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Copa do Mundo nos Estados Unidos expõe desigualdade entre torcidas fora de campo

A Copa do Mundo de 2026 entrou para a história por reunir um número recorde de seleções e ampliar ainda mais o alcance do principal torneio do futebol mundial. Neste cenário, países que nunca haviam disputado a competição conseguiram realizar esse sonho, enquanto torcedores de diferentes partes do planeta passaram meses se preparando para acompanhar suas seleções de perto. No entanto, fora das quatro linhas, nem todos conseguiram viver essa experiência da mesma maneira.

Embora a FIFA tenha trabalhado durante anos para tornar a Copa do Mundo mais global, a realidade mostrou que o caminho até os estádios foi muito diferente dependendo do país de origem de cada torcedor. Em meio às comemorações pela estreia de novas seleções e pelo crescimento do torneio, restrições de entrada e dificuldades para conseguir vistos acabaram se transformando em um dos assuntos mais debatidos ao longo da competição.

Desta forma, enquanto algumas torcidas conseguiram marcar presença em grande número nas arquibancadas, outras praticamente não tiveram a oportunidade de acompanhar suas seleções de perto. Em alguns casos, nem mesmo jornalistas conseguiram autorização para viajar. Assim, a Copa do Mundo também acabou refletindo diferenças que pouco tinham relação com o futebol, mas que influenciaram diretamente a forma como milhares de pessoas viveram o torneio.

Restrições criaram uma realidade diferente durante a Copa do Mundo

A Copa do Mundo de 2026 tem Estados Unidos, Canadá e México como países-sede. Neste cenário, justamente por concentrar boa parte das partidas, os Estados Unidos se tornaram o principal desafio para torcedores de diversas seleções. Afinal, entrar no país não é um processo simples. Em diferentes casos, torcedores enfrentaram dificuldades para conseguir o visto, enquanto outros precisaram lidar com restrições migratórias ou altas taxas de recusa nas solicitações. Isso fez com que parte dos países classificados não conseguisse levar às arquibancadas a quantidade de torcedores que normalmente acompanha a seleção em grandes competições.

A diferença inclusive ficou evidente em diversos jogos da Copa do Mundo. Um dos exemplos mais marcantes aconteceu na partida entre Escócia e Haiti. Depois de décadas longe do torneio, as duas seleções voltaram ao Mundial, mas viveram cenários completamente diferentes nas arquibancadas.

A torcida escocesa tomou as ruas antes da partida, organizando grandes caminhadas e transformando o ambiente em uma verdadeira festa. Já os haitianos apareceram em número muito menor. A diferença chamou atenção justamente porque não parecia refletir apenas o tamanho das torcidas, mas também os obstáculos enfrentados por alguns países para conseguir viajar.

Além disso, as dificuldades não atingiram apenas os torcedores. Alguns jornalistas também encontraram problemas para obter autorização de entrada. Em determinados casos, mesmo após realizar todos os preparativos necessários e cumprir as exigências estabelecidas, o visto acabou sendo negado sem explicações públicas.

Por causa desse cenário, muitas pessoas viveram a Copa do Mundo longe dos estádios. Em diferentes cidades espalhadas pelo planeta, torcedores que não conseguiram estar nos Estados Unidos procuraram por fan zones em praças, restaurantes e outros pontos de encontro para acompanhar os jogos. Embora o clima de festa continuasse presente, a experiência naturalmente era diferente daquela imaginada por quem sonhava acompanhar a competição de perto.

No fim das contas, a Copa mostrou um contraste curioso. Dentro de campo, o torneio nunca havia sido tão aberto para novos participantes. Fora dele, porém, parte dessas mesmas seleções viu seus torcedores encontrarem obstáculos que impediram uma presença maior nas arquibancadas.

Torcedor do Iraque simbolizou as dificuldades na Copa do Mundo

Entre todas as histórias que surgiram durante a Copa do Mundo, poucas representam tão bem esse cenário quanto a de Mustafa al Saadi. O iraquiano acompanhava a seleção nacional havia anos e já tinha o costume de viajar ao lado de amigos para assistir às partidas da equipe em outros países. Quando o Iraque garantiu vaga em sua primeira Copa do Mundo desde 1986, o grupo começou imediatamente a planejar mais uma viagem. Afinal, para uma geração inteira de torcedores, seria a primeira oportunidade de acompanhar a seleção no maior torneio do futebol mundial.

O planejamento, porém, não aconteceu como o esperado. Enquanto três amigos conseguiram viajar para os Estados Unidos, Mustafa al Saadi permaneceu no Iraque porque seu pedido de visto continuava em análise. Sem qualquer resposta definitiva, ele viu a possibilidade de acompanhar a seleção no estádio simplesmente desaparecer.

Assim, enquanto seus amigos estavam presentes na Filadélfia para assistir ao duelo contra a França, ele acompanhou a partida em uma fan zone organizada na cidade de Mosul. O contraste resume bem a realidade vivida por muitos torcedores durante a competição. Todos tinham o mesmo objetivo de apoiar sua seleção, mas nem todos tiveram as mesmas oportunidades para fazer isso.

Mesmo impedido de viajar, Al Saadi decidiu transformar a frustração em uma forma diferente de participar da Copa. Em vez de apenas assistir aos jogos, ele ajudou na organização do espaço que reuniu centenas de torcedores em Mosul. Com telões, bandeiras, música e muita festa, a cidade conseguiu criar um ambiente semelhante ao vivido por quem estava nos países-sede.

Outras comunidades espalhadas pelo mundo também fizeram algo parecido. Em Brockton, nos Estados Unidos, onde existe uma grande comunidade cabo-verdiana, restaurantes ficaram lotados durante as partidas da seleção de Cabo Verde. No Senegal, centenas de torcedores acompanharam os jogos reunidos em uma universidade de Dacar, ocupando sacadas e diferentes espaços para assistir aos telões.

Essas imagens mostram que a Copa do Mundo conseguiu mobilizar milhões de pessoas muito além dos estádios. Porém, também reforçam que, para muitos torcedores, essa acabou sendo a única maneira possível de participar do torneio.

É verdade que ampliar o número de seleções foi um passo importante para tornar a Copa do Mundo mais representativa. A presença de estreantes como Cabo Verde, Jordânia, Uzbequistão e Curaçao mostrou que o futebol continua alcançando novos países e novas histórias. No entanto, a edição de 2026 também deixou claro que aumentar o número de participantes não resolve, por si só, todas as barreiras existentes.

No fim, a competição apresentou um contraste difícil de ignorar. Enquanto o futebol conseguiu reunir um número histórico de seleções dentro de campo, parte dos torcedores ficou distante justamente por obstáculos que nada tinham a ver com o esporte. 

Créditos da foto de capa: Getty Images Sport.