Futebol Copa do Mundo

Espanha mostra sua força e expõe problemas da França; confira as impressões do jogo

A Espanha voltou a mostrar por que é uma das seleções mais consistentes desta Copa do Mundo. Na vitória por 2 a 0 sobre a França, que garantiu a classificação para a final, a equipe de Luis de la Fuente controlou o jogo do início ao fim, neutralizou o ataque francês e confirmou uma campanha marcada pela força coletiva e pela capacidade de adaptação.

Mais do que o resultado, a atuação em Dallas deixou algumas conclusões importantes sobre o momento das duas seleções. Do domínio espanhol no meio de campo à dificuldade da França em funcionar sem suas estrelas, a semifinal reforçou tendências que ajudam a explicar por que a Espanha chega como favorita à decisão.

Espanha domina a França com a força do meio-campo

A classificação da Espanha começou a ser construída muito mais pelo trabalho sem a bola do que propriamente pelas chances criadas no ataque. A Fúria controlou o jogo porque conseguiu vencer a disputa mais importante da partida: a do meio-campo.

Nos primeiros minutos, porém, isso não parecia tão simples. Respeitando o enorme poder ofensivo francês, Luis de la Fuente posicionou sua equipe com linhas um pouco mais baixas. A ideia era não oferecer espaço nas costas da defesa para Mbappé, Dembélé e Olise, trio que vinha decidindo praticamente todos os jogos da França.

A estratégia, no entanto, abriu uma pequena brecha. A França passou a adiantar seus meias, atraindo a marcação espanhola e liberando Adrien Rabiot para receber a bola com mais liberdade na primeira fase de construção. Dessa forma, os Bleus conseguiam escapar da pressão inicial e encontrar alguns corredores para iniciar suas transições.

O cenário mudou ainda durante o primeiro tempo. Rodri passou a subir com muito mais frequência para pressionar justamente o meia que recuava para participar da saída de bola. Com isso, Rabiot deixou de receber livre, enquanto os zagueiros espanhóis encurtaram o campo e os demais meio-campistas compactaram ainda mais o bloco.

A Espanha passou a jogar muito mais próxima entre seus setores. O espaço entre defesa, meio e ataque praticamente desapareceu, dificultando qualquer construção francesa. Sem conseguir progredir pelo centro e sem espaço para acelerar pelos lados, a França perdeu sua principal forma de atacar.

Foi uma demonstração de organização coletiva. Mais do que controlar a posse, a Espanha controlou os espaços e transformou o meio-campo na grande plataforma para chegar à decisão da Copa do Mundo.

França mostra fraqueza coletiva quando seus craques são neutralizados

Durante boa parte da competição, a França encontrou soluções individuais para superar qualquer dificuldade. Mesmo em partidas equilibradas, bastava uma aceleração de Mbappé, um drible de Dembélé ou uma jogada de Olise para desequilibrar o confronto.

Contra a Espanha, isso não aconteceu. Sem conseguir conectar seus principais jogadores de ataque, os Bleus mostraram pouca capacidade coletiva para encontrar alternativas. A circulação de bola ficou lenta, a construção perdeu qualidade e praticamente não houve mecanismos para desmontar a marcação espanhola.

Quando os atacantes não conseguiam receber em boas condições, a equipe parecia sem um plano B. Os laterais pouco apoiaram, os meias não encontraram infiltrações e as trocas de posição não foram suficientes para gerar superioridade numérica entre as linhas espanholas.

A dependência das individualidades ficou evidente justamente na partida em que elas foram anuladas. Isso não diminui a qualidade técnica da França, mas reforça uma característica vista em alguns momentos da competição: quando seus principais talentos são afastados do jogo, o coletivo ainda apresenta dificuldades para assumir o protagonismo.

Contra uma equipe organizada como a Espanha, isso custou caro.

A Espanha encontrou a melhor maneira de parar Mbappé, Dembélé e Olise

Muito se fala sobre marcação individual, coberturas e dobradinhas pelos lados para enfrentar atacantes como Mbappé, Dembélé e Olise. A Espanha apresentou outra solução: impedir que eles participassem do jogo.

O plano espanhol foi simples na teoria e extremamente complexo na execução. Em vez de concentrar esforços apenas quando a bola chegava aos pontas franceses, a equipe trabalhou para que esse passe praticamente nunca acontecesse.

Os números ajudam a explicar esse domínio. Mbappé participou com apenas 36 ações com a bola, depois de registrar 45 contra Marrocos e 55 diante da Suécia. Michael Olise teve 55 ações, bem abaixo das 88 contra o Paraguai e das 77 frente ao Marrocos. Já Ousmane Dembélé terminou o jogo com 47 ações, enquanto havia participado de 67 contra o Paraguai.

A queda de participação dos três principais jogadores ofensivos franceses não aconteceu por acaso. Ela foi consequência direta da compactação espanhola, da pressão coordenada no meio-campo e da excelente proteção oferecida por Rodri, Fabián Ruiz e pelos zagueiros. Sem linhas de passe, a França passou boa parte da partida trocando bolas entre os defensores ou recorrendo a lançamentos pouco produtivos.

Foi uma estratégia que atacou a origem do problema. Em vez de tentar vencer Mbappé, Dembélé e Olise em situações de um contra um, a Espanha trabalhou para que eles sequer recebessem a bola em condições de acelerar. E funcionou praticamente durante os 90 minutos.

A identidade da Espanha continua sendo sua força, mas as adaptações explicam a campanha

A Espanha segue fiel à identidade construída nos últimos anos. O controle da posse, a circulação de bola e o domínio territorial continuam presentes. A diferença é que esta seleção não depende exclusivamente dessas características.

Ao longo da Copa, Luis de la Fuente mostrou capacidade para ajustar a equipe conforme os adversários e os momentos da competição.

Pedro Porro e Fabián Ruiz são exemplos claros dessa evolução. Ambos ganharam espaço durante o torneio e responderam com atuações consistentes. Contra a França, além de manterem intensidade sem a bola, ainda participaram diretamente das ações ofensivas, com Porro marcando um gol e Fabián sendo novamente importante na circulação pelo meio.

Mas talvez a principal transformação esteja na fase defensiva. A Espanha deixou de ser apenas um time que controla o jogo com a posse para se tornar uma equipe que também controla o jogo sem a bola. A recomposição rápida, a pressão coordenada no meio-campo e a compactação entre os setores passaram a ser marcas tão importantes quanto o tradicional jogo de passes.

Foi justamente essa combinação que permitiu neutralizar um dos ataques mais talentosos da Copa. A Fúria continua reconhecível pelo estilo de jogo, mas agora demonstra uma capacidade muito maior de adaptação. Em um torneio eliminatório, no qual cada adversário exige respostas diferentes, essa versatilidade pode ser tão importante quanto a identidade construída ao longo dos últimos anos.

(Foto: Getty Images)