Enzo Maresca, Pep Guardiola, Manchester City
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Enzo Maresca e a missão de transformar um Manchester City em transição novamente em potência

Enzo Maresca terá provavelmente um dos trabalhos mais difíceis de sua carreira no Manchester City. Substituir Pep Guardiola já seria uma missão complicada por si só, mas o italiano não chega ao Etihad para assumir simplesmente uma equipe campeã que precisa manter o ritmo. Ele encontra um elenco em transformação, com jogadores importantes deixando o clube, outras peças chegando e algumas das principais referências da era anterior começando a perder espaço.

Depois de uma década de Guardiola, o Manchester City precisa descobrir como será sua próxima versão. E esse processo acontece justamente quando a equipe deixou de apresentar a mesma força de alguns anos atrás. O City ainda é um dos grandes clubes da Europa, tem um elenco recheado de jogadores de alto nível e continua com enorme poder financeiro no mercado da bola, mas a distância para o auge da era Guardiola já era perceptível antes mesmo da saída do treinador.

Agora, cabe a Enzo Maresca impedir que essa distância aumente.

Enzo Maresca não terá apenas que substituir Guardiola

A comparação com Guardiola será inevitável. O espanhol deixou o Manchester City como o maior treinador da história do clube, depois de construir uma equipe que dominou a Inglaterra, conquistou a Champions League e estabeleceu um padrão de excelência que parecia quase impossível de acompanhar.

Maresca conhece esse ambiente melhor do que muitos imaginariam. O italiano foi auxiliar de Guardiola na temporada 2022/23, justamente a campanha em que o Manchester City conquistou a tríplice coroa. Por isso, sabe exatamente o tamanho da marca deixada pelo antigo comandante.

O próprio treinador já reconheceu a dimensão do desafio ao classificar Guardiola como provavelmente o melhor técnico dos últimos 20 ou 25 anos. Ao mesmo tempo, Maresca terá de evitar uma armadilha bastante comum: tentar reproduzir exatamente aquilo que seu antecessor fazia.

O Manchester City precisa continuar competitivo, mas também precisa mudar. Essa é a parte mais complicada.

Elenco já não é aquele que dominava a Premier League

A reconstrução não começou com a chegada de Maresca. Na realidade, o Manchester City já vinha tentando renovar seu elenco nos últimos mercados, depois de uma temporada 2024/25 bastante abaixo do padrão estabelecido pelo clube.

A equipe ainda conseguiu competir na parte de cima da Premier League, mas terminou sete pontos atrás do Arsenal. Na temporada anterior, a diferença para o campeão Liverpool havia sido ainda maior. Ou seja, o City já estava mostrando sinais de que a era de domínio absoluto havia ficado para trás.

A saída de nomes importantes reforça essa percepção. John Stones e Bernardo Silva deixaram o clube, enquanto outros jogadores que foram fundamentais durante o ciclo de Guardiola já não possuem o mesmo protagonismo.

Para Maresca, portanto, não existe a possibilidade de simplesmente apertar um botão e colocar o antigo City para funcionar novamente. É preciso construir uma nova equipe. E isso exige tempo, algo que, em um clube acostumado a disputar títulos todos os anos, nunca é tão abundante.

Rodri pode ser o maior problema de Maresca

Se existe uma questão capaz de mudar completamente os planos de Enzo Maresca, ela envolve Rodri.

O espanhol é um dos jogadores mais importantes do elenco e representa justamente o tipo de peça que não pode ser substituída facilmente. Além da qualidade técnica, Rodri oferece controle, inteligência tática e capacidade de organizar o time desde a base da jogada.

O problema é que o futuro do volante no Manchester City está cercado de incertezas. O Barcelona avançou pelo jogador e, segundo informações recentes, trabalha para concluir a transferência, enquanto o City busca alternativas para o setor.

A situação seria ainda mais delicada porque Bernardo Silva já saiu. Se Rodri também deixar o Etihad, Maresca perderá dois jogadores que representavam liderança, experiência e enorme importância no meio-campo.

O Manchester City já se movimentou. Elliot Anderson chegou por £116 milhões, em uma das maiores operações da história do clube, e Ayyoub Bouaddi também aparece como uma alternativa para o setor. Ainda assim, substituir Rodri é outra história.

Dinheiro compra jogadores. Não necessariamente compra um novo Rodri.

Maresca terá de encontrar seu próprio protagonista

A boa notícia para Enzo Maresca é que o Manchester City ainda possui jogadores capazes de decidir partidas.

Erling Haaland continua sendo a principal referência ofensiva. O norueguês marcou 38 gols na última temporada e permanece como uma das maiores armas do elenco. Com um centroavante desse nível, o treinador já começa o trabalho com uma vantagem considerável.

Phil Foden também pode ser fundamental.

O inglês viveu uma temporada muito abaixo das expectativas depois de ter sido eleito Footballer of the Year e marcado 27 gols em 2023/24. Recuperar aquele jogador pode representar uma das maiores vitórias de Maresca no comando do City.

