casemiro brasil
Copa do Mundo Seleção Brasileira

Eliminação expõe envelhecimento do Brasil e aumenta dúvidas sobre o trabalho de Ancelotti

A eliminação do Brasil para a Noruega nas oitavas de final da Copa do Mundo representa mais do que uma derrota inesperada. O resultado mostrou problemas que já existiam antes do torneio e que não foram completamente resolvidos por Carlo Ancelotti. Depois de duas quedas consecutivas nas quartas de final, diante de Bélgica e Croácia, a seleção brasileira desta vez nem conseguiu chegar entre as oito melhores do mundo.

A derrota por 2 a 1 ganhou ainda mais peso pela maneira como aconteceu. Em 2018, contra a Bélgica, o Brasil criou oportunidades suficientes para discutir se merecia um resultado melhor. Em 2022, diante da Croácia, esteve a poucos minutos da semifinal e caiu nos pênaltis. Contra a Noruega, a sensação foi diferente. O adversário controlou longos períodos da partida, trocou passes com confiança e encontrou em Erling Haaland o jogador capaz de decidir.

Ancelotti chegou à seleção depois de um dos momentos mais difíceis da história recente da equipe. O Brasil havia sido goleado por 4 a 1 pela Argentina e perdido quatro de seus cinco jogos anteriores nas Eliminatórias. Em 16 partidas sob o comando do italiano, foram dez vitórias, três empates e três derrotas.

Os resultados mostraram uma recuperação. A Copa do Mundo, no entanto, revelou que recuperar competitividade não foi suficiente para transformar novamente o Brasil em uma seleção capaz de controlar os melhores adversários.

O problema mais preocupante está justamente em uma região que durante décadas simbolizou o futebol brasileiro: o meio campo.

Brasil perdeu criatividade e passou a depender das transições rápidas

Lucas Paquetá Seleção Brasileira

A seleção brasileira sempre produziu jogadores capazes de controlar o ritmo das partidas, encontrar passes entre as linhas e criar soluções em espaços pequenos. A equipe atual apresenta uma realidade diferente.

O Brasil possui grande quantidade de atacantes de lado, mas sofre para encontrar meio campistas com características variadas. A convocação para a Copa deixou esse desequilíbrio evidente. Ancelotti levou inicialmente apenas cinco jogadores para o setor, uma escolha que reduziu suas opções quando surgiram lesões e necessidades de mudança.

A situação ficou ainda mais clara com a ausência de Lucas Paquetá, lesionado no confronto anterior contra o Japão. O próprio treinador admitiu que não tinha outro jogador com as mesmas características.

Sem Paquetá, Gabriel Martinelli entrou na equipe. A mudança acrescentou velocidade, mas retirou capacidade de construção por dentro. O Brasil passou a depender quase completamente de ataques diretos, acelerações pelos lados e transições.

Essa estratégia pode funcionar quando existem espaços. O problema aparece quando a equipe precisa controlar a posse, diminuir o ritmo do adversário ou encontrar soluções contra uma defesa organizada.

Contra a Noruega, a seleção brasileira foi superada na troca de passes. Para um país historicamente identificado com a qualidade técnica no meio campo, o cenário chama atenção. A Noruega conseguiu circular a bola, crescer na partida e obrigar o Brasil a passar longos períodos recuado.

A formação do elenco também ajuda a explicar o problema. O país continua revelando pontas de alto nível, mas não apresenta a mesma quantidade de jogadores capazes de organizar uma equipe pelo centro.

Ancelotti tentou construir sua base com Casemiro e Bruno Guimarães. A escolha trouxe vantagens, mas também criou limitações.

Casemiro trouxe equilíbrio, mas também expôs um problema estrutural

Uma das primeiras decisões importantes de Ancelotti foi recuperar Casemiro para a seleção depois de 18 meses de ausência.

A experiência do volante ajudou a organizar a equipe. Sua presença deu maior proteção defensiva e permitiu que Bruno Guimarães tivesse mais liberdade para avançar. Antes do pênalti perdido contra a Noruega, Bruno vinha realizando uma boa Copa do Mundo.

A dependência de Casemiro, no entanto, também apresentou um custo.

Em espaços abertos, o veterano já não possui a mesma capacidade física de seus melhores anos. A Noruega mostrou isso logo no segundo minuto, em um gol posteriormente anulado. Para evitar situações semelhantes, o Brasil passou a defender mais perto de sua própria área.

O resultado foi uma seleção cada vez mais recuada.

A Noruega ganhou liberdade para trocar passes e aumentar sua confiança. O Brasil, que precisava assumir o controle de uma partida eliminatória, passou a reagir ao adversário.

Esse cenário reforça a necessidade de uma reformulação. O problema não está apenas em trocar um jogador por outro. A seleção precisa reconstruir a maneira como ocupa o meio campo e encontrar um equilíbrio entre força defensiva, capacidade de pressão, controle da posse e criatividade.

A idade do elenco aumenta a urgência dessa mudança.

