Futebol Seleção Brasileira

O que a escolha de Éder Militão como lateral direito revela sobre o 4-2-4 de Ancelotti na seleção brasileira

A escolha de Carlo Ancelotti por utilizar Éder Militão como lateral direito no amistoso da seleção brasileira contra Senegal não é um simples ajuste pontual, mas um indicativo claro de como o treinador pretende estruturar a equipe sob o controverso e ambicioso sistema 4-2-4.

Trata-se de uma formação que privilegia intensidade, verticalidade e agressividade ofensiva, mas que cobra um preço alto em termos de equilíbrio defensivo. E é justamente nesse ponto que Militão se torna uma peça-chave, capaz de corrigir problemas mostrados contra o Japão e de oferecer a estabilidade necessária para que o 4-2-4 seja viável no mais alto nível do futebol internacional.

Os problemas defensivos e a escolha por Militão

A partida contra o Japão expôs fragilidades profundas da seleção brasileira. Os laterais subiam simultaneamente, deixando os zagueiros vulneráveis em transições. Os dois volantes ficavam constantemente em inferioridade numérica, e a recomposição dos quatro atacantes era lenta e desordenada.

O jogo pelos lados era facilmente explorado pelos adversários, e o Brasil sofreu para proteger sua área, sobretudo quando a equipe perdia a bola com muitos jogadores à frente. Esse tipo de problema não é incomum em formações ultrassofisticadas e ofensivas, mas, no caso da seleção, ficou claro que faltava uma peça com perfil mais defensivo em um dos flancos, alguém capaz de equilibrar o sistema sem comprometer a saída de bola.

Militão, portanto, não entra no time apenas como lateral; ele entra como o símbolo de uma ideia. Ao contrário de jogadores como Vanderson ou Yan Couto, que agregam apoio ofensivo, ultrapassagens e construção por dentro, o defensor do Real Madrid oferece um conjunto de características que fortalecem a retaguarda: excelente leitura de jogo, bom tempo de bola, imposição física, capacidade de vencer duelos aéreos e agilidade suficiente para lidar com pontas rápidos.

Na prática, ele transforma a linha defensiva em um sistema híbrido, que pode alternar entre um 4-2-4 e um 3-2-5 dependendo da fase do jogo.

Quando o Brasil tem a posse, Militão tende a permanecer mais recuado, formando uma linha de três com Marquinhos e Gabriel Magalhães. Isso permite que o lateral esquerdo tenha mais liberdade para avançar, criando assimetrias e gerando superioridade numérica pelo flanco oposto.

Nesse momento, os quatro atacantes, Rodrygo, Vinícius Júnior, Estêvão e Matheus Cunha, podem se organizar de forma mais livre e criativa. Sem a obrigação de recompor tão profundamente, eles conseguem formar triangulações, atacar espaços entre linhas e explorar o ponto mais forte desse sistema: a dinâmica ofensiva intensa e difícil de marcar.

Rodrygo, por exemplo, beneficia-se de não precisar recuar até o campo defensivo. Com Militão segurando a direita, ele pode se movimentar mais para o centro, onde sua inteligência tática se sobressai, permitindo trocas rápidas com Vini Jr. e criando confusão na marcação adversária.

Estêvão, jovem e talentoso, ganha liberdade para partir da ponta direita para dentro, buscando combinações e finalizações sem se preocupar tanto com a cobertura defensiva. Vinícius Júnior, por sua vez, pode ficar mais avançado, pronto para explorar transições e desafiar defensores no um contra um — sem se desgastar voltando constantemente para marcar laterais adversários.

Matheus Cunha também é beneficiado. Jogando como falso nove, pode se movimentar entre as linhas, recuar para criar jogadas e abrir espaço para infiltrações dos pontas. Isso torna o ataque do Brasil mais fluido, criativo e imprevisível, algo que Ancelotti valoriza profundamente.

O meio de campo e a liberdade para Bruno Guimarães

No meio-campo, a presença de Militão também tem impacto direto na atuação de Bruno Guimarães. Contra o Japão, o volante foi sobrecarregado: precisava proteger os lados, iniciar a construção e ainda chegar ao ataque. Com um lateral defensivo, Bruno pode atuar com mais autoridade, distribuindo o jogo, aparecendo na área em alguns momentos e ajudando a equipe a manter o controle da posse. Ele deixa de ser um “bombeiro” que apaga incêndios constantes e passa a ser um organizador mais participativo.

Além disso, a escolha por Militão fortalece a transição defensiva, ponto crucial do futebol moderno. Senegal é uma seleção forte fisicamente, rápida e perigosa nos contra-ataques exatamente o tipo de adversário que pode punir uma equipe desbalanceada. Militão, com sua experiência como zagueiro, oferece segurança em disputas individuais e dificulta que o Brasil volte a sofrer com os mesmos problemas da partida anterior.

Este amistoso, portanto, funciona como um laboratório tático. Não se trata apenas de testar Militão na lateral; trata-se de entender se o 4-2-4 pode ser uma identidade viável para o Brasil em competições oficiais. O sistema exige coragem, disciplina e sincronia, e agora, com um lateral mais defensivo, talvez finalmente o equilíbrio esteja começando a aparecer.

Se a experiência funcionar, Ancelotti pode ter encontrado a fórmula para unir o talento explosivo do ataque brasileiro a uma estrutura defensiva sólida. Militão pode ser a peça que faltava para transformar um esquema arriscado em uma engrenagem funcional.

E se isso acontecer, a seleção brasileira pode, enfim, alcançar um estilo de jogo moderno, agressivo e eficiente, algo que há anos se busca, mas raramente se encontra com consistência.

O 4-2-4 está nos primórdios do futebol brasileiro, mas também pode estar no futuro.

(Foto: Lucas Figueiredo/CBF)