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Descansar os titulares foi a decisão certa? A estratégia da Noruega que dividiu opiniões na Copa do Mundo

A derrota da Noruega por 4 a 1 para a França, na última rodada da fase de grupos da Copa do Mundo, abriu um dos principais debates do torneio até aqui. Com a classificação ao mata-mata já garantida, o técnico Stale Solbakken decidiu poupar praticamente toda sua equipe titular, incluindo Erling Haaland e Martin Odegaard, diante de uma das favoritas ao título mundial. A estratégia chamou atenção não apenas pelo resultado em campo, mas também pelas consequências que ela pode trazer para a sequência da competição.

Enquanto a França entrou com força máxima e viu Ousmane Dembélé marcar três gols ainda no primeiro tempo, a Noruega apostou em preservar fisicamente seus principais jogadores pensando na fase eliminatória. A decisão dividiu opiniões entre analistas, ex-jogadores e até mesmo os torcedores noruegueses presentes nos Estados Unidos.

A grande pergunta agora é simples: perder a liderança do grupo valeu a pena para chegar mais inteiro ao mata-mata?

Solbakken priorizou o futuro da Noruega na competição

Stale Solbakken
Conhecido pelos seus trabalhos no futebol dinarmaquês, Stale Solbakken é o técnico da Noruega desde 2022 (Foto: Trond Reidar Teigen / NTB)

A decisão de fazer dez mudanças na equipe titular não aconteceu por acaso.

Segundo Solbakken, o curto intervalo entre a vitória sobre Senegal e o duelo contra a França tornou praticamente inevitável o descanso dos jogadores mais desgastados. A comissão técnica identificou que cinco ou seis atletas apresentavam sinais claros de desgaste físico após a segunda rodada, principalmente toda a linha defensiva e parte do meio-campo.

Além da avaliação médica, o treinador revelou que alguns jogadores também relataram cansaço.

Por isso, Haaland começou uma partida no banco de reservas pela primeira vez desde 2024. Martin Odegaard também foi preservado, assim como praticamente toda a base titular da seleção.

O objetivo era claro: chegar às 16 avos de final com o elenco completamente recuperado.

A estratégia ganha ainda mais sentido quando se observa a realidade da Noruega.

Diferentemente da França, apontada desde antes da Copa como uma das principais candidatas ao título, os noruegueses disputam seu primeiro Mundial desde 1998. Apenas superar a fase de grupos já representa um enorme avanço para uma geração que tenta recolocar o país entre as grandes seleções internacionais.

Roy Keane resumiu bem essa diferença de expectativa.

Segundo o ex-capitão da Irlanda, França e Noruega disputam a mesma competição, mas vivem objetivos completamente diferentes. Enquanto os franceses entram pressionados para conquistar o título, os noruegueses enxergam o mata-mata como uma oportunidade histórica.

Sob essa perspectiva, preservar os principais jogadores pode ser uma decisão mais lógica do que simplesmente buscar a liderança do grupo

O preço da estratégia foi alto dentro e fora de campo

Ousmane Dembélé, Noruega x França, Copa do Mundo 2026. Foto: Reprodução/Fifa.com
Ousmane Dembélé, Noruega x França, Copa do Mundo 2026. Foto: Reprodução/Fifa.com

Se por um lado a Noruega ganhou descanso físico, por outro pagou um preço importante.

A França encontrou uma equipe completamente modificada e aproveitou os espaços deixados pela falta de entrosamento. Dembélé marcou três vezes em apenas 25 minutos, transformando rapidamente um confronto que prometia colocar frente a frente Mbappé e Haaland em um verdadeiro espetáculo francês.

Sem Haaland, autor de quatro gols nas duas primeiras rodadas, o ataque perdeu sua principal referência. Seu substituto, Strand Larsen, ainda desperdiçou um pênalti no segundo tempo que poderia recolocar os noruegueses na partida.

A derrota também alterou completamente o caminho da equipe no mata-mata.

Em vez de permanecer próxima da base onde está hospedada, a Noruega precisará viajar aproximadamente 1.800 quilômetros até Arlington, no Texas, para enfrentar a Costa do Marfim. Caso tivesse terminado na liderança do grupo, faria um deslocamento muito menor.

Se vencer os africanos, ainda precisará seguir para Nova Jersey, onde poderá enfrentar Brasil ou Japão nas oitavas de final.

Além da questão esportiva, houve também o impacto emocional.

Milhares de torcedores noruegueses viajaram até os Estados Unidos esperando assistir a Haaland, Odegaard e os principais jogadores da equipe enfrentando uma das maiores seleções do mundo. Muitos demonstraram surpresa quando a escalação oficial foi divulgada momentos antes da partida.

Mesmo assim, a torcida manteve o apoio durante os 90 minutos, transformando novamente as arquibancadas com a tradicional comemoração inspirada nos vikings.

A história mostra que essa estratégia pode funcionar

Apesar das críticas, a decisão de Solbakken não é inédita na história das Copas do Mundo.

A Noruega tornou-se apenas a quarta seleção a promover dez ou mais mudanças na equipe titular durante uma mesma edição do torneio.

Existem exemplos positivos e negativos.

Em 2006, a Espanha também poupou praticamente todo seu time na última rodada da fase de grupos. Venceu a Arábia Saudita, mas acabou eliminada nas oitavas de final justamente pela França.

Já a Bélgica viveu cenário completamente diferente em 2018.

Depois de fazer dez alterações em sua equipe, os belgas eliminaram o Japão nas oitavas de final, derrotaram o Brasil nas quartas e só pararam diante da França na semifinal.

Ou seja, não existe uma resposta definitiva sobre a eficácia dessa estratégia.

Tudo dependerá do desempenho da Noruega diante da Costa do Marfim.

Caso consiga avançar às oitavas de final com seus principais jogadores descansados, a derrota para a França provavelmente será encarada apenas como um sacrifício necessário para aumentar as chances de seguir viva na competição.

O resultado da escolha será conhecido apenas no mata-mata

Haaland, Noruega ganha Senegal

A França confirmou sua força ao vencer os três jogos da fase de grupos e reforçou sua condição de favorita ao título.

Já a Noruega preferiu pensar alguns dias à frente.

Solbakken assumiu conscientemente o risco de abrir mão da liderança do grupo para tentar preservar o aspecto físico de um elenco que atua em um estilo extremamente intenso, baseado em pressão constante, força física e muitas disputas individuais.

A própria comissão técnica entende que perder um ou dois titulares por desgaste ou lesão poderia comprometer muito mais o restante da campanha do que uma derrota para uma das melhores seleções do mundo.

Por isso, a verdadeira avaliação da decisão ainda está por vir.

Se Haaland, Odegaard e companhia eliminarem a Costa do Marfim e seguirem vivos na Copa do Mundo, a estratégia será lembrada como uma escolha inteligente e corajosa. Mas, se a Noruega cair logo no primeiro confronto eliminatório, o debate inevitavelmente voltará: teria sido melhor enfrentar a França com força máxima e tentar construir um caminho mais favorável no mata-mata?

(Foto de capa: Reprodução / FIFA)

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Kaique