O Ramadã altera rotinas em todo o mundo islâmico — e também dentro da Premier League. No Manchester City, o mês sagrado não é tratado como exceção, mas como parte do calendário humano do elenco.
Na partida contra o Leeds United, em Elland Road, houve a possibilidade de uma breve paralisação ainda no primeiro tempo para que jogadores em jejum pudessem quebrá-lo ao pôr do sol. Com o jogo iniciado às 17h30 (no horário local) e o anoitecer previsto para poucos minutos depois, a logística permitiria que atletas como Omar Marmoush, Rayan Aït-Nouri, Rayan Cherki e Abdukodir Khusanov ingerissem líquidos e suplementos à beira do campo.
A decisão sobre a pausa dependeria de alinhamento entre arbitragem e organização do jogo — e, internamente, não houve resistência por parte do adversário.
Planejamento, não improviso
Questionado pelo portal BBC Sport, Pep Guardiola deixou claro que o clube trabalha com antecedência. Os jogadores seguem suas tradições religiosas, e o departamento de nutrição adapta cardápios e rotinas de recuperação conforme necessário. O que não muda é o calendário oficial da liga — as partidas não são ajustadas por conta do Ramadã.
“Não podemos adaptar o calendário para os horários de início da Premier League e acho que eles estão acostumados – não são jovens e jogam há muitos anos nesse período. — relatou, Pep
“Para os jogadores, acho que não é novidade. Tanto Rayans, Omar quanto Khusa, não é a primeira vez que [observam] o Ramadã e eles sabem perfeitamente como lidar com isso. — encerrou.
A mensagem do treinador é objetiva: não se trata de novidade para atletas experientes. Eles já passaram por esse período em outras temporadas e sabem como gerenciar o impacto físico do jejum.
Nesta temporada, o quarteto muçulmano do elenco ainda não iniciou junto uma partida de Premier League, mas já atuou em competições de copa. A gestão de carga é individualizada.
Uma estrutura que vai além do campo
O Manchester City tem histórico consolidado com jogadores muçulmanos. Ilkay Gündogan foi capitão da equipe na campanha da tríplice coroa em 2023. Riyad Mahrez foi protagonista em diferentes momentos da última década. Yaya Touré marcou o gol do título da FA Cup em 2011, encerrando um jejum de 35 anos do clube sem um grande troféu.
Em 2012, ao recusar uma garrafa de champanhe como prêmio individual por motivos religiosos, Touré ajudou a provocar uma mudança simbólica: a Premier League substituiu o prêmio por um troféu. Atualmente, mesmo com patrocínio de marca ligada a bebidas, o uniforme de treino estampa a versão sem álcool do produto — um ajuste que evita conflito direto com princípios religiosos.
No City, o suporte vai além da imagem

Desde a temporada 2016-17, o clube mantém parceria com a organização Muslim Chaplains in Sport (MCS), que oferece acompanhamento espiritual a atletas e funcionários. O trabalho inclui realização de orações, aconselhamento individual e workshops sobre alimentação halal e impacto do jejum em atletas de alto rendimento.
O fundador da entidade, Imam Ismail Bhamji, atua diretamente nas instalações do City, oferecendo apoio confidencial para questões religiosas, familiares e emocionais.
O tema também ganha dimensão fora das quatro linhas. Recentemente, Guardiola mencionou em coletiva a dor causada por conflitos globais, incluindo a situação na Palestina. Segundo Imam, jogadores e funcionários às vezes buscam orientação sobre como lidar emocionalmente com esses temas — inclusive sobre exposição em redes sociais. O suporte, segundo ele, é sempre orientativo. A decisão final cabe ao clube e aos próprios atletas.
“Se for necessário, as pessoas me procuram em busca de orientação sobre assuntos familiares e questões pessoais. — disse Imam.
“Um exemplo é ser questionado sobre como navegar a guerra em Gaza – controlando suas emoções e não correndo o risco de perder seus empregos ao postar algo nas redes sociais.” — finalizou.
Cultura de inclusão e a sequência da temporada
Iniciativas semelhantes têm ocorrido em outros clubes ingleses. O Manchester United, por exemplo, promoveu um Iftar (quebra do jejum do Ramadã) em Old Trafford nesta semana, com direito ao Adhan (chamado à oração) dentro do estádio.
No City, os jogadores que participam do programa de capelania relatam satisfação por poderem manter suas práticas religiosas sem comprometer a rotina profissional. O próprio Imam Ismail contou ter sido cumprimentado por Guardiola com um “Ramadan Kareem” dias atrás — gesto simples, mas simbólico.
O fim do Ramadã será marcado pelo Eid, cuja data depende da observação da lua. Logo depois, o City terá um compromisso decisivo: a final da Carabao Cup contra o Arsenal, em Wembley. Para alguns jogadores, levantar o troféu pode ser mais que uma conquista esportiva — pode se transformar em um presente simbólico após um período dedicado a sua fé.
Assim é nítido que podemos afirmar: no Manchester City, fé e performance não competem. Elas coexistem.
Créditos da foto de capa: Reprodução/BBC Sports