A Copa do Mundo de 2026 representa muito mais do que a realização de um grande torneio internacional em território norte-americano. Para dirigentes, investidores e especialistas do setor esportivo, o evento pode ser o ponto de virada definitivo para a consolidação do futebol nos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, o início de uma nova fase de influência americana sobre o esporte mais popular do planeta.
Embora o futebol feminino esteja consolidado no país há décadas, o crescimento do futebol masculino tem sido gradual e constante. A realização da Copa do Mundo ao lado de México e Canadá acontece em um momento estratégico. Nos últimos anos, os Estados Unidos receberam a Copa América de 2024, o Mundial de Clubes de 2025 e agora se preparam para sediar a principal competição do calendário da FIFA.
Esse cenário evidencia não apenas o interesse crescente dos americanos pelo esporte, mas também a importância cada vez maior do país para o mercado global do futebol. Em uma indústria que movimenta bilhões de dólares anualmente, conquistar espaço nos Estados Unidos significa acessar uma das maiores economias do mundo e um dos mercados de entretenimento mais valiosos do planeta.
O futebol cresce entre os americanos

Durante décadas, o futebol ocupou uma posição secundária entre os esportes mais populares dos Estados Unidos. Futebol americano, basquete, beisebol e hóquei sempre dominaram a preferência do público.
Nos últimos anos, porém, esse cenário começou a mudar.
Os números da audiência demonstram uma evolução significativa. A rodada de abertura da Premier League na temporada mais recente registrou a maior audiência da história da competição nos Estados Unidos. Além disso, a média de público da liga inglesa cresceu 13% nos últimos três anos em comparação com o período anterior.
Outro dado relevante mostra que 12 partidas da Premier League ultrapassaram a marca de um milhão de telespectadores na temporada 2024/25. Embora esse número ainda pareça modesto para um país com mais de 340 milhões de habitantes, ele revela uma tendência importante de crescimento.
O interesse crescente também pode ser observado pelas ações dos próprios clubes europeus. Equipes como Liverpool, Leeds United e Sunderland escolheram os Estados Unidos como destino para suas turnês de pré-temporada. Já a Premier League investe em eventos específicos voltados para o público americano, como a Summer Series, que reuniu mais de 82 mil torcedores em uma partida entre Manchester United e West Ham.
A LaLiga também tenta expandir sua presença no país. O plano de realizar um jogo oficial entre Barcelona e Villarreal em Miami acabou cancelado após críticas e resistência de diversos setores do futebol espanhol. Ainda assim, tanto a liga quanto o Barcelona deixaram claro que continuam enxergando os Estados Unidos como um mercado estratégico para o futuro.
Messi impulsiona a MLS, mas o país busca uma identidade própria

Grande parte da recente popularidade do futebol nos Estados Unidos está relacionada à chegada de Lionel Messi à Major League Soccer.
A contratação do argentino pelo Inter Miami transformou a visibilidade da liga. Jogos passaram a atrair mais audiência, patrocinadores ampliaram investimentos e a cobertura da mídia internacional sobre a MLS aumentou significativamente.
No entanto, existe uma preocupação em relação ao futuro.
Messi completou 38 anos e dificilmente continuará sendo o principal rosto da liga por muito tempo. Por isso, dirigentes e especialistas entendem que o futebol americano precisa desenvolver suas próprias estrelas para sustentar o crescimento alcançado nos últimos anos.
Os desafios ainda são evidentes. Na última temporada da Premier League, apenas quatro jogadores americanos atuavam na principal liga do mundo: Chris Richards, Tyler Adams, Antonee Robinson e Brenden Aaronson. O número mostra que os Estados Unidos ainda produzem poucos atletas capazes de competir regularmente na elite do futebol europeu.
Nem mesmo a chegada de Mauricio Pochettino ao comando da seleção americana foi suficiente para transformar imediatamente as expectativas em relação ao desempenho da equipe nacional. Embora existam talentos promissores, o país ainda busca formar uma geração capaz de competir em igualdade com as maiores potências do futebol mundial.
Por isso, a Copa do Mundo de 2026 é vista como uma oportunidade única para aproximar uma nova geração de torcedores e futuros atletas para o esporte.
A influência americana já transforma o futebol mundial

Se durante muitos anos o futebol influenciou os Estados Unidos, agora o movimento acontece também na direção contrária.
A crescente presença de investidores americanos em clubes europeus é um dos exemplos mais claros dessa transformação.
Na última temporada da Premier League, 11 dos 20 clubes possuíam controle majoritário de empresários ou grupos americanos. Na Championship, segunda divisão inglesa, nove das 24 equipes estavam sob controle semelhante.
Além disso, personalidades famosas dos esportes e do entretenimento passaram a investir diretamente em clubes. Tom Brady tornou-se acionista do Birmingham City, JJ Watt investiu no Burnley e o rapper Snoop Dogg associou sua imagem ao Swansea City.
Esse crescimento da participação americana levanta debates importantes sobre o futuro do futebol.
Nos esportes dos Estados Unidos, modelos como controle rígido de gastos, ausência de rebaixamento e sistemas de franquias fazem parte da cultura esportiva. Embora essas ideias ainda estejam distantes do futebol europeu tradicional, a influência crescente dos investidores americanos pode estimular discussões sobre possíveis mudanças estruturais no futuro.
O próprio Mundial de Clubes já apresentou sinais dessa influência cultural. A entrada individual dos jogadores, votações públicas para premiações e formatos de apresentação inspirados nas ligas americanas mostraram como elementos típicos dos esportes dos Estados Unidos começam a aparecer cada vez mais no futebol.
A Copa do Mundo de 2026 reforçará ainda mais essa tendência. Pela primeira vez, a final contará com um show de intervalo inspirado no modelo da NFL, demonstrando a disposição da FIFA em adaptar o produto para torná-lo mais atrativo ao público americano.
Dessa forma, a Copa do Mundo não representa apenas uma oportunidade para popularizar o futebol nos Estados Unidos. Ela também pode acelerar um processo já em andamento: a transformação do próprio futebol global sob influência de um mercado que reúne poder econômico, capacidade de entretenimento e enorme potencial de crescimento.
Se os americanos finalmente abraçarem o futebol masculino da mesma forma que abraçaram outros grandes esportes nacionais, o verão de 2026 poderá ser lembrado como o momento em que os Estados Unidos deixaram de ser apenas um mercado promissor e passaram a se tornar uma das forças mais influentes do futebol mundial.
(Foto de capa: Getty Images)