Cabo Verde, Copa do Mundo. Foto: Reprodução/Fifa.com
Futebol Copa do Mundo

Copa do Mundo: como Cabo Verde, Gana e África do Sul surpreenderam taticamente no torneio

Em toda e qualquer competição de grande calibre, como a Copa do Mundo, sempre terá a famigerada ‘zebra’. Quando seleções de menor porte surpreendem as melhores equipes do mundo, os torcedores vão ao delírio, justamente porque não esperavam uma atuação exemplar. Esse foi o caso de Cabo Verde, Gana e África do Sul, que somaram pontos contra Espanha, Inglaterra e Coreia do Sul.

Mas, diante de tanta disparidade entre os plantéis, qual foi o segredo dessas seleções, consideradas ‘zebras’, para atingirem feitos históricos?

Cabo Verde: Foco no objetivo e sem cair na armadilha rival

Uruguai x Cabo Verde, Copa do Mundo 2026. Foto: IMAGO/Gribaudi/ImagePhoto
Uruguai x Cabo Verde, Copa do Mundo 2026. Foto: IMAGO/Gribaudi/ImagePhoto

 

Na primeira rodada da fase de grupos, é quase um consenso que a maior zebra foi o empate entre Espanha e Cabo Verde. A campeã europeia se viu com muitas dificuldades em furar o bloqueio lusófono, que contou com uma atuação esplêndida do goleiro Vozinha.

Taticamente, a equipe treinada por Bubista foi irrepreensível. Cabo Verde é a terceira menor nação da história da Copa do Mundo e foi a mais bem-sucedida em sua estratégia de jogo.

Partindo de uma formação defensiva do 4-5-1, os cabo-verdianos deram um show de disciplina e executaram um plano de jogo que consistia em diminuir, ao máximo, o espaço entre as linhas do meio-campo e defesa.

É assim que times que gostam de ter a bola, como a Espanha de Luís de la Fuente, visam dar mais passes de retorno — passar a bola para trás —, com a esperança de incentivar o oponente a subir no campo. Nesse caso, o adversário pressionaria alto e criaria espaço entre suas linhas. Só que Cabo Verde não caiu nessa armadilha.

Quando ‘La Roja’ repassou a bola, esperando que os meias rivais engajassem, os ‘Tubarões Azuis’ foram fiéis ao seu plano de jogo e mantiveram sua forma compacta.

Na tentativa de provocar uma reação dos africanos, os zagueiros espanhóis avançaram, só que novamente não deu certo. Os comandados de Bubista mantiveram sua posição até o final e não negociaram um espaço sequer dentro do próprio campo.

Desse modo, a Espanha teve dificuldade em furar o muro construído por Cabo Verde. Só restavam duas opções: atacar pelos lados ou utilizar-se de lançamentos por cima. Nas duas alternativas, Lopes Cabral e Stiven Moreira foram imbatíveis nos duelos de mano a mano, enquanto Diney e Pico foram absolutos ao cortarem as investidas pelo alto.

Gana não foi muito diferente nesta Copa do Mundo

Inglaterra x Gana, Copa do Mundo 2026. Foto: Reprodução/Fifa.com
Inglaterra x Gana, Copa do Mundo 2026. Foto: Reprodução/Fifa.com

 

Esse mesmo padrão de Cabo Verde foi visto também em Gana. Na partida contra a Inglaterra, o time treinado pelo português Carlos Queiroz postou-se igualmente no 4-5-1 na defesa. Neste caso, se Dailon Livramento foi o homem mais à frente do time cabo-verdiano, Jordan Ayew foi quem cumpriu este papel no lado dos ganeses.

A Inglaterra de Tuchel é ainda mais vertical em suas ações por ter na referência um centroavante de elite, Harry Kane. Mas, antes de ligar suas ações no terço final, a equipe também tentou atrair a pressão do adversário e atacar os espaços que se abrissem.

Assim como a Espanha, a Inglaterra também não teve sucesso. Gana se recusou a subir suas linhas e cair na provocação, resultando em investidas ineficazes da seleção dos Três Leões.

