Sob o comando de Fernando Seabra, o Coritiba começou o Campeonato Brasileiro de maneira muito mais sólida do que era esperado. Sem um elenco badalado ou um futebol dominante, o Coxa encontrou um caminho competitivo entendendo exatamente suas próprias limitações. E, neste cenário, o time adotou uma estratégia extremamente arriscada, porém funcional em muitos confrontos.
O Coritiba basicamente escolheu “jogar por uma bola”. Sem tentar controlar os jogos, sem buscar protagonismo, o time passou a entregar intencionalmente a bola para os adversários. Desta forma, a ideia é clara: suportar a pressão e atacar nos poucos momentos em que surgem espaços para contra-atacar. E, durante várias rodadas, isso funcionou muito bem.
O melhor exemplo talvez seja justamente a vitória por 2 a 0 sobre o Atlético-MG, no Couto Pereira. Naquela partida, o Coritiba terminou o jogo com apenas 25% de posse de bola e finalizou duas vezes. Foram dois chutes e dois gols. Ou seja, o time executou perfeitamente aquilo que pretendia fazer.
A equipe reduziu o jogo a poucos momentos, praticamente anulando qualquer margem para desperdício ofensivo. Não existia volume, controle ou construção detalhada de jogadas. O objetivo era sobreviver sem a bola e ser absolutamente eficiente quando tivesse a chance de atacar. E o Coxa conseguiu.
Neste cenário, o clube foi acumulando pontos importantes e construindo uma campanha segura no Brasileirão. Ao invés de lutar diretamente contra o Z4, o time conseguiu se estabelecer na metade de cima da tabela.
O grande mérito do Coritiba estava justamente em não fingir ser um time que não era. A equipe entendeu que não possui elenco para bater de frente com adversários mais fortes tecnicamente e escolheu um caminho mais honesto. Pode não ser bonito, porém era funcional dentro da realidade do grupo.
O problema é que esse modelo exige praticamente perfeição. E talvez seja exatamente aí que o Coritiba começa a dar sinais de desgaste.
Estratégia do Coritiba pode desmoronar
Atualmente na nona posição do Campeonato Brasileiro, com 20 pontos conquistados em 15 jogos, o Coxa ainda faz uma campanha sólida. Porém, o momento recente já liga um alerta importante. O time não venceu nenhum dos últimos três jogos no Brasileirão. Além disso, nas últimas cinco rodadas, conquistou apenas uma vitória, somando dois empates e duas derrotas.
A sequência recente ajuda a mostrar isso de maneira clara. O Coritiba perdeu por 1 a 0 para o Grêmio, na Arena, em Porto Alegre, sofreu uma goleada do Vitória por 4 a 1 fora de casa e, depois, empatou com o Internacional por 2 a 2 no Couto Pereira, em um jogo que talvez tenha exposto da forma mais evidente os riscos dessa proposta.
Contra o Inter, o Coxa esteve duas vezes na frente do placar. Mesmo assim, deixou a vitória escapar com um gol sofrido no último lance da partida. E isso ajuda a mostrar um ponto importante: viver de “erro zero” é extremamente perigoso.
O Coritiba joga constantemente no limite. A equipe aceita sofrer pressão o tempo inteiro e depende de muitos fatores funcionando perfeitamente ao mesmo tempo. Não basta apenas disciplina tática. Muitas vezes, o modelo também exige eficiência absurda e até uma boa dose de sorte.
Porque, quando um time escolhe entregar a bola para o adversário durante quase todo o jogo, ele inevitavelmente sofre momentos de sufoco. E o grande problema é que, em vários jogos, o Coritiba nem sequer consegue se defender tão bem assim. Essa talvez seja a principal preocupação atualmente.
Dentro da própria proposta, o time muitas vezes deixa espaços demais. Os adversários conseguem criar chances claras com frequência, furando a defesa do Coxa e chegando com perigo real. Contra o Internacional, isso ficou evidente em vários momentos da partida. E não foi um caso isolado.
Em muitos confrontos recentes, o Coritiba parece estar sempre muito próximo tanto do sucesso absoluto da estratégia quanto do completo fracasso dela. Não existe margem confortável, tudo acontece no detalhe.
Quando o plano funciona, o time parece extremamente organizado e inteligente. Porém, quando pequenos erros aparecem, o cenário desmorona rapidamente. E isso é algo muito difícil de sustentar ao longo de um campeonato inteiro como o Brasileirão.
Neste cenário, a janela de transferências ganha muita importância para o clube. O Coritiba claramente precisa fortalecer o elenco se quiser continuar brigando na metade de cima da tabela.
Limitações do elenco começam a pesar no Coritiba
Com as peças atuais, a equipe provavelmente seguirá obrigada a atuar dessa mesma maneira, aceitando pressão excessiva e dependendo de um nível quase perfeito de concentração para sobreviver nos jogos. O problema é que, naturalmente, nem sempre isso vai acontecer.
Ao longo de uma temporada longa e desgastante, viver constantemente no limite pode cobrar um preço alto. E, caso o time continue tão vulnerável defensivamente, os resultados ruins podem começar a aparecer em sequência.
O Coritiba ainda faz um Brasileirão competitivo. Isso é inegável. Porém, o momento recente mostra que apenas entender as próprias limitações talvez já não seja suficiente.
Agora, o clube também precisa encontrar formas de diminuir os riscos do modelo que escolheu seguir. Do contrário, o Coxa corre o risco de ver uma campanha que parecia muito segura começar a escapar rodada após rodada.
Créditos da foto de capa: JP Pacheco/Coritiba.