UFC Abu Dhabi: de Ridder x Whittaker
Lutas UFC

Reinier De Ridder corre risco desnecessário ao aceitar Brendan Allen no UFC Vancouver

O UFC Vancouver, marcado para 18 de outubro, sofreu um baque de última hora. A luta principal que colocaria Reinier De Ridder contra Anthony Hernandez precisou ser cancelada após lesão do americano. Para salvar o card, o UFC escalou Brendan Allen como substituto.

À primeira vista, a solução mantém o evento vivo, mas olhando com atenção, fica claro: para De Ridder, aceitar esse combate pode ser um movimento perigoso, talvez até prejudicial para sua carreira.

A expectativa era outra

Quando a luta contra Anthony Hernandez foi anunciada, o contexto era perfeito para De Ridder. Hernandez é top 10 do peso-médio, vinha de uma sequência consistente de vitórias e já era visto como um potencial desafiante ao cinturão. Para De Ridder, um triunfo nesse duelo serviria como credencial definitiva para disputar o título.

Em termos de narrativa, havia muito em jogo. A luta representava um choque entre dois atletas em ascensão, ambos com forte grappling, estilos agressivos e trajetórias empolgantes. Para os fãs, tratava-se de um confronto que realmente poderia mexer nos rumos da divisão.

Com a lesão de Hernandez, o cenário mudou. O substituto, Brendan Allen, ocupa apenas a 11ª posição do ranking e, pior, já foi derrotado por Hernandez em luta recente. Ou seja: o valor esportivo do combate despenca.

Do ponto de vista estratégico, aceitar Allen é arriscado demais. A razão é simples: há muito a perder e pouco a ganhar.

Uma vitória sobre Allen dificilmente dará a De Ridder o empurrão que ele precisa para garantir o title shot. Afinal, Allen não é top 5, não está embalado em uma série impressionante de vitórias e ainda carrega o peso da derrota para Hernandez. Portanto, vencer Allen é quase uma obrigação — e vitórias obrigatórias raramente aumentam o status de um atleta.

Já uma derrota teria consequências pesadas. Perder para um adversário mais baixo no ranking poderia derrubar De Ridder várias posições e, pior, manchar a narrativa de sua ascensão meteórica após chegar ao UFC vindo do ONE Championship. Em outras palavras: vencer pouco acrescenta; perder seria um desastre.

Brendan Allen é um risco real para De Ridder

O problema é que Brendan Allen não é, de forma alguma, um adversário inofensivo. O estadunidense é jovem, completo e já provou ser capaz de dar trabalho para qualquer um. Seu jiu-jítsu é afiado, sua trocação evoluiu muito nos últimos anos, e ele tem resistência para esticar lutas longas.

Além disso, Allen chega sem a pressão que recai sobre De Ridder. Enquanto o holandês tem que provar que merece uma chance pelo cinturão, Allen pode entrar solto, apostando no fator surpresa e na oportunidade de ouro que apareceu em sua carreira. É o cenário clássico em que o “azarão” joga sem responsabilidade e, justamente por isso, pode surpreender.

É claro que existe o peso da negociação. O UFC não pode simplesmente perder a luta principal de um evento importante no Canadá, e, do ponto de vista da organização, encaixar Allen como substituto parece uma solução lógica. Mas o que faz sentido para o UFC nem sempre faz sentido para o atleta.

De Ridder aceitando a luta pode ser visto como “company man”, alguém disposto a ajudar o evento a continuar de pé. Isso até pode render pontos nos bastidores com Dana White e a diretoria. No entanto, esses pontos podem não compensar o estrago que uma derrota provocaria em sua trajetória esportiva.

A verdade é que, por mais que o UFC pressione, atletas em posição de destaque precisam saber escolher suas batalhas. E essa escolha, especificamente, parece muito mais uma armadilha do que uma oportunidade.

O que seria melhor para De Ridder?

O cenário ideal seria outro: ou aguardar a recuperação de Anthony Hernandez para remarcar a luta, ou negociar um confronto contra alguém do top 5, que realmente consolidasse seu nome entre os melhores.

Esses nomes oferecem risco, é claro, mas também oferecem recompensa compatível: vencer um top 5 é argumento incontestável para disputar o cinturão. Allen, infelizmente, não dá essa credencial.

No entanto, se vencer Allen, De Ridder apenas cumpre o que dele se espera — e ainda assim não garante a chance pelo título. Se perder, compromete seriamente seu ranking, sua narrativa de ascensão e sua credibilidade como desafiante imediato.

Para um atleta de elite que busca o cinturão, aceitar Allen parece menos uma oportunidade e mais uma armadilha. O UFC pode ganhar com o card mantido. Mas, para De Ridder, a troca de adversário representa um risco que simplesmente não vale a pena.