro de campo.
O erro está claro. E serve de lição: nem sempre o maior mercado é o melhor palco, principalmente para uma competição nova como a Copa do Mundo de Clubes.
(Foto: Divulgação/FIFA)