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Copa do Mundo

Entenda como o Irã chega à Copa do Mundo entre conflitos, símbolos e histórias extraordinárias

Falar da seleção iraniana na Copa do Mundo de 2026 é falar muito mais do que futebol. Enquanto diversas seleções chegam ao torneio concentradas apenas em aspectos técnicos e táticos, o Irã desembarca no Mundial carregando uma bagagem que mistura política, identidade nacional, imigração, superação pessoal e questões sociais que ultrapassam as quatro linhas.

Nas semanas que antecederam a estreia contra a Nova Zelândia, a equipe comandada por Amir Ghalenoei precisou lidar com problemas que vão desde dificuldades relacionadas a vistos de entrada até polêmicas envolvendo dirigentes e símbolos políticos ligados ao país. Em determinados momentos, a preparação esportiva pareceu ficar em segundo plano.

Ainda assim, dentro do elenco existe uma coleção de histórias que ajuda a explicar a complexidade da sociedade iraniana contemporânea. Cada jogador representa uma faceta diferente de um país que vive constantes transformações e desafios.

De morador de rua a goleiro profissional

Alireza Beiranvand
Foto: AFP

Poucas trajetórias presentes neste Mundial são tão impressionantes quanto a de Alireza Beiranvand.

Hoje goleiro experiente da seleção iraniana, ele nasceu em Lorestan, região montanhosa do oeste do país, e cresceu em uma família nômade. Durante a infância, acompanhava os deslocamentos da tribo e vivia uma realidade completamente distante dos centros de formação esportiva.

Mesmo enfrentando resistência familiar, alimentava o sonho de se tornar goleiro profissional.

Ainda adolescente, tomou uma decisão radical. Deixou sua casa e partiu sozinho para Teerã em busca de uma oportunidade no futebol.

Sem dinheiro, sem contatos e sem um lugar para morar, passou a viver nas ruas. Dormiu em parques públicos, terminais de ônibus e locais improvisados. Para sobreviver, trabalhou vendendo chá, lavando carros, recolhendo materiais recicláveis e realizando serviços de construção civil.

Sua vida começou a mudar quando conseguiu ingressar nas categorias de base do Naft Tehran.

Anos depois, alcançou o auge ao se tornar titular da seleção iraniana. O momento mais marcante aconteceu na Copa do Mundo de 2018, quando defendeu um pênalti cobrado por Cristiano Ronaldo diante de Portugal.

O garoto que um dia não tinha onde dormir transformou-se em um dos maiores símbolos esportivos do país.

Entre duas culturas: a escolha que definiu Ghoddos

Saman Ghoddo
Foto: Getty Images

Se Alireza Beiranvand representa o Irã mais tradicional e profundo, Saman Ghoddos simboliza uma realidade completamente diferente: a dos milhões de iranianos que vivem fora do país.

Nascido em Malmö, na Suécia, em 1993, Ghoddos é filho de iranianos que deixaram o país após a Revolução Islâmica de 1979 e construíram uma nova vida no norte da Europa. Crescendo em solo sueco, ele foi totalmente inserido na cultura local, estudou em escolas do país, desenvolveu sua carreira nas categorias de base do futebol sueco e chegou a defender as seleções de base da Suécia.

Tudo indicava que seu futuro internacional seria vestindo a camisa amarela da seleção sueca. No entanto, quando recebeu o convite da Federação Iraniana, tomou uma decisão que mudaria sua trajetória.

Ghoddos escolheu representar o país de origem de sua família. Mais do que uma decisão esportiva, a escolha refletiu uma conexão cultural e afetiva que permaneceu viva apesar da distância geográfica. O meia-atacante passou a simbolizar uma realidade vivida por milhões de iranianos espalhados pelo mundo: o equilíbrio entre a cultura do país onde cresceram e as raízes familiares que continuam presentes em suas vidas.

Sua história ganhou ainda mais relevância em uma Copa do Mundo disputada nos Estados Unidos, país que abriga uma das maiores comunidades iranianas fora do Oriente Médio. Para muitos integrantes da diáspora iraniana, Ghoddos representa a possibilidade de manter viva a ligação com suas origens sem abrir mão da identidade construída em outro lugar.

