Islam Makhachev atravessa um momento singular em sua carreira. Após anos consolidado como campeão dos leves e herdeiro legítimo do trono que já foi de Khabib Nurmagomedov, o daguestanês decidiu abrir mão do cinturão dos 70 kg para mirar um novo desafio: o título dos meio-médios. A decisão, embora arriscada, representa não apenas uma busca por glória em duas divisões, mas também um ponto de inflexão que pode redefinir seu lugar na história do UFC.
A escolha, no entanto, vem acompanhada de um dilema: será viável voltar ao peso leve após competir nos 77 kg? O próprio Makhachev levantou a dúvida em entrevista recente, admitindo que a luta constante com a balança pode tornar irreversível sua transição. A fala joga luz sobre um debate recorrente no MMA moderno: até que ponto os cortes de peso extremos são sustentáveis, mesmo para atletas de elite?
O futuro imediato: Jack Della Maddalena no horizonte
Antes de qualquer definição sobre voltar aos 70 kg, Makhachev terá um desafio imediato. Todos os rumores indicam que seu próximo compromisso será contra Jack Della Maddalena, atual campeão que venceu Belal Muhammad ainda neste ano. O duelo, ainda não oficializado, deve acontecer em novembro, em Nova York, e pode abrir um novo capítulo para o daguestanês.
A luta carrega implicações profundas. Uma vitória colocaria Makhachev em um seleto grupo de campeões duplos da história do UFC, ao lado de nomes como Daniel Cormier, Amanda Nunes e Conor McGregor. Mais do que isso, consolidaria sua imagem como um lutador completo, capaz de transitar entre divisões sem perder identidade. Uma derrota, por outro lado, traria questionamentos sobre até que ponto a mudança foi precipitada — especialmente considerando que ele deixou vago um cinturão em que parecia inalcançável.
Enquanto Makhachev sobe de categoria, o cenário dos leves não parou. Pelo contrário: a chegada de Ilia Topuria ao topo da divisão trouxe uma energia nova. O espanhol-georgiano nocauteou Charles Oliveira em poucos minutos no UFC 317, confirmando a aura de predestinado que já carregava desde os tempos de invicto prospecto.
O curioso é que, antes da vitória de Topuria, Makhachev não demonstrava muito interesse em um eventual duelo. Considerava o agora campeão alguém que precisava provar seu valor nos 70 kg antes de ser cogitado como rival de alto calibre. Mas a realidade mudou. A contundência com que Topuria conquistou o cinturão mexeu com o daguestanês, que já fala em “intriga” e até em uma possível superluta.
Esse eventual confronto seria carregado de narrativas: dois campeões dominantes, estilos contrastantes e uma rivalidade que colocaria em xeque a supremacia do wrestling daguestanês diante da agressividade e da precisão cirúrgica de Topuria. Mais do que um simples duelo de cinturões, seria um choque de eras e filosofias.
A questão do peso: obstáculo ou combustível para a lenda?
Se por um lado o cenário é promissor, por outro existe uma barreira física que não pode ser ignorada. Makhachev deixou claro que retornar ao peso leve pode ser cada vez mais difícil. Sua estrutura corporal, já ajustada ao ritmo dos 77 kg, pode tornar inviável a adaptação sem riscos à saúde e à performance.
No MMA moderno, exemplos não faltam de campeões que sofreram ao tentar manter cortes de peso extremos. Anthony Pettis, Rafael dos Anjos e até o próprio Khabib sempre relataram desgastes severos no processo. Para Makhachev, o dilema é claro: arriscar comprometer o físico para voltar e medir forças com Topuria, ou abraçar de vez o futuro nos meio-médios, ainda que isso signifique abandonar uma possível rivalidade histórica?
Podemos ter uma superluta entre Topuria e Makhachev?
Topuria ainda não fez uma defesa de cinturão, e pensar em subir para os meio-médios sem uma defesa é algo que Dana White provavelmente não permitiria. Além disso, o espanhol-georgiano é a esperança de renovação nos leves, e ele teria que enfrentar toda uma nova geração de lutadores, que inclui nomes como Paddy Pimblett e Maurício Ruffy e Arman Tsarukyan, e bater alguns da antiga geração, como Justin Gaethje.
Outro ponto seria a vontade de Makhachev de se aposentar rápido assim como o seu mentor. Se conquistar o cinturão contra Della Maddalena, existe a possibilidade de o russo se aposentar mesmo sem defender o título. Por mérito, uma luta entre os dois só deve acontecer no ano que vem ou em 2027. No entanto, essa é a maior luta que o UFC pode fazer, e isso pode influenciar na decisão.
Independentemente da decisão, o momento de Islam Makhachev é daqueles que moldam legados. Permanecer como campeão dominante em uma divisão é uma prova de consistência; conquistar glória em duas categorias é um salto para o Olimpo do esporte. O que ele escolher dirá muito sobre sua ambição e sobre sua visão de carreira.
O UFC, por sua vez, tem em mãos uma mina de ouro. Um card em Nova York com Makhachev disputando o título dos meio-médios já é por si só um evento massivo. E a possibilidade de um Makhachev x Topuria no futuro, seja nos 70 ou em peso combinado, seria uma das maiores lutas da década — não apenas pelo aspecto técnico, mas pelo valor simbólico de um confronto entre gerações.
(Foto: Getty Images)