O portal inglês BBC Sport trouxe uma estatística que ilustra bem a estratégia de Gana e Cabo Verde, em que os times se portam de forma mais passiva, mas que não negociam espaços entre suas linhas.

Segundo o jornal, a recusa de ambos os lados em pressionar quando o adversário tentava provocá-los é melhor ilustrada por uma estatística que busca quantificar a intensidade com que um time pressiona. Tal quantitativo é intitulado de ‘PPDA’, que, traduzido e explicado do inglês, significa ‘passes adversários permitidos por ação defensiva’.

Desse modo, explica-se: quanto maior o número, menos o time conseguiu interromper os períodos de jogo adversários.

Confira a média de PPDA de Cabo Verde e Gana nos jogos.

  • Espanha 0 x 0 Cabo Verde: média de PPDA foi de 51,2 dos cabo-verdianos contra 5,9 dos espanhóis.
  • Inglaterra 0 x 0 Gana: média de 62 dos ganeses.

Nota: O PPDA de Gana dignificado corresponde aos primeiros 15 minutos de partida contra a Inglaterra.

Por fim, curiosamente, Gana e Cabo Verde aumentaram a intensidade de suas ações conforme o tempo de jogo passava. Logo, evidencia-se ainda mais um time que busca tomar mais a iniciativa nos minutos finais e assim conquistar uma vitória em um momento próximo ao apito final.

África do Sul e a busca por uma bola ‘vadia’

África do Sul, Copa do Mundo 2026. Foto: AFP/Getty Images
África do Sul, Copa do Mundo 2026. Foto: AFP/Getty Images

 

Para ampliar o leque das estratégias das ‘zebras’, houve aquelas que não se acanharam perante um adversário superior tecnicamente. Esse foi o caso dos sul-africanos em sua, até então, maior glória em Copas.

Na vitória por 1 a 0 sobre a Coreia do Sul, a África do Sul atingiu um feito jamais alcançado. A seleção nunca, na história da Copa do Mundo, tinha conseguido avançar para a próxima fase. Na última quarta-feira, esse tabu foi quebrado.

Graças ao gol heroico de Thapelo Maseko, os Bafana Bafana puderam aumentar sua participação no Mundial, não se restringindo apenas aos três jogos da fase de grupos. O caminho do tento foi dado por uma jogada ousada, mas que foi eficaz.

Jogar pela defesa, mantendo grandes distâncias entre os jogadores, é um convite para o adversário subir a pressão, assim resultando em erros na saída de bola e roubadas em zonas perigosas.

A mesma África do Sul que sofreu contra o México, como foi no primeiro gol desta Copa — marcado por Julián Quiñones —, achou o caminho para estufar as redes contra a Coreia.

Em caso de uma escapada da pressão, o time fica com caminho livre para progredir e criar inúmeras boas chances. Desse modo, as ações finais melhores poderiam ter mudado a história do jogo.

Quando a Coreia do Sul pressionou a África do Sul em alto, os Bafana Bafana mantiveram seus princípios, jogando para frente de forma mais precisa. Em dado momento da partida, os comandados de Hugo Broos atacaram rapidamente e marcaram o gol que garantiu a classificação para a próxima fase da competição.

Copa do Mundo é realmente fascinante

Os exemplos ressaltam a qualidade tática crescente das nações, independentemente da classificação. Times, mesmo com jogadores de menor refino técnico, podem ser desafiadores ao terem um desempenho coletivo regrado e correto.

No mesmo torneio em que Messi tornou-se o maior goleador da história das Copas e em que Cristiano Ronaldo fez-se o único jogador a marcar em seis edições de Mundial, é o mesmo que destacou Vozinha, o goleiro de 40 anos, que impressionou o mundo com suas defesas contra a Espanha, e Eloy Room, de Curaçao, que estabeleceu um novo recorde de defesas em uma partida de 90 minutos (15).

A tática permitiu que nações menores compitam de forma mais igualitária, enquanto a Copa do Mundo estimula um desempenho inesperado nos jogadores.

Créditos da foto de capa: Reprodução/Fifa.com