A lesão de Estêvão, sofrida no confronto contra o Manchester United, muda o planejamento da seleção brasileira a pouco mais de dois meses da Copa do Mundo. Não se trata apenas de perder um jogador talentoso, mas de abrir uma lacuna em um setor que vinha sendo pensado justamente para dar imprevisibilidade e profundidade ao ataque no modelo de jogo de Carlo Ancelotti.
O desenho mais associado ao treinador italiano para este ciclo é o 4-2-4, uma estrutura ofensiva, baseada em amplitude, duelos individuais e presença constante na última linha adversária. Nesse sistema, os pontas são peças importantes, responsáveis não só por abrir o campo, mas também por quebrar linhas e gerar superioridade numérica no ataque. Estêvão, com sua capacidade de drible curto, aceleração e criatividade, encaixava quase de forma natural nesse papel.
Sem ele, o Brasil precisa se reorganizar, e isso não significa necessariamente perder qualidade, mas redistribuir características.
Quem pode substituir Estêvão?
Uma das soluções mais imediatas passa por Luiz Henrique. O atacante reúne atributos que fazem sentido dentro da ideia de Ancelotti: é forte no um contra um, tem potência física e consegue atacar a profundidade com consistência. Diferentemente de Estêvão, que tende a conduzir mais por dentro em certos momentos, Luiz Henrique oferece um jogo mais vertical e direto. Isso pode até mudar levemente a dinâmica do lado do campo, tornando o Brasil mais objetivo e menos cadenciado.
A escolha por Luiz Henrique como titular também tem um componente importante para o equilíbrio. Em um 4-2-4, onde muitas vezes os laterais sobem e os dois meio-campistas precisam proteger grandes espaços, contar com um ponta fisicamente mais robusto pode ajudar na recomposição defensiva. Não é apenas sobre atacar bem, mas sobre sustentar o sistema.
Nesse contexto, Rayan surge como uma peça importante, ainda que inicialmente fora do time titular. Vivendo bom momento no Bournemouth e tendo aproveitado bem sua oportunidade na última Data FIFA, ele oferece algo diferente: mais explosão em transições e capacidade de entrar no jogo em cenários já desgastados.
Como opção de banco, Rayan pode ser até mais perigoso. Sua velocidade e agressividade podem desequilibrar partidas quando os adversários já estão menos organizados fisicamente. Em torneios curtos, esse tipo de impacto vindo do banco costuma ser decisivo.
Ainda assim, a ausência de Estêvão também abre espaço para uma discussão mais estrutural: até que ponto vale insistir no 4-2-4 em todos os contextos?
Sem Estêvão, plano de Ancelotti pode mudar
É aí que entra uma alternativa interessante: a variação para o 4-3-3. Esse sistema não apenas compensa a perda individual, como pode oferecer mais controle de jogo, especialmente contra adversários de maior nível. Nesse cenário, Raphinha poderia ser deslocado para o lado direito do ataque, sua posição de origem e onde rende com mais naturalidade.
A mudança mais significativa, porém, estaria no meio-campo. A entrada de Danilo ao lado de Casemiro e Bruno Guimarães criaria um trio com características complementares. Casemiro seguiria como o pilar defensivo, responsável pela proteção da zaga e pela recuperação de bolas. Bruno Guimarães atuaria como o organizador, conectando defesa e ataque com qualidade no passe e leitura de jogo. Já Danilo entraria como um meio-termo: um jogador de mobilidade, que pisa na área, mas também recompõe e equilibra os espaços.
Esse ajuste daria ao Brasil mais controle territorial e reduziria a exposição defensiva, algo que pode ser crucial em jogos mais equilibrados. Ao mesmo tempo, não comprometeria a capacidade ofensiva, já que os pontas continuariam sendo peças de desequilíbrio.
Um imprevisto que pode abrir portas
No fundo, o que a lesão de Estêvão escancara é a importância da adaptabilidade. Grandes seleções não são aquelas que dependem de um único desenho ou de um único jogador, mas aquelas que conseguem se reinventar rapidamente diante de imprevistos.
Ancelotti, ao longo da carreira, sempre se destacou justamente por isso. Mais do que um treinador preso a um sistema, ele é um gestor de talentos, alguém que molda a estrutura a partir das características disponíveis. Sem Estêvão, o Brasil perde brilho individual, mas ganha a oportunidade de testar novas soluções, seja apostando na força de Luiz Henrique, no impacto de Rayan ou em uma reorganização tática com Raphinha e um meio-campo mais povoado.
A Copa do Mundo raramente segue o roteiro ideal. Lesões, suspensões e quedas de rendimento fazem parte do caminho. O que define o sucesso, muitas vezes, é a capacidade de resposta. E, nesse aspecto, o Brasil ainda tem peças suficientes para transformar um problema sério em uma nova possibilidade.
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