O Coritiba não venceu o Atlético-MG apesar do jogo que fez, venceu exatamente por causa dele. Longe de qualquer domínio, brilho ou controle, o time de Fernando Seabra levou ao extremo uma proposta que flerta com o risco o tempo todo: errar praticamente nada. E, mesmo parecendo impossível, funcionou.
Com uma vitória por 2 a 0, a equipe chegou aos 19 pontos no Campeonato Brasileiro. Após 12 rodadas, o Coxa ocupa a sétima posição do torneio nacional, fazendo uma campanha sólida até aqui. Neste cenário, o fato de o clube entender suas limitações tem sido um fator crucial na temporada.
Não se trata apenas de um resultado isolado. Existe uma lógica por trás do que o Coritiba vem apresentando ao longo do campeonato. Mesmo sem protagonismo na maioria dos jogos, o time encontra maneiras de competir e, principalmente, de pontuar. E isso, dentro de um campeonato exigente como o Brasileirão, acaba fazendo diferença.
Coritiba cumpre perfeitamente sua proposta de jogo
Com apenas 25% de posse de bola no duelo contra o Atlético, o Coritiba praticamente não participou do jogo com a bola nos pés. Foram 210 passes ao longo dos 90 minutos, pouco mais de dois por minuto, em um roteiro que deixava claro desde o início qual seria o caminho.
Não houve tentativa de controlar o ritmo da partida ou de construir jogadas de forma mais elaborada. A ideia era outra. O time recuou suas linhas e se defendeu com organização, esperando o momento certo para atacar.
Ainda assim, com pouca construção de jogo e nenhum volume, o time foi feliz nas poucas vezes que “ousou” atacar. Nos únicos dois chutes que conseguiu finalizar, ambos na direção do gol, o Coxa construiu sua vitória no Couto Pereira.
A vitória do Coritiba foi acompanhada por uma eficiência absoluta, quase desconfortável de analisar, principalmente quando colocada ao lado do que aconteceu com o adversário: o Atlético-MG finalizou 25 vezes e não conseguiu transformar nenhuma dessas oportunidades em gol.
Isso diz muito mais sobre a estratégia do que apenas sobre o resultado. Porque, quando um time permite tanto volume ao adversário, normalmente paga o preço. Neste caso, o Coritiba conseguiu sustentar o plano até o fim, sem se desorganizar nos momentos de maior pressão.
O grande ponto é que o contraste não foi acaso. Na verdade, foi consequência direta de uma estratégia desenhada para ser levada ao limite. Fernando Seabra montou um plano que não comportava erro. A ideia não era competir em volume ou qualidade ofensiva, mas reduzir o jogo a poucos momentos.
Para isso, o Coritiba precisou se manter concentrado o tempo inteiro, ocupando espaços com disciplina e aceitando passar a maior parte do tempo sem a bola.
Nesse cenário, o desempenho não foi bonito. Em vários momentos, o time esteve mais próximo de apenas resistir do que de realmente competir com a bola. No entanto, a equipe demonstrou um entendimento total da própria estratégia. A proposta foi cumprida perfeitamente.
Coritiba não joga bonito, mas é inteligente
Com uma boa campanha no Brasileirão, o Coritiba parece entender com clareza suas limitações. Sabe que não tem, hoje, repertório para sustentar um jogo de protagonismo contra adversários mais fortes. Sendo assim, escolhe seguir um caminho mais honesto e realista. E devemos lembrar que não é um caminho fácil, porém tem funcionado até agora.
Além disso, existe um fator mental importante nesse processo. Jogar dessa forma exige concentração constante, disciplina tática e, principalmente, controle emocional para suportar a pressão do adversário sem se desesperar. Nem todo time consegue sustentar esse nível de exigência durante 90 minutos.
No fim, ao não ter vergonha de assumir suas limitações, o Coritiba consegue equilibrar duelos que, em teoria, seriam muito complicados. Desta maneira, Seabra faz o Coxa sonhar mais alto no Brasileirão, colocando o time na parte de cima da tabela.
Pode não ser o futebol mais bonito, nem o mais empolgante para quem assiste, mas é um modelo que, dentro da realidade do elenco, se mostra funcional.
Créditos da foto de capa: JP Pacheco / Coritiba.