Por isso, sua presença na seleção vai além do futebol. Ela ajuda a contar uma das muitas histórias que formam o mosaico cultural e social do Irã contemporâneo.

O pioneiro que abriu as portas da Europa

Alireza Jahanbakhsh
Foto: AFP

Hoje é relativamente comum encontrar jogadores iranianos atuando em ligas importantes do continente europeu.

Mas nem sempre foi assim.

Antes da ascensão de nomes como Mehdi Taremi, foi Alireza Jahanbakhsh quem ajudou a abrir esse caminho.

Em 2013, aos 19 anos, ele deixou o Irã para atuar no futebol holandês. O desafio envolvia uma nova língua, uma cultura diferente e um nível competitivo muito superior ao que estava acostumado.

A adaptação foi lenta, mas o atacante persistiu.

Depois de se destacar pelo NEC Nijmegen, alcançou o ponto mais alto de sua carreira no AZ Alkmaar.

Na temporada 2017/18, terminou como artilheiro da Eredivisie, tornando-se o primeiro iraniano a alcançar tal feito em uma das principais ligas da Europa.

Seu sucesso inspirou uma geração inteira de jovens jogadores iranianos que passaram a enxergar uma carreira internacional como algo possível.

O veterano que conecta passado e presente

Ehsan Hajsafi
O zagueiro iraniano Ehsan Hajsafi participa de uma coletiva de imprensa no Centro Nacional de Convenções do Qatar (QNCC), em Doha. Fadel Senna/AFP/Getty Images

Entre tantos personagens, Ehsan Hajsafi ocupa um papel diferente.

Aos 36 anos, é a memória viva da seleção iraniana.

Com mais de 18 anos de serviços prestados ao time nacional, viu treinadores passarem, gerações serem renovadas e diferentes estilos de jogo surgirem.

Sua importância, entretanto, não está apenas no campo.

Após a morte de Mahsa Amini, em 2022, o Irã mergulhou em uma das maiores ondas de protestos de sua história recente.

Naquele contexto delicado, Hajsafi foi uma das vozes mais observadas do país. Como capitão da seleção, reconheceu publicamente o sofrimento vivido por muitas famílias iranianas, ainda que adotando um discurso cauteloso.

O episódio reforçou sua posição como líder de um grupo constantemente exposto às tensões entre esporte e política.

A ausência que também conta uma história

Sardar Azmoun
Foto: (AFP)

Curiosamente, uma das figuras mais importantes do futebol iraniano nesta Copa não está presente.

Sardar Azmoun, durante muitos anos considerado o maior talento produzido pelo país neste século, ficou fora da lista final de convocados.

Conhecido como o “Messi iraniano”, o atacante construiu uma carreira sólida na Europa, especialmente no futebol russo, e chegou a ter uma passagem pela Roma.

Além do talento dentro de campo, Azmoun também ganhou notoriedade por sua postura durante os protestos que seguiram a morte de Mahsa Amini.

Ele foi um dos poucos atletas iranianos a demonstrar apoio público aos manifestantes, atitude que provocou grande repercussão no país.

Sua ausência da convocação gerou questionamentos imediatos e alimentou especulações sobre possíveis fatores políticos envolvidos na decisão.

Muito mais do que uma seleção de futebol

A seleção iraniana chega à Copa do Mundo de 2026 carregando um peso que vai além da disputa esportiva.

Dentro do mesmo elenco convivem um ex-morador de rua que parou Cristiano Ronaldo, um jogador criado na Suécia que escolheu representar as raízes familiares, um pioneiro que abriu portas para os compatriotas na Europa e um veterano que atravessou diferentes eras do futebol iraniano.

Ao mesmo tempo, a ausência de um dos maiores talentos da história recente do país evidencia como política e futebol continuam profundamente conectados na realidade iraniana.

Por isso, entender o Irã neste Mundial significa compreender que cada partida representa muito mais do que 90 minutos de futebol. Trata-se de uma seleção que carrega consigo as contradições, desafios, sonhos e transformações de um país inteiro.

(Foto: Atta KENARE / AFP)

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Kaique