Não seria necessário sequer contratar uma nova estrela para isso. Bastaria fazer Foden voltar a ser Foden. E isso pode mudar completamente o potencial ofensivo da equipe.

Novo City tem muitos jogadores, mas ainda precisa virar um time

Outro desafio importante para Maresca está no equilíbrio do elenco.

O Manchester City investiu pesado na reconstrução e já gastou centenas de milhões de libras nos últimos mercados. Elliot Anderson é o exemplo mais recente de uma política que tenta combinar talento, juventude e capacidade de longo prazo.

Gvardiol e Khusanov também representam essa nova geração, enquanto Rúben Dias continua sendo uma das referências defensivas. No gol, Gianluigi Donnarumma assumiu protagonismo, em mais uma mudança importante em relação ao período anterior.

No ataque e no meio-campo, jogadores como Tijjani Reijnders, Nico González, Omar Marmoush, Savinho e Jérémy Doku aumentam as opções de Maresca.

O problema é justamente esse: opções não significam necessariamente uma equipe pronta.

Alguns desses jogadores passaram longos períodos no banco durante os últimos meses da era Guardiola. Agora, Maresca terá de decidir quem realmente faz parte do seu projeto, quais jogadores terão novas funções e quais podem acabar perdendo espaço.

Essa talvez seja uma das maiores diferenças entre herdar um time vencedor e assumir um elenco em reconstrução.

A sombra do passado vai acompanhar Maresca

O grande adversário de Enzo Maresca não será apenas Arsenal, Liverpool ou qualquer outro concorrente na Premier League. O italiano também terá de enfrentar uma comparação muito mais difícil de vencer: o próprio Manchester City de Guardiola.

Durante anos, o clube estabeleceu uma régua altíssima. Vencer a Premier League deixou de ser suficiente em determinadas temporadas. A equipe precisava dominar, controlar partidas, jogar um futebol vistoso e chegar às fases finais da Champions League.

Nos últimos anos, porém, esse domínio começou a desaparecer. O City continuou capaz de realizar grandes partidas, mas perdeu consistência. Na Champions League, passou a ser eliminado mais cedo e também sofreu derrotas contra adversários que anteriormente pareciam estar vários degraus abaixo.

Ainda assim, não se trata de um time em decadência completa. O Manchester City conquistou duas copas na última temporada, mostrando que ainda possui capacidade para decidir jogos importantes.

O que mudou foi a regularidade. E é justamente aí que Maresca terá de trabalhar.

Enzo Maresca precisa evitar o destino de outros sucessores

A história recente mostra que substituir um treinador lendário pode ser uma armadilha.

David Moyes não conseguiu manter o nível do Manchester United depois de Alex Ferguson. Unai Emery encontrou enormes dificuldades para suceder Arsène Wenger no Arsenal. Em ambos os casos, o problema não era necessariamente a falta de qualidade dos treinadores, mas o tamanho da expectativa criada por seus antecessores.

Maresca terá de encontrar um equilíbrio semelhante.

Ele não precisa ser Guardiola. Na verdade, tentar ser Guardiola provavelmente seria o pior caminho. O italiano precisa construir o seu próprio Manchester City, aproveitando as bases que recebeu e modificando aquilo que já não funciona.

A missão também passa por competir com Mikel Arteta, outro antigo auxiliar de Guardiola que conseguiu transformar o Arsenal em um dos principais candidatos ao título inglês. O detalhe é que agora Maresca estará do outro lado da disputa.

Primeiro grande teste de uma nova era

O Manchester City ainda possui recursos para continuar reforçando o elenco e não deve ser descartado da briga pelo topo da Premier League. A questão é saber quanto tempo Enzo Maresca precisará para transformar esse conjunto de bons jogadores em uma equipe novamente dominante.

A contratação de Anderson, a busca por mais opções para o meio-campo e a renovação de peças como Foden, Gvardiol e Khusanov mostram que existe um projeto de reconstrução.

Mas a saída de Rodri pode alterar completamente esse planejamento, enquanto as despedidas de Bernardo Silva e John Stones reforçam a sensação de que o Manchester City está definitivamente encerrando um ciclo.

Maresca, portanto, não recebeu apenas a missão de ganhar títulos. Ele precisa definir qual será a identidade do clube depois de Guardiola. E talvez essa seja a parte mais interessante dessa história.

O italiano conhece o Manchester City de dentro, participou de uma das maiores temporadas da história do clube e sabe exatamente o que significa trabalhar sob a filosofia de Guardiola. Agora, porém, terá de provar que consegue fazer algo ainda mais difícil: construir uma equipe capaz de vencer sem depender da sombra do homem que transformou o City em potência mundial.

O passado deixou uma marca gigantesca no Etihad. O trabalho de Enzo Maresca será mostrar que o futuro também pode ser grande.

Foto: Reprodução