Roberto de Zerbi
Futebol Premier League

De Zerbi no Tottenham: dá tempo de implantar sua ideia e evitar o desastre?

A chegada de Roberto De Zerbi ao Tottenham não representa apenas uma troca de treinador. É uma mudança profunda de identidade, daquelas que mexem com a estrutura do time dentro de campo e com a forma como o jogo é pensado.

Em meio a uma temporada caótica na Premier League, a missão é urgente: evitar o rebaixamento. Mas, ao mesmo tempo, o italiano carrega consigo uma ideia de jogo altamente específica, complexa e, acima de tudo, inegociável em muitos aspectos. A grande questão é simples de entender, mas difícil de responder: dá para ensinar o “De Zerbi ball” em tão pouco tempo?

O futebol de De Zerbi: controle, coragem e provocação

O trabalho de De Zerbi ganhou força no cenário europeu principalmente durante sua passagem pelo Brighton. Ali, ele consolidou um estilo que foge completamente do convencional e que exige coragem quase o tempo todo.

Se muitos treinadores evitam riscos perto do próprio gol, De Zerbi faz o oposto. Sua equipe constrói jogadas desde trás, com passes curtos, mesmo sob pressão intensa. A ideia não é simplesmente manter a posse, mas “chamar” o adversário para perto, atrair a marcação e, a partir disso, explorar os espaços que se abrem.

É um jogo de paciência e precisão. Cada passe tem função, cada movimentação tem um objetivo. O time não acelera por acelerar, ele manipula o rival até encontrar o momento certo de atacar.

Existe um equívoco comum ao analisar equipes de De Zerbi: a ideia de que se trata apenas de posse de bola estética. Na prática, é exatamente o contrário.

Durante seu período nos Seagulls, o time não só controlava o jogo com a bola, mas transformava esse domínio em produção ofensiva consistente. A equipe chegou a engatar uma sequência de 32 partidas consecutivas marcando gols na Premier League, evidenciando que o controle territorial vinha acompanhado de eficiência no ataque.

Outro ponto essencial é a pressão pós-perda. Assim que perde a posse, o time reage rapidamente, tentando recuperar a bola ainda no campo ofensivo. Isso encurta o campo, mantém o adversário acuado e aumenta o volume de chances criadas.

Claro, jogar dessa forma tem consequências.

Ao insistir na saída curta e na construção em zonas perigosas, o erro passa a fazer parte do processo. No Brighton, isso ficou evidente: a equipe esteve entre as que mais perderam a bola perto do próprio gol, muitas vezes concedendo oportunidades claras ao adversário.

Além disso, a postura ofensiva deixa espaços nas costas da defesa. Contra-ataques se tornam uma ameaça constante, especialmente em um campeonato tão físico e veloz quanto a Premier League.

É o tipo de futebol que encanta quando funciona, mas que cobra caro quando falha.

O desafio no Tottenham: ruptura total de estilo

Se o modelo de De Zerbi já é complexo por natureza, o contexto do Tottenham torna tudo ainda mais difícil.

A equipe vinha atuando de maneira praticamente oposta sob Thomas Frank e Igor Tudor. O foco estava em um jogo mais direto, com menor posse de bola, uso frequente de lançamentos longos e forte dependência de jogadas de bola parada.

Ou seja: sair desse cenário para um modelo baseado em construção curta, paciência e controle é uma mudança brusca. Não se trata apenas de ajustar posicionamentos, mas de alterar completamente a lógica de jogo dos atletas.

Jogadores acostumados a acelerar precisarão aprender a pausar. Aqueles que evitavam riscos terão que se sentir confortáveis sob pressão. É uma transformação técnica e mental. Um dos grandes pontos de interrogação é até onde De Zerbi estará disposto a adaptar suas ideias.

Seu histórico mostra um treinador fiel à própria filosofia. No Brighton, mesmo diante de erros, manteve a proposta, porque acredita que o processo, a longo prazo, traz resultados.

Mas o Tottenham vive uma situação de curto prazo. A luta contra o rebaixamento exige respostas imediatas. Nesse cenário, é possível que o italiano adote uma versão mais equilibrada de seu estilo: mantendo princípios como a construção desde trás e a valorização da posse, mas reduzindo riscos extremos.

Essa capacidade de ajuste pode ser determinante para o sucesso ou fracasso da missão.

Dá para aprender tão rápido?

A implementação completa do modelo de De Zerbi em poucos jogos é, sendo realista, improvável.

Seu estilo depende de automatismos, entendimento coletivo e repetição, fatores que normalmente são desenvolvidos ao longo de meses de treinamento. No entanto, alguns conceitos podem ser absorvidos mais rapidamente, como a ocupação de espaços, a criação de linhas de passe e a reação imediata após a perda da bola.

Mesmo uma adaptação parcial já pode trazer ganhos, especialmente na organização ofensiva, algo que o Tottenham claramente necessita neste momento.

A contratação de Roberto De Zerbi vai além da tentativa de evitar o rebaixamento. Ela representa uma escolha de identidade, uma aposta em um modelo de jogo que pode redefinir o futuro do clube.

No curto prazo, tudo gira em torno da sobrevivência na Premier League. Mas, se houver tempo e respaldo, o impacto pode ser muito maior.

Por enquanto, o desafio é claro: implementar ideias complexas sob pressão máxima. E, conhecendo De Zerbi, há uma certeza, ele não vai abrir mão de suas convicções facilmente.

Foto: Getty Images