O empate por 3 a 3 com o Athletico-PR tem um valor diferente para o Coritiba. Não porque o ponto, isoladamente, seja extraordinário, mas pela maneira como foi conquistado. O Coxa esteve duas vezes dois gols atrás, perdeu Breno Lopes ainda no primeiro tempo e precisou jogar em um gramado castigado pela chuva. Mesmo assim, chegou aos acréscimos com força para buscar dois gols e evitar uma derrota que parecia encaminhada.
É um resultado que diz pouco sobre domínio de jogo e bastante sobre competitividade. O Coritiba não controlou o Athletiba, não teve uma atuação tecnicamente superior e passou por momentos em que o rival parecia ter encontrado o caminho para vencer. O que a equipe de Fernando Seabra fez foi diferente: encontrou soluções conforme o jogo mudava.
Para uma equipe que ainda tem ambições na parte de cima da tabela, essa capacidade pode ser tão importante quanto uma boa atuação.
O clássico obrigou o Coritiba a sair do próprio roteiro
A chuva praticamente desmontou as condições normais de uma partida de futebol. O gramado encharcado dificultava a circulação da bola, alterava a velocidade dos passes e tornava cada disputa aérea ainda mais importante. O Athletico percebeu isso antes e conseguiu transformar a bola parada em sua principal arma.
Luiz Gustavo e Arthur Dias marcaram de cabeça, e o 2 a 0 colocou o Coritiba diante de um problema que não estava apenas no placar. Era preciso encontrar outra maneira de atacar em um campo no qual construir por baixo se tornou muito mais difícil.
A reação começou com Josué. A cobrança de falta que terminou no gol de Tiago Cóser recolocou o Coxa no clássico justamente quando o cenário parecia mais complicado. Pouco depois, porém, veio um golpe ainda maior: Breno Lopes foi expulso pela aplicação da chamada “Lei Vini Jr.”.
Com dez jogadores e perdendo por 2 a 1, o Coritiba precisava mudar novamente.
Seabra encontrou uma equipe possível
Fernando Seabra fez quatro alterações no intervalo, entre elas a entrada de Rodrigo Moledo. Também foram para o jogo Richard, Rodrigo Rodrigues e Paulo Roberto, enquanto a estrutura precisou ser adaptada. Cóser foi deslocado para a lateral direita e Sebas Gómez acabou ocupando o lado esquerdo.
Não era mais uma questão de reproduzir o plano inicial. O jogo havia exigido outra coisa.
O Coritiba precisava ser mais direto, disputar a segunda bola e aproveitar as situações de bola parada. Nesse aspecto, as mudanças fizeram sentido porque responderam às condições que a partida apresentava, em vez de insistir em uma ideia que já não cabia naquele gramado.
O problema é que o Athletico ainda tinha uma vantagem confortável para administrar.
Quando Viveros converteu o pênalti cometido por Thiago Santos e fez 3 a 1, o clássico parecia ter encontrado seu desfecho. O Coritiba tinha um jogador a menos, dois gols para buscar e pouco tempo pela frente.
Foi aí que apareceu a principal virtude do time na noite.
O Coritiba não precisou jogar bem para continuar perigoso
Há partidas em que uma equipe precisa jogar bem durante 90 minutos para vencer. Outras exigem capacidade de reconhecer rapidamente onde está a oportunidade possível.
O Athletiba foi desse segundo tipo para o Coritiba.
Com o jogo cada vez mais físico e fragmentado, o Coxa não tentou construir uma reação sofisticada. Apostou no que tinha à disposição: bolas paradas, presença na área e insistência nos minutos finais. Josué encontrou Rodrigo Moledo duas vezes, e o zagueiro transformou as cobranças em dois gols de cabeça nos acréscimos.
O mérito de Moledo é evidente, mas limitar a reação aos dois gols do zagueiro seria perder o ponto mais interessante do clássico. O Coritiba conseguiu identificar que não precisava recuperar o controle da partida para voltar a ser perigoso. Precisava apenas criar situações em que sua inferioridade numérica pesasse menos.
Isso é leitura de jogo. E também é personalidade.
O empate revela uma característica que pode valer pontos
O Coritiba já vinha mostrando no Brasileirão que não depende necessariamente de domínio territorial para competir. Antes do Athletiba, a equipe aparecia entre os ataques mais eficientes da competição, mesmo sem estar entre as que mais acumulavam posse, passes ou finalizações.
O clássico acrescentou outra característica a esse perfil.
Quando o jogo saiu do controle, o Coritiba não desapareceu junto com ele.
Isso não significa que a equipe esteja livre de problemas. Sofrer três gols e precisar de uma reação nos acréscimos não pode ser tratado como algo normal. Pelo contrário: os erros defensivos e a expulsão de Breno Lopes contribuíram diretamente para colocar o time em uma situação que poderia ter sido evitada.
Mas uma equipe não é avaliada apenas pela forma como joga quando tudo funciona. A temporada também é construída nas partidas em que o plano inicial dá errado.
E o Coritiba mostrou que consegue competir mesmo nessas condições.
O ponto pode ter efeito maior do que parece
Com 38 pontos, o Coxa ocupa a sétima posição neste momento do campeonato. A distância para os objetivos da equipe ainda será medida rodada a rodada, mas o empate no Athletiba oferece algo que a tabela não registra: confiança.
Não a confiança vazia de quem acredita que pode vencer qualquer adversário, mas a de quem já passou por uma situação extrema e encontrou uma saída.
Esse tipo de experiência pesa em um campeonato longo. Em algum momento, haverá outro jogo em que o Coritiba estará atrás, outro gramado ruim, outra expulsão ou simplesmente uma noite em que o futebol não encaixará. A resposta nesses momentos pode definir quantos pontos uma equipe consegue acumular até dezembro.
Foi isso que o Athletiba colocou à prova.
O Coritiba não ganhou o clássico. Também não jogou uma partida que permita ignorar seus problemas. Mas conseguiu algo que o rival não conseguiu: transformar uma situação praticamente perdida em uma oportunidade de sair fortalecido.
Rodrigo Moledo ficou com os holofotes, Josué foi decisivo nas bolas paradas e Seabra encontrou respostas durante o jogo. Mais importante, o elenco mostrou que ainda consegue competir quando o cenário deixa de ser favorável.
Se essa capacidade de adaptação virar uma característica recorrente, o 3 a 3 no Couto Pereira poderá acabar sendo lembrado por algo maior do que os dois gols nos acréscimos.
Pode ter sido o tipo de empate que fortalece uma equipe para os jogos que ainda estão por vir.
Foto: JP Pacheco/Coritiba/Divulgação



