A Espanha voltou a uma semifinal de Copa do Mundo depois de 16 anos, mas a classificação sobre a Bélgica mostrou muito mais do que apenas a força técnica da equipe de Luis de la Fuente. Em uma partida equilibrada, na qual precisou superar um adversário competitivo e lidar com momentos de dificuldade, a Fúria confirmou características que vêm sendo construídas ao longo de todo o torneio.
Mais do que a posse de bola ou o talento individual de Lamine Yamal, a seleção espanhola demonstra maturidade para administrar diferentes contextos de jogo, encontra soluções através da profundidade do elenco e chega ao duelo contra a França transmitindo a sensação de que possui exatamente o perfil necessário para desafiar a seleção mais dominante desta Copa.
A maturidade virou a maior qualidade da Espanha
Quando se fala na Espanha, é natural que a primeira imagem seja a de uma equipe que controla a posse de bola e domina seus adversários através da circulação constante. Isso continua existindo. A diferença é que, nesta Copa do Mundo, essa talvez nem seja sua principal virtude.
O que mais chama atenção é a maturidade competitiva construída por Luis de la Fuente. A Espanha não entra em desespero quando sofre um gol, não perde sua identidade quando encontra dificuldades e raramente acelera o jogo sem necessidade. Tudo parece obedecer a um plano muito claro.
Contra a Bélgica, isso voltou a aparecer. A equipe abriu o placar, sofreu o empate pouco antes do intervalo e viu um adversário crescer na partida. Em outras gerações recentes, especialmente após a eliminação para Marrocos em 2022, esse poderia ser um momento de instabilidade emocional. Desta vez, não aconteceu.
A Espanha continuou jogando exatamente da mesma maneira. Não abandonou o controle da posse, não passou a insistir em bolas longas e tampouco perdeu organização defensiva. Apenas seguiu esperando o momento certo para voltar a acelerar.
Essa capacidade de manter o plano de jogo independentemente do placar talvez seja hoje o maior diferencial espanhol. É um time que sabe sofrer sem deixar de competir. Quando precisa controlar, controla. Quando precisa pressionar, aumenta a intensidade. Quando precisa defender uma vantagem, consegue fazer isso com a bola nos pés. Em torneios de mata-mata, essa maturidade costuma separar equipes competitivas das verdadeiras candidatas ao título.
Bélgica esbarra em lesões, mas tem despedida digna de uma geração histórica
A eliminação encerra mais um ciclo importante para a Bélgica, mas seria injusto resumir sua campanha apenas ao resultado. Diante da Espanha, a seleção belga apresentou uma atuação bastante competitiva. Mesmo tendo menos posse de bola durante praticamente toda a partida, conseguiu neutralizar boa parte das construções espanholas, encontrou o empate ainda no primeiro tempo e criou dificuldades reais para um dos favoritos ao título.
Boa parte desse desempenho passou novamente por Thibaut Courtois. Enquanto esteve em campo, o goleiro sustentou a Bélgica no jogo com defesas importantes e transmitiu segurança a um sistema defensivo constantemente pressionado. Sua lesão, já na segunda etapa, mudou completamente o cenário da partida.
Senne Lammens entrou em um momento extremamente delicado e acabou dando o rebote que originou o gol decisivo de Merino. É um lance que dificilmente apaga uma boa atuação coletiva, mas simboliza como os detalhes costumam definir confrontos eliminatórios.
Além disso, a Bélgica também sofreu durante toda a competição com limitações físicas em jogadores importantes e precisou adaptar sua estrutura diversas vezes. Ainda assim, conseguiu competir contra uma seleção extremamente organizada e saiu da Copa oferecendo muito mais resistência do que muitos imaginavam.
Talvez não seja o encerramento sonhado para uma geração extremamente talentosa, mas certamente foi uma despedida digna.
O melhor meio-campo da Copa continua fazendo a diferença
Se há um setor em que a Espanha parece estar acima dos demais concorrentes, ele continua sendo o meio-campo. Luis de la Fuente montou um elenco que consegue manter o mesmo nível independentemente das mudanças realizadas durante a partida. Contra a Bélgica, isso ficou evidente mais uma vez.
Pedri não vive uma grande Copa. Encontrou dificuldades para acelerar o ritmo do jogo e participou menos da criação do que costuma acontecer. Em vez de insistir na permanência do meia, De la Fuente fez a leitura correta e buscou alternativas no banco. Fabián Ruiz, além do gol marcado, assumiu protagonismo na construção ofensiva. Participou da circulação de bola, apareceu entre linhas e foi responsável por dar maior dinâmica ao setor central durante boa parte da partida.
A profundidade do elenco também apareceu novamente através de Mikel Merino. Pela segunda partida consecutiva, o meia saiu do banco para decidir uma classificação. Contra Portugal, já havia marcado o gol da vitória. Agora, repetiu o roteiro diante da Bélgica ao aproveitar o rebote de Lammens e colocar a Espanha na semifinal.
Não é coincidência. Merino oferece características diferentes das de Pedri e Dani Olmo. Tem chegada constante à área, excelente leitura dos espaços e costuma aparecer exatamente quando a defesa adversária começa a perder intensidade.
Esse tipo de opção amplia muito o repertório espanhol. Enquanto outras seleções dependem de uma ou duas peças criativas, a Espanha consegue mudar o desenho do meio-campo sem perder qualidade técnica nem organização coletiva. Poucas equipes nesta Copa contam com tantas soluções em um setor tão importante.
A Espanha talvez seja o adversário que a França menos gostaria de enfrentar
A semifinal coloca frente a frente duas seleções que chegam em excelente momento, mas também apresenta um confronto de estilos extremamente interessante. A França talvez tenha sido o time mais devastador desta Copa quando encontra espaço para atacar. Mbappé, Dembélé e companhia transformam qualquer recuperação de bola em uma transição perigosa. É justamente aí que entra a principal força espanhola. Poucas equipes controlam tanto a posse quanto a Espanha.
Controlar a posse, contra a França, significa muito mais do que simplesmente atacar. Significa impedir que os franceses encontrem o cenário onde mais machucam seus adversários. A circulação constante da bola reduz o número de transições, obriga a França a defender por períodos maiores e diminui a quantidade de metros disponíveis para Mbappé acelerar.
Além disso, a Espanha também realiza uma pressão pós-perda extremamente eficiente. Sempre que perde a bola, tenta recuperá-la imediatamente, evitando justamente que o adversário encontre campo aberto para contra-atacar. Esse mecanismo pode ser decisivo na semifinal.
Obviamente, isso não significa favoritismo espanhol. A França continua sendo talvez o elenco mais talentoso da competição e possui jogadores capazes de decidir mesmo quando o jogo foge do roteiro. Mas, entre todos os semifinalistas, poucos parecem oferecer tantos problemas táticos aos franceses quanto a Espanha.
A equipe de Luis de la Fuente reúne exatamente as características que costumam dificultar a vida de seleções que dependem da velocidade para construir suas vitórias. Mais do que um duelo entre duas potências, a semifinal promete ser um choque entre dois modelos de jogo muito bem definidos. E, pelo que a Espanha mostrou até aqui, ela chega preparada para disputar esse confronto em igualdade de condições.
(Foto: Paul Ellis/AFP)