Futebol Premier League

Fabian Hürzeler: sensação da Premier League, como treinador conseguiu se reinventar no Brighton?

Em fevereiro, Fabian Hürzeler parecia estar perto de perder o emprego no Brighton. Depois de uma derrota por 1 a 0 para o Crystal Palace, rival histórico do clube, o treinador alemão foi vaiado pelos próprios torcedores e ouviu cânticos pedindo sua demissão. O Brighton ocupava apenas a 14ª posição da Premier League e havia vencido somente uma das últimas 12 partidas. O projeto que começara cercado de expectativas parecia ter perdido o rumo.

Oito meses depois, a situação mudou radicalmente. O Brighton voltou a ocupar as primeiras posições do campeonato inglês, conquistou vitórias expressivas contra Arsenal e Aston Villa e passou a alimentar ambições de classificação para a Champions League. Hürzeler, que chegou à Inglaterra em 2024 como o técnico mais jovem da história da Premier League, deixou de ser visto como uma aposta inexperiente e começou a despertar o interesse de clubes ainda maiores.

A transformação não aconteceu simplesmente porque os resultados melhoraram. O treinador precisou rever escolhas, recuperar a confiança do elenco e demonstrar uma qualidade fundamental para quem trabalha sob pressão: reconhecer quando suas próprias ideias não estão funcionando. Em vez de insistir em um modelo que havia perdido eficiência, Hürzeler voltou ao básico, apoiou-se em jogadores experientes e reconstruiu a equipe a partir de uma identidade mais agressiva.

Sua trajetória também ajuda a entender por que o Brighton decidiu mantê-lo durante a crise. Antes de chegar à Premier League, o alemão passou por divisões inferiores do futebol germânico, trabalhou em uma galeria de arte e conduziu o St. Pauli de volta à Bundesliga depois de 13 anos. Agora, depois de sobreviver ao momento mais delicado de sua passagem pela Inglaterra, começa a ser tratado como um dos treinadores mais promissores do continente.

A crise que quase encerrou o projeto

A derrota para o Crystal Palace, em fevereiro, foi o ponto mais visível de uma fase que vinha se deteriorando havia semanas. O Brighton não conseguia transformar sua qualidade técnica em resultados e acumulava partidas nas quais parecia incapaz de encontrar soluções diante das dificuldades dos adversários.

A posição na tabela refletia esse problema. Em 14º lugar, com apenas uma vitória nas últimas 12 rodadas, a equipe estava longe das expectativas criadas no início da temporada. A derrota no clássico aumentou a frustração porque aconteceu diante de um rival que, para os torcedores, representa muito mais do que um adversário comum.

Hürzeler não tentou esconder a gravidade da situação. Depois da partida, reconheceu que existiam apenas duas alternativas: desistir ou continuar trabalhando com ainda mais intensidade. Disse que sempre escolheria a segunda opção, uma declaração que, naquele momento, poderia soar como uma tentativa de ganhar tempo. Os meses seguintes, porém, deram outro significado àquelas palavras.

A crise também colocou em evidência um dos riscos de contratar treinadores jovens para projetos ambiciosos. Hürzeler chegou ao Brighton com uma reputação construída na Alemanha e a promessa de implementar um futebol intenso, baseado em pressão e movimentação. Mas a capacidade de aplicar uma filosofia em um contexto novo não garante que ela funcione imediatamente.

A Premier League exige adaptações constantes. Os adversários possuem recursos técnicos e físicos capazes de explorar pequenas falhas, enquanto a sequência de partidas reduz o tempo disponível para corrigir problemas. Quando os resultados deixam de aparecer, até mesmo uma proposta de jogo bem definida pode se transformar em uma limitação se o treinador não conseguir ajustá-la.

Foi nesse ponto que Hürzeler precisou tomar uma decisão importante: insistir no plano original ou aceitar que a equipe precisava mudar.

A mudança de postura devolveu o Brighton à disputa

A recuperação do Brighton começou quando Hürzeler deixou de tratar seu modelo de jogo como uma estrutura imutável. Em vez de insistir em todas as ideias que haviam orientado o trabalho desde sua chegada, o alemão voltou a utilizar uma base mais pragmática, recorrendo à experiência de jogadores que poderiam ajudar o time a recuperar estabilidade.

A mudança não significou abandonar a identidade que pretendia construir. Significou reconhecer que uma equipe precisa primeiro voltar a competir antes de conseguir executar plenamente suas ideias. O treinador também passou a exigir uma pressão mais intensa e coordenada. O Brighton voltou a perseguir os adversários com agressividade, buscando recuperar a bola em zonas avançadas e reduzir o tempo disponível para a construção rival. Esse comportamento tornou o time mais próximo daquilo que Hürzeler desejava desde o início, mas agora sustentado por uma estrutura coletiva mais equilibrada.

Os resultados começaram a aparecer. Vitórias importantes contra o Arsenal, então campeão inglês, e o Aston Villa demonstraram que o Brighton conseguia competir com equipes de alto nível. O triunfo sobre o Sunderland também fortaleceu a percepção de que a recuperação não dependia apenas de uma atuação isolada.

A sequência recolocou o clube na parte de cima da tabela e transformou a discussão sobre o futuro do treinador. Em fevereiro, os torcedores questionavam sua capacidade de conduzir o projeto. Agora, parte deles teme que o sucesso recente atraia o interesse de clubes com maior poder financeiro.

Essa mudança de percepção mostra como o futebol pode alterar rapidamente a reputