Craig Gordon
Futebol Copa do Mundo

Craig Gordon: do risco de morte ao posto de jogador mais velho da Copa do Mundo

Craig Gordon entrou para a história da Copa do Mundo de 2026 por um motivo curioso: aos 43 anos, foi o jogador mais velho do torneio. Mas reduzir sua trajetória a um simples número seria uma injustiça gigantesca. A verdade é que o goleiro escocês viveu uma das histórias mais impressionantes do futebol moderno, uma sequência de quedas e retornos que parece roteiro de filme, daqueles em que o protagonista insiste em levantar mesmo quando todo mundo já acredita que acabou.

E, honestamente, em março deste ano parecia mesmo que tinha acabado.

Naquele mês, Gordon viajou para Londres para consultar o especialista em coluna Usamah Jannoun por causa de um problema no pescoço que ameaçava não apenas sua carreira, mas também sua qualidade de vida. A conversa foi direta, sem maquiagem e sem aquele tradicional “vamos ver como evolui”.

“Você leu o folheto de informações. Você pode ficar paralisado, você pode morrer”, explicou o médico ao goleiro.

Poucos meses depois, o mesmo Craig Gordon estava nos Estados Unidos integrando o elenco da Escócia na primeira participação do país em uma Copa do Mundo após 28 anos de ausência. Se isso não é reviravolta digna de cinema, eu não sei mais o que é.

Uma carreira construída na base do “voltei de novo”

O documentário Icons of Football, produzido pela BBC Scotland, mostra os bastidores dessa consulta e mergulha na trajetória do goleiro. E a impressão que fica é clara: a carreira de Gordon foi uma coleção de retornos improváveis.

Ao longo de mais de duas décadas, ele sofreu praticamente de tudo que um goleiro pode imaginar: problemas no tornozelo, braços quebrados, fratura na perna, cirurgias no joelho, lesões no pescoço e no ombro. Somando todos os períodos afastado, estima-se que tenha perdido cerca de 1.975 dias de futebol, algo próximo de 200 partidas.

O momento mais dramático aconteceu em 2012, quando desenvolveu uma tendinite patelar considerada ameaçadora para a carreira. O problema o deixou dois anos sem jogar. Ele procurou especialistas na Suécia e na Espanha, passou por três cirurgias e até precisou de acompanhamento psicológico, porque no Sunderland havia quem acreditasse que a dor estivesse “na cabeça dele”.

Não estava. O próprio cirurgião sugeriu aposentadoria. Gordon decidiu continuar.

Durante aquele período, tarefas simples como subir escadas ou caminhar pela rua se tornaram difíceis. E, embora sempre tenha mantido uma imagem de tranquilidade, ele admite que houve momentos em que desabou.

“Definitivamente houve vezes em que chorei por causa das lesões”, revelou.

O dilema entre o futebol e a vida

O problema no pescoço trouxe um tipo diferente de medo. Não era apenas a possibilidade de perder jogos ou uma temporada. Era a chance de comprometer o resto da vida.

Gordon contou que precisou pensar seriamente nos filhos e na possibilidade de não conseguir mais brincar com eles no futuro. Em outras palavras, a decisão deixou de ser apenas esportiva.

Se não houvesse Copa do Mundo em 2026, provavelmente ele teria se aposentado ao fim da temporada passada. O próprio goleiro admite isso. Mas havia um último objetivo.

A noite que mudou tudo

A classificação da Escócia para a Copa do Mundo aconteceu em novembro, com uma vitória histórica por 4 a 2 sobre a Dinamarca em Hampden Park. E esse jogo se transformou em um dos momentos mais emocionantes da carreira de Gordon.

Ele contou que chorou sozinho no quarto depois da partida, não apenas pela classificação, mas pelo significado daquele momento para todo o país.

Curiosamente, durante o jogo ele quase não comemorou os gols. Quando Scott McTominay marcou um golaço, Gordon simplesmente voltou para a pequena área. Quando Kieran Tierney acertou um chute no ângulo, a reação foi a mesma: caminhar de volta ao gol e se preparar para os minutos finais.

Era o modo como ele lidava com a pressão.

“Eu quase não joguei nesta temporada. Estava pensando em parar no fim da temporada passada. Então me classificar para uma Copa do Mundo… uau. Foi um último esforço. Um último objetivo. E deu certo”, resumiu.

Mais velho da Copa e exemplo de resistência

Na Copa do Mundo, Gordon acabou não entrando em campo. Angus Gunn venceu a disputa pela titularidade, e a participação escocesa foi breve. Ainda assim, sua presença no elenco já representava uma vitória gigantesca.

Afinal, estamos falando de um jogador que estreou pela seleção da Escócia há mais de 22 anos, antes mesmo de alguns companheiros de elenco nascerem. Ben Gannon-Doak, Findlay Curtis e Tyler Fletcher, por exemplo, ainda nem existiam quando Gordon já defendia o país.

Aos 43 anos, ele encerrou a carreira como o atleta mais velho do Mundial de 2026. E talvez essa seja apenas a estatística menos importante de toda a história.

O verdadeiro legado de Craig Gordon

O futebol adora falar de “mentalidade forte”, “espírito de luta” e “resiliência”. Muitas vezes esses termos aparecem em entrevistas prontas, quase como clichês de coletiva. No caso de Craig Gordon, porém, eles ganham um significado real.

Ele enfrentou lesões que poderiam ter encerrado sua carreira várias vezes. Foi desacreditado por médicos, técnicos, dirigentes e até por quem achava que suas dores eram exagero. Passou dois anos sem jogar, cogitou parar inúmeras vezes e, ainda assim, encontrou forças para voltar.

No fim, talvez o mais impressionante não seja o fato de ter chegado a uma Copa do Mundo aos 43 anos. O mais impressionante é que ele chegou lá depois de ouvir que poderia ficar paralisado ou até morrer por causa do tratamento necessário para continuar jogando.

Craig Gordon não levantou a taça da Copa do Mundo. Nem entrou em campo no torneio. Mas poucas histórias no futebol recente traduzem tão bem o significado da palavra superação. E, sinceramente, se alguém disser que goleiro não faz milagre, basta olhar para a trajetória dele. Porque o maior milagre de Craig Gordon foi simplesmente continuar de pé.

Foto: Reuters