Durante mais de uma década, falar do ataque da Inglaterra foi praticamente falar de Harry Kane. O camisa 9 se tornou o principal nome da seleção inglesa desde que assumiu a titularidade ainda sob o comando de Gareth Southgate, acumulando gols, recordes e a braçadeira de capitão. Porém, a derrota para a Argentina na semifinal da Copa do Mundo de 2026 também deixou uma pergunta importante para o futuro: quem será o responsável por liderar o ataque inglês quando Kane encerrar sua trajetória pela seleção?
Embora o atacante tenha evitado falar sobre a possibilidade de disputar a Copa do Mundo de 2030, a realidade é que o planejamento para a sucessão precisa começar agora. Kane completará 33 anos nos próximos dias e, caso permaneça na seleção até a Eurocopa de 2028, chegará ao fim do torneio com 35 anos. A tendência é que a disputa contra a Argentina na semifinal tenha sido sua última participação em um Mundial.
O problema para a Inglaterra é que, ao contrário do que aconteceu na transição entre Wayne Rooney e Harry Kane, desta vez não existe um sucessor evidente surgindo para assumir a responsabilidade ofensiva da equipe.
A dependência de Harry Kane ficou evidente durante a Copa do Mundo

A campanha inglesa na Copa de 2026 mostrou o quanto Thomas Tuchel construiu seu sistema ofensivo em torno de Harry Kane. O atacante participou praticamente de todos os minutos da competição e foi substituído apenas duas vezes em sete partidas.
Esse dado demonstra não apenas a importância do camisa 9, mas também a falta de confiança da comissão técnica nas alternativas disponíveis.
Enquanto Kane marcou seis gols durante o torneio, dividindo a artilharia da equipe com Jude Bellingham, os outros centroavantes praticamente não tiveram oportunidades. Ollie Watkins entrou em campo durante apenas cinquenta minutos em toda a Copa, enquanto Ivan Toney recebeu poucos minutos nos acréscimos da semifinal contra a Argentina e na disputa pelo terceiro lugar contra a França.
A situação chama atenção porque o desgaste físico de Kane ficou evidente ao longo da competição. Depois dos dois gols marcados diante da República Democrática do Congo, ele passou três partidas sem balançar as redes com bola rolando, algo que aumentou o debate sobre a necessidade de administrar melhor sua minutagem.
O problema é que as opções imediatas também não representam uma renovação.
Watkins e Toney já têm 30 anos. Dominic Solanke, outro nome que apareceu nas convocações recentes, possui 28 anos, enquanto Dominic Calvert-Lewin está próximo dos 30.
Ou seja, mesmo entre os reservas, a Inglaterra não possui um atacante significativamente mais jovem preparado para assumir o protagonismo.
Os números da Premier League ajudam a explicar esse cenário.
Nas últimas temporadas, apenas três atacantes ingleses conseguiram ultrapassar a marca de dez gols no campeonato. Em 2024/25, Liam Delap, Jarrod Bowen e Ollie Watkins atingiram esse número. Já na temporada seguinte, apenas Watkins, Calvert-Lewin e Danny Welbeck conseguiram repetir esse feito.
Para um país tradicionalmente conhecido por produzir grandes centroavantes, trata-se de um dado que preocupa.
A nova geração ainda não oferece garantias para assumir o protagonismo

Se no presente a Inglaterra encontra poucas soluções, o futuro também ainda inspira cautela.
A Federação Inglesa acompanha diversas promessas, mas nenhuma delas parece pronta para ocupar o espaço que Harry Kane deixará.
O nome que desperta maior expectativa é Liam Delap.
Depois de se destacar pelo Ipswich Town, o atacante foi contratado pelo Chelsea por cerca de 30 milhões de libras. Entretanto, sua primeira temporada em Stamford Bridge ficou muito abaixo do esperado, com apenas um gol marcado na Premier League.
Mesmo assim, aos 23 anos, Delap continua sendo visto como um dos candidatos naturais a liderar o ataque inglês nos próximos ciclos.
Nas categorias de base surgem outros nomes interessantes.
Shim Mheuka, do Chelsea, foi eleito o melhor jogador da Premier League 2 após marcar 16 gols em 23 partidas pela seleção inglesa sub-19.
Will Lankshear, do Tottenham, segue uma trajetória parecida com a de Harry Kane, acumulando empréstimos para ganhar experiência antes de buscar espaço definitivo no elenco principal.
Há ainda jovens como Caelan Cadamarteri, Teddie Lamb, JJ Gabriel e Divin Mubama, todos tratados como atletas de grande potencial.
No entanto, existe uma diferença importante em relação às gerações anteriores.
A Inglaterra passou a formar muito mais pontas, meias ofensivos e jogadores versáteis do que centroavantes clássicos.
Casos como Charlie McNeill e Eddie Nketiah mostram que o sucesso nas categorias inferiores nem sempre se transforma em rendimento no futebol profissional. Ambos foram extremamente goleadores na base, mas nunca conseguiram repetir esse desempenho na elite.
Essa dificuldade faz com que a Federação Inglesa acompanhe o desenvolvimento dessas promessas sem a certeza de que alguma delas realmente assumirá o papel de referência ofensiva da seleção.
A solução pode estar em mudar a forma de jogar da Inglaterra

Caso nenhum centroavante consiga se consolidar nos próximos anos, a Inglaterra talvez precise mudar completamente sua identidade ofensiva.
Em vez de procurar um novo Harry Kane, Thomas Tuchel, ou qualquer treinador que esteja à frente da seleção no futuro, poderá construir um sistema sem um camisa 9 tradicional.
Essa possibilidade já começou a ser testada.
Antes da Copa do Mundo, Tuchel utilizou Phil Foden como falso nove em um amistoso contra o Uruguai. A experiência não funcionou da maneira esperada e acabou sendo abandonada.
Entretanto, outro jogador aparece como uma alternativa mais promissora.
Anthony Gordon, conhecido principalmente por atuar aberto pela esquerda, já demonstrou qualidade jogando centralizado.
Foi exatamente nessa função que ele brilhou na conquista da Eurocopa Sub-21 de 2023, sendo eleito o melhor jogador da competição após marcar dois gols e distribuir uma assistência.
No Newcastle, antes de sua transferência para o Barcelona, Gordon também foi utilizado algumas vezes como atacante central e revelou acreditar que, com o passar dos anos, atuará cada vez mais por dentro.
Essa mudança faria a Inglaterra seguir uma tendência observada em diversas seleções e clubes europeus, que passaram a priorizar atacantes móveis, capazes de trocar constantemente de posição, em vez de depender exclusivamente de um centroavante fixo.
Independentemente da solução escolhida, uma conclusão parece inevitável.
Substituir Harry Kane será um dos maiores desafios da Inglaterra na próxima década. Afinal, não se trata apenas de encontrar alguém capaz de marcar gols. A seleção precisará preencher o vazio deixado por um jogador que, durante anos, foi líder técnico, capitão e principal referência ofensiva da equipe.
A boa notícia para os ingleses é que esse processo ainda pode ser planejado com calma. Kane continua sendo peça fundamental da seleção e deve permanecer como protagonista até a Eurocopa de 2028. O desafio será aproveitar esse período para preparar uma nova geração ou encontrar uma forma diferente de jogar antes que o maior artilheiro da história da Inglaterra se despeça definitivamente dos gramados internacionais.
(Foto de capa: FIFA)