Cruzeiro x Vasco
Futebol Brasileirão

Cruzeiro x Vasco: o caso de 2021 e a tentativa de retorno ao protagonismo das duas equipes

Neste fim de semana, Cruzeiro e Vasco voltam a se enfrentar pela Série A do Campeonato Brasileiro em um momento de reconstrução e ascensão para ambos. A partida, além do valor competitivo atual, com as duas equipes voltando para as competições continentais, carrega consigo um peso simbólico que remete ao Brasileirão Série B de 2021, quando os dois clubes protagonizaram um dos episódios mais insólitos da era moderna do futebol brasileiro.

Naquela ocasião, o duelo foi disputado no Mineirão, mas terminou envolto em confusão e incerteza. O placar do jogo mudou depois do apito final. O árbitro assinalou o fim do jogo com 2 a 1 no placar para o Vasco, mas depois, a Confederação Brasileira de Futebol corrigiu o resultado para 1 a 1, anulando um gol que a televisão não havia percebido. A falha na comunicação entre a equipe de arbitragem e a televisão causou um imbróglio que virou piada nacional e refletiu bem a instabilidade que os dois clubes viviam naquele momento.

Anos de crise e queda

O episódio de 2021 foi apenas um retrato do caos que ambos enfrentavam. Cruzeiro e Vasco haviam perdido protagonismo nacional, mergulhados em crises financeiras, políticas e esportivas. O Cruzeiro vivia o impacto da sua inédita queda para a Série B, sofrendo com gestões desastrosas e um elenco desorganizado. Já o Vasco amargava mais um rebaixamento, reflexo de um clube desestruturado, com atrasos salariais e dívidas acumuladas.

A Série B foi dura para os dois. O Cruzeiro passou três anos na segunda divisão, enquanto o Vasco, que caiu em 2020, só retornou em 2022, também depois de campanhas frustrantes e muita pressão de sua torcida. Ambos, durante esse processo, viram a transformação em SAF como o caminho possível para evitar o colapso definitivo.

SAF, novo fôlego e reestruturação

Com a criação da SAF, os dois clubes passaram por processos distintos, mas que trouxeram resultados parecidos: sobrevivência e retomada de ambição.

O Cruzeiro, vendido para o ex-jogador Ronaldo Nazário, viu sua gestão ganhar profissionalismo. Embora a campanha em 2023 na Série A tenha sido apenas de permanência, a equipe voltou a se organizar financeiramente e em 2024 já dava sinais de evolução com Pedrinho. Em 2025, disputa contratações grandes e tem a Sul-Americana como um símbolo de seu retorno ao cenário internacional.

O Vasco, adquirido pela 777 Partners, passou por altos e baixos mais bruscos. Em 2023, escapou do rebaixamento nas últimas rodadas. Desde então, a equipe passou por uma nova crise que levou ao fim da parceria com a 777, mas chegou às semifinais da Copa do Brasil no ano passado e retornou à Sul-Americana. No entanto, os problemas financeiros são grandes, e o time ainda busca um novo investimento.

A partida deste fim de semana é um retrato de dois clubes que saíram do fundo do poço e agora tentam encontrar consistência competitiva. O Cruzeiro de Leonardo Jardim aposta em um meio-campo forte, com um sistema de marcação mais intenso e uma transição bem trabalhada. No entanto, com problemas de vestiário com Dudu e a grande crise vivida na Sul-Americana ligam um sinal de alerta.

Do lado cruz-maltino, o técnico Fábio Carille ainda tenta encontrar a melhor configuração para o time, que tem bons nomes no elenco, como Nuno Moreira, Vegetti e Philippe Coutinho, mas ainda sofre com oscilações. A diretoria vascaína investiu em reforços sul-americanos e aposta na base, como é o caso do jovem Rayan, para dar nova identidade à equipe.

Rivalidade de peso e simbolismo de Cruzeiro e Vasco

Embora Cruzeiro e Vasco não formem uma das rivalidades tradicionais do futebol nacional, o histórico recente criou uma espécie de ligação simbólica entre os dois clubes. Ambos viveram momentos de glória — com Libertadores, Brasileiros e Copas do Brasil no currículo — e afundaram quase ao mesmo tempo, dando início a um caminho de reconstrução doloroso e ainda incompleto.

O reencontro agora tem outro peso. Ambos buscam consolidação, resultados dentro de campo que validem as mudanças fora dele, e uma afirmação de que o pior ficou para trás. O jogo é mais do que três pontos: é um capítulo da reestruturação de dois gigantes feridos, que aprenderam da forma mais difícil que história, por si só, não sustenta o presente.

Cruzeiro e Vasco chegam a este duelo ainda longe de seus auges históricos, mas infinitamente mais organizados do que quando protagonizaram o “jogo do placar perdido” em 2020. Com novos donos, novas ideias e torcidas ainda exigentes, os clubes sabem que a reconstrução não termina com a volta à elite. Mas cada partida como essa, recheada de significado, expectativa e história, ajuda a pavimentar um futuro mais sólido.

No Mineirão, mais do que o resultado, o futebol brasileiro observará um embate entre dois projetos que tentam mostrar que aprenderam com os próprios erros, e que estão prontos para voltar ao topo.

(Foto: Gustavo Aleixo)