Futebol Brasileirão

Dorival Júnior no São Paulo: o paralelo entre 2023 e 2026

A história de Dorival Júnior com o São Paulo Futebol Clube parece seguir um roteiro muito específico: momentos de turbulência, ambiente pressionado e um elenco emocionalmente abalado precisando de alguém capaz de reorganizar o vestiário antes mesmo de ajustar o time.

Foi desta forma em 2023, quando ele substituiu Rogério Ceni e conduziu o clube ao inédito título da Copa do Brasil. E é assim novamente em 2026, numa volta cercada por expectativas, mas também por desafios ainda maiores.

A principal diferença é que, agora, Dorival retorna não mais como uma aposta segura do mercado nacional. Ele volta carregando o peso do próprio sucesso no Morumbi. O torcedor já sabe do que ele é capaz. E justamente por isso a cobrança será proporcional ao tamanho da esperança.

Quando assumiu o São Paulo em abril de 2023, Dorival encontrou um clube ferido emocionalmente. O time havia sido eliminado precocemente no Campeonato Paulista, Rogério Ceni deixara o cargo após desgaste interno e havia uma sensação clara de que o elenco rendia menos do que poderia. Ainda assim, existia um ponto positivo importante: o grupo acreditava que tinha qualidade. Faltava organização emocional e confiança.

Dorival entrou justamente como esse estabilizador. Seu perfil menos explosivo e mais agregador rapidamente melhorou o ambiente. O treinador reorganizou funções, recuperou atletas importantes e transformou um elenco irregular em um time extremamente competitivo em mata-mata. A campanha da Copa do Brasil acabou virando histórica, culminando no primeiro título do clube na competição, justamente contra o Flamengo, ex-time do treinador.

Naquele momento, o desafio era reconstruir autoestima. Agora, em 2026, o cenário é diferente. Dorival assume um São Paulo que vive desgaste técnico, físico e político. O clube chega pressionado após eliminação para o Juventude na Copa do Brasil, em meio a uma sequência ruim de resultados e um ambiente mais pesado nos bastidores.

Dorival não conta mais como fator surpresa. Também não existe a possibilidade de repetir imediatamente o grande feito de 2023, já que o time sequer está vivo na competição que marcou sua trajetória no clube. Entretanto, menos uma competição pode ser bom para essa reconstrução.

Dorival Júnior comemora o título da Copa do Brasil pelo São Paulo
Dorival Júnior comemora o título da Copa do Brasil pelo São Paulo (Imagem: Marcos Ribolli)

Além disso, o contexto atual traz outro elemento importante: Dorival retorna depois de uma experiência turbulenta na Seleção Brasileira e de altos e baixos no Corinthians. A passagem pela Seleção terminou de forma frustrante após resultados ruins e pressão crescente. Já no Corinthians, apesar de dois títulos, posteriormente, houve também momentos de desgaste e críticas por oscilações.

O Dorival de hoje é diferente daquele de 2023

Existe uma transformação importante na carreira de Dorival desde a conquista da Copa do Brasil. Antes visto como um técnico extremamente competente em gestão de grupo, mas frequentemente subestimado taticamente, ele passou a ser encarado como um treinador capaz de competir em alto nível em qualquer contexto.

A própria experiência na Seleção ampliou sua bagagem. Mesmo sem resultados consistentes, Dorival trabalhou com jogadores de elite mundial, lidou com pressão internacional e precisou administrar um ambiente de enorme instabilidade institucional. Isso pode beneficiar o São Paulo agora.

O elenco atual do Tricolor parece necessitar menos de “novidades táticas revolucionárias” e mais de organização emocional, recuperação de confiança e simplificação do jogo. Historicamente, Dorival é excelente justamente nisso.

O trabalho do treinador raramente é baseado em ideias extremamente complexas. Ele costuma potencializar características individuais, melhorar relações internas e criar times competitivos através de equilíbrio e bom ambiente.

Não por acaso, jogadores como Pablo Maia podem voltar a crescer com ele. O volante foi peça-chave no título de 2023 e é citado como um dos atletas que podem recuperar espaço e rendimento na nova passagem do treinador.

Além disso, Dorival tem algo que poucos técnicos conseguem ter hoje no futebol brasileiro: crédito emocional com a torcida. O título da Copa do Brasil criou uma conexão imediata entre treinador e arquibancada. Isso reduz a pressão inicial e dá ao técnico um tempo que normalmente não existiria.

O que esperar do futuro próximo do São Paulo?

A tendência é que o São Paulo de Dorival, pelo menos inicialmente, seja um time mais pragmático. O treinador sabe que não encontrará um elenco leve mentalmente. Por isso, o primeiro objetivo provavelmente será recuperar competitividade.

É difícil imaginar mudanças radicais de modelo de jogo no curto prazo. O mais provável é um time mais compacto, emocionalmente controlado e menos exposto defensivamente. Existe a clara possibilidade de Dorival apostar novamente em lideranças experientes para reconstruir o ambiente.

Em 2023, esse movimento aconteceu com Lucas Moura, Calleri, Rafinha e Arboleda em diferentes momentos. Agora, ele precisará reencontrar esse núcleo de confiança rapidamente, conhecendo novos atletas e redefinindo pilares.

O cenário para o restante da temporada, porém, é delicado. O São Paulo ainda está vivo em competições importantes, mas o elenco aparenta desgaste físico e psicológico. A missão imediata de Dorival talvez nem seja transformar o time em candidato a títulos, mas impedir que a temporada desande. E aí existe um ponto fundamental: Dorival quase sempre cresce em cenários caóticos.

Sua carreira inteira foi construída em trabalhos de recuperação, reconstrução e reorganização. Ele não costuma ser o técnico do projeto de cinco anos. É, muitas vezes, o treinador que recoloca o clube nos trilhos quando tudo parece perto de sair do controle. Por isso, o torcedor são-paulino talvez tenha motivos reais para acreditar novamente.

Em 2023, Dorival chegou para apagar um incêndio e saiu eternizado com um título histórico. Em 2026, o contexto é complexo, o elenco parece mais desgastado e o ambiente político é pesado. Ainda assim, existe algo que pesa a favor do treinador: poucos técnicos brasileiros entendem tão bem como devolver estabilidade emocional a um clube em crise quanto Dorival Júnior.

(Imagem de capa: Divulgação / São Paulo)