A relação entre UEFA e FIFA atingiu um dos momentos mais delicados dos últimos anos. Nesta quinta-feira (30), as 55 federações filiadas à entidade europeia decidiram boicotar todas as competições organizadas pela FIFA enquanto permanecer de pé o projeto de Gianni Infantino que prevê a venda de parte dos ativos comerciais da entidade para investidores privados.
A decisão foi tomada durante uma reunião de emergência convocada pela UEFA após a revelação do plano apresentado pelo presidente da FIFA aos 211 membros da entidade.
Em nota oficial, a organização foi categórica ao justificar a posição.
“A Copa do Mundo pertence ao futebol. Sempre pertenceu e sempre pertencerá. Enquanto a Europa tiver voz, ela nunca estará à venda.”
Caso o impasse permaneça, o primeiro torneio afetado será a Copa do Mundo Feminina Sub-20, marcada para começar em setembro, na Polônia.
Plano de Infantino desencadeia crise política

O estopim da crise foi a proposta de criação da FIFA Forward Enterprise (FFE), uma subsidiária avaliada em 20 bilhões de dólares que administraria os ativos comerciais da FIFA. Pelo projeto, 20% da empresa seriam vendidos a fundos de investimento privados.
Em contrapartida, cada uma das 211 federações nacionais receberia um aumento significativo no financiamento da entidade. A proposta prevê dobrar o repasse básico de 10 para 20 milhões de dólares no próximo ciclo, além de elevar os recursos distribuídos até 2038 para cerca de 86 milhões de dólares por associação.
Para convencer os membros, Infantino classificou o projeto como uma oportunidade de fortalecer o desenvolvimento do futebol mundial.
A UEFA, porém, enxerga a iniciativa de forma completamente diferente. Segundo a entidade, permitir a entrada de investidores externos mudaria a essência da governança do futebol.
“No momento em que investidores privados passam a ter participação nas competições da FIFA, o retorno financeiro deixa de ser consequência e passa a ser obrigação. As expectativas do mercado se transformam em pressão permanente.”
Boicote pode afetar Copa do Mundo e outras competições
Após a reunião, a UEFA confirmou que nenhuma de suas seleções disputará torneios da FIFA enquanto a proposta permanecer ativa.
A única possibilidade de mudança de posição passa pela retirada definitiva do projeto e pela criação de garantias jurídicas de que a entidade máxima do futebol não voltará a abrir suas competições para participação privada.
A medida teria impacto direto não apenas sobre a Copa do Mundo masculina, mas também sobre os Mundiais femininos, torneios de base e a Copa do Mundo de Clubes.
Apoio de Infantino começa a diminuir

A pressão sobre Gianni Infantino não parte apenas da Europa. Pela primeira vez desde sua eleição em 2016, um importante aliado asiático também demonstrou preocupação com os rumos da proposta.
O presidente da Confederação Asiática de Futebol (AFC), Sheikh Salman bin Ibrahim Al Khalifa, enviou uma carta às federações filiadas alertando que a iniciativa pode comprometer a sustentabilidade das competições continentais.
Segundo ele, o projeto dificilmente avançará sem o apoio das confederações.
“As ações unilaterais da FIFA parecem enfraquecer os próprios alicerces do futebol continental”, afirmou.
A preocupação gira principalmente em torno da possibilidade de expansão das competições organizadas pela FIFA, com mais seleções, mais clubes, torneios mais frequentes e um calendário ainda mais congestionado.
Presidência de Infantino passa a ser questionada

A crise também coloca em xeque o futuro político de Gianni Infantino. Até poucas semanas atrás, o dirigente caminhava para uma tranquila reeleição ao comando da FIFA em março de 2027.
Agora, o cenário mudou. Nos bastidores, cresce a insatisfação de dirigentes de diferentes confederações, enquanto grupos ligados aos torcedores já iniciaram campanhas públicas contra o presidente da entidade.
O movimento da UEFA também resgata um episódio semelhante ocorrido em 2021, quando a ameaça de boicote europeu foi determinante para impedir que a FIFA levasse adiante o projeto de realizar a Copa do Mundo a cada dois anos.
Quatro anos depois, Europa e FIFA voltam a medir forças. Desta vez, em uma disputa que envolve não apenas o calendário do futebol, mas também o controle econômico do principal torneio do planeta.
Créditos da foto de capa: Divulgação/FIFA.