Vários jogadores importantes chegaram ao torneio próximos ou além dos 30 anos. O Brasil precisará definir quais veteranos ainda podem fazer parte do próximo ciclo e quais posições precisam passar por uma renovação imediata.

A situação de Neymar representa o exemplo mais evidente.

A aposta em Neymar alterou todo o funcionamento do ataque

neymar seleção brasileira brasil copa do mundo
Foto: FIFA

A decisão de levar Neymar para a Copa do Mundo foi uma das mais discutidas do trabalho de Ancelotti.

O treinador havia estabelecido critérios claros. Disse que o camisa 10 precisaria merecer a convocação pelo desempenho e afirmou que não levaria jogadores lesionados. No caso de Neymar, essas condições foram flexibilizadas.

A pressão popular teve importância. Parte da torcida ainda enxergava o atacante a partir da imagem construída durante seu auge, quando era o principal jogador da seleção e um dos melhores do mundo.

A realidade física e esportiva era diferente.

Em sua participação contra a Escócia, Neymar já havia apresentado dificuldades para acompanhar a intensidade do jogo. Mesmo assim, Ancelotti decidiu utilizá lo em uma partida eliminatória contra a Noruega.

A escolha provocou uma reorganização completa.

Sem mobilidade suficiente para ajudar na marcação e na recomposição, Neymar precisou atuar como centroavante. Isso obrigou Vinicius Jr. e Endrick a jogar mais abertos e também mais distantes do gol.

A mudança prejudicou justamente dois atacantes que poderiam ameaçar a defesa norueguesa com velocidade e movimentos em profundidade.

Ao mesmo tempo, o Brasil perdeu equilíbrio defensivo. A equipe ficou mais aberta e a Noruega passou a encontrar melhores condições para acionar Haaland.

O atacante precisava de pouco.

Haaland terminou a partida com apenas 30 toques na bola e 13 passes completos. Seu índice de gols esperados foi de somente 0,39. Mesmo assim, marcou duas vezes.

O dado mostra a eficiência extraordinária do norueguês, mas também revela o preço pago pelo Brasil ao permitir que o jogo se tornasse mais aberto.

Neymar marcou de pênalti, mas sua participação ficou marcada por discussões e lamentações ao apito final. Depois da eliminação, o choro de Neymar indicou que sua trajetória pela seleção chegou ao fim.

A despedida tem enorme significado. Neymar estreou pelo Brasil em 2010, justamente no mesmo estádio de Nova Jersey em que disputou sua última partida. Durante esse período, tornou se o maior artilheiro da história da seleção segundo o critério adotado pela Fifa e carregou por mais de uma década a responsabilidade de liderar o futebol brasileiro.

Sua saída encerra uma era, mas também obriga o Brasil a enfrentar uma pergunta que foi adiada durante anos: como construir uma seleção que não dependa da expectativa de recuperar o Neymar do passado?

Ancelotti precisa decidir se consegue comandar uma verdadeira reconstrução

Endrick, Carlo Ancelotti, Copa do Mundo 2026. Foto: Michael Regan/FIFA via Getty Images.
Endrick, Carlo Ancelotti, Copa do Mundo 2026. Foto: Michael Regan/FIFA via Getty Images.

Os números de Ancelotti não são ruins. Dez vitórias em 16 partidas representam uma recuperação importante para uma equipe que estava em crise antes de sua chegada.

A questão agora é diferente.

O italiano foi contratado inicialmente para corrigir problemas e tornar o Brasil competitivo. Depois da eliminação, será necessário avaliar se ele também é o treinador adequado para liderar uma transformação profunda.

O próximo ciclo exige decisões difíceis.

A seleção precisa renovar um elenco envelhecido, encontrar novas opções para o meio campo, reduzir a dependência de jogadores veteranos e construir um sistema que aproveite melhor atacantes como Vinicius Jr. e Endrick.

Também será necessário analisar a própria formação de jogadores no país. O excesso de pontas e a escassez de meio campistas criativos não são problemas que um treinador consegue resolver sozinho.

A eliminação para a Noruega mostrou o tamanho da distância entre o passado e o presente. O Brasil ainda possui talento individual, mas já não controla partidas apenas pela superioridade técnica. Também não pode continuar esperando que nomes históricos resolvam problemas que exigem mudanças coletivas.

A saída de Neymar simboliza o fim de um ciclo. A idade de Casemiro reforça a necessidade de renovação. A ausência de Paquetá mostrou a falta de alternativas no meio campo. A utilização de apenas cinco jogadores do setor na convocação revelou um erro de planejamento.

Ancelotti conseguiu estabilizar uma seleção que estava em queda. Agora, caso permaneça, terá uma missão muito maior.

O Brasil não precisa apenas de ajustes. Precisa reconstruir sua identidade, renovar o elenco e voltar a produzir um meio campo capaz de controlar partidas.

A grande dúvida depois da eliminação é se Ancelotti será apenas o treinador que colocou um curativo na crise ou o homem capaz de comandar a cirurgia que a seleção brasileira agora precisa.

(Foto de capa: Dan Mullan/Getty Images)

 

author
Kaique