Angel Di Maria
Futebol

Di Maria dança seu último baile em Rosario, e está sendo cada vez mais especial

Rosario vibrou outra vez. Não foi um gol qualquer, não foi uma vitória qualquer. Foi Ángel Di María, o menino que partiu do Gigante de Arroyito há quase duas décadas, quem decidiu o clássico contra o Newell’s com uma cobrança de falta que mais parecia um desenho feito com pincel fino. A bola traçou sua parábola lenta, perfeita, e caiu como poesia no fundo da rede.

Na arquibancada, idosos e jovens se abraçaram como se fosse a primeira vez que viam aquele gesto. Mas todos sabiam: Di María já havia feito isso inúmeras vezes, em Madrid, em Paris, em Lisboa, em finais de copas pela seleção. Só que agora era diferente. Agora ele fazia isso em casa, com a camisa que o viu nascer.

Um retorno que parecia impossível

Poucos acreditavam que ele voltaria. No ano passado, antes mesmo de cogitar vestir novamente a camisa auriazul, Di María recebeu ameaças de morte se ousasse retornar a Rosario. Mas o futebol tem seus caprichos, e o coração do “Fideo” falou mais alto. Depois de brilhar mais uma vez na Europa, de ser campeão do mundo com a Argentina e de encerrar um ciclo no Benfica, ele decidiu que era hora de fechar o círculo voltando ao Rosario Central.

Voltou em julho, e logo na estreia contra o Godoy Cruz mostrou que não seria figurante: gol de empate, ponto garantido, aplausos intermináveis. Contra o Lanús, novo gol, nova vitória. E agora, no clássico contra o maior rival, a consagração. Três gols em seis jogos e, mais importante, a certeza de que Rosario Central não apenas o recebeu de braços abertos, mas também ganhou um líder capaz de transformar a temporada.

O peso da história caminha ao lado de Di María. Em Madrid, foi ele quem brilhou na final da Champions de 2014, sendo eleito o melhor em campo naquela que ficou conhecida como a “La Décima”. No PSG, formou parte de um elenco estrelado que dominou a França. Na seleção argentina, não há como esquecer: gol em Pequim, em 2008, para dar o ouro olímpico; gol em Wembley, na Finalíssima; gol no Maracanã, para acabar com a seca de 28 anos sem Copa América; gol em Lusail, contra a França, em um dos jogos mais épicos da história das Copas.

Di María nunca foi o mais midiático, nunca ocupou o centro das atenções como Messi ou Cristiano Ronaldo. Mas, quase sempre, foi ele quem apareceu nos momentos decisivos. O homem das finais, o jogador que deixa sua marca onde mais importa.

O presente vestido de passado

Agora, aos 37 anos, ele corre menos, mas pensa mais. O corpo já não responde com a mesma explosão dos tempos de Real Madrid, mas o talento segue intacto. E o mais impressionante é a naturalidade com que se adaptou de volta ao futebol argentino. Não parece um veterano em excursão sentimental. Parece um craque decidido a disputar o Clausura com seriedade, levando o Central à terceira posição e transformando o sonho de título em algo palpável.

O gol de falta contra o Newell’s talvez seja o retrato perfeito desse momento. Uma jogada que une técnica, experiência e frieza. Um gesto que transcende o jogo: não foi apenas uma bola na rede, foi um símbolo. Rosario Central volta a sonhar, e sonha com Di María.

É cedo para falar em despedida, mas é inevitável pensar que cada jogo de Di María no Gigante de Arroyito é uma despedida em potencial. O fim se aproxima, e talvez o próprio jogador queira que seja assim: com cada passe, cada drible e cada gol, escrevendo as últimas linhas de uma história que começou ali mesmo, quase vinte anos atrás.

Se o destino permitir, a temporada pode terminar com o Rosario Central campeão e classificado para a Copa Libertadores. Seria o broche de ouro para uma carreira que já tem de tudo: títulos, glórias, lágrimas, cicatrizes e gols eternos.

Di Maria: um herói que volta ao lar

“Fideo” é um daqueles raros jogadores que parecem imortais. Não porque escapam do tempo, mas porque o desafiam com gestos que ficam gravados na memória. Para os torcedores do Central, cada partida agora é uma celebração, um agradecimento silencioso a quem poderia ter se aposentado em qualquer canto do mundo, mas escolheu voltar para casa.

E talvez seja isso que mais emociona: Ángel Di María, o menino magro que saiu de Rosario como promessa e voltou como lenda, está dando seu último baile. E como todo grande dançarino, sabe que o fim da música pode ser justamente o clímax mais bonito da apresentação.

(Foto: Luciano Bisbal/AFP)