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Cuca de volta ao Santos: solução vencedora ou repetição de erros?

A demissão de Juan Pablo Vojvoda e a rápida contratação de Cuca pelo Santos Futebol Clube mostram que o clube já tinha essa convicção há algum tempo. A troca aconteceu praticamente de um dia para o outro, mas isso está longe de ser o maior problema.

A grande questão é que esses fatos acabam repetindo um padrão histórico da diretoria santista: diante de pressão por resultados, recorre-se a um nome conhecido, experiente e identificado com o clube, mesmo que o histórico recente traga dúvidas relevantes.

Vojvoda havia sido contratado em 2025 com a missão de estabilizar o time após um período turbulento, assinando contrato até o fim de 2026, depois de um trabalho longo e vencedor no Fortaleza. Entretanto, o argentino não foi nada bem no comando do Peixe e acabou sendo demitido de forma justa.

Com isso, a demissão de Vojvoda acabou abrindo espaço para mais um retorno de Cuca, treinador que já teve várias passagens pela Vila Belmiro, com alguns momentos de sucesso, mas também com muitos episódios controversos.

A decisão divide opiniões porque Cuca reúne qualidades inegáveis dentro de campo, mas carrega fora dele um conjunto de fatores que sempre reaparecem quando seu nome entra em pauta.

Apesar de vencedor, Cuca é cercado por controvérsias

Cuca é um treinador vencedor e controverso
Cuca é um treinador vencedor e controverso (Imagem: Douglas Magno/AFP)

Não há como negar que Cuca é um dos técnicos mais vitoriosos do futebol brasileiro nas últimas décadas. Ele foi campeão da Libertadores de 2013 e comandou o Atlético-MG no histórico triplete de 2021, conquistando Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil e Mineiro, além de acumular outros títulos importantes ao longo da carreira. Como um Brasileirão pelo Palmeiras também.

Esse currículo explica por que ele sempre volta ao radar de clubes grandes, especialmente em momentos de crise. Cuca costuma ser visto como um treinador capaz de reorganizar o ambiente, ganhar o respeito dos jogadores e dar competitividade a elencos instáveis.

Entre atletas, sua fama é de técnico “boleiro”, que conversa diretamente com o grupo e consegue mobilizar o vestiário, algo que costuma pesar em clubes pressionados. No Santos, isso não é diferente. Em sua passagem anterior, Cuca conseguiu montar uma equipe competitiva mesmo com limitações financeiras e estruturais, o que ajuda a justificar mais uma aposta da diretoria. Entretanto, o problema é que, junto com ele, sempre vêm alguns questionamentos difíceis.

A principal polêmica que acompanha Cuca há décadas é o caso ocorrido na Suíça, em 1987, quando ele foi condenado por relação sexual com uma menor de idade durante excursão do Grêmio. A sentença foi anulada em 2024 por questões processuais, e a Justiça considerou o caso prescrito, o que faz com que ele seja legalmente presumido inocente.

Mesmo assim, o episódio nunca deixou de ser lembrado e sempre provoca resistência de parte das torcidas e da opinião pública quando ele é contratado. Em um clube como o Santos, que historicamente se orgulha de sua imagem e de sua base formadora, a repercussão negativa fora de campo não pode ser ignorada.

Além disso, há o histórico recorrente de interrupções de trabalho. Cuca já deixou clubes alegando problemas pessoais em mais de uma oportunidade, inclusive em momentos importantes de temporada, o que gera desconfiança sobre sua permanência a longo prazo.

Esse padrão faz com que nos últimos anos as contratações do treinador sejam vistas como soluções emergenciais, e não como parte de um projeto duradouro. Somos críticos com clubes que demitem um técnico no meio de um trabalho, mas Cuca já fez o inverso muitas vezes.

Outro ponto que preocupa torcedores santistas é o histórico de começos lentos em suas passagens pela Vila. Em diferentes momentos, equipes comandadas por Cuca demoraram a engrenar, aumentando a pressão logo nas primeiras rodadas. Algo terrível para um time que está na UTI.

Também existe a crítica sobre o uso da base. O Santos construiu sua identidade revelando jogadores, mas nem sempre os times de Cuca priorizam jovens, preferindo atletas mais experientes, o que pode entrar em choque com os anseios da torcida, abrindo espaço para mais um problema.

As indicações de reforços também são lembradas. Em passagem anterior, a diretoria deixou de avançar na contratação do argentino Marco Ruben, atacante experiente e em boa fase, para apostar em Felippe Cardoso, que acabou não se firmando e teve pouca relevância.

Casos como esse reforçam a percepção de que o treinador nem sempre acerta na montagem de elenco, especialmente quando tem influência direta nas contratações. Cuca não costuma abrir muito o leque para a América do Sul e prefere trabalhar com jogadores que ele já treinou.

Por tudo isso, a nova contratação de Cuca representa exatamente o dilema que o Santos vive há anos: apostar na experiência de quem já venceu ou insistir em um projeto de longo prazo com risco maior no curto prazo.

De um lado, está um técnico com currículo pesado, respeitado por jogadores e capaz de organizar equipes.

Do outro, um profissional que carrega polêmicas, histórico de saídas inesperadas, decisões discutíveis no mercado e resultados que nem sempre começam bem.

O Santos escolheu, mais uma vez, olhar para o passado em busca de solução para o presente. Resta saber se essa nova passagem será lembrada como mais um bom capítulo da relação entre clube e treinador, ou apenas como a repetição de um roteiro que a torcida já conhece e tem pesadelo de reviver. Independente de qualquer coisa, ser santista é bem mais difícil do que ser Neymar.

(Imagem de capa: Ivan Storti/Divulgação/Santos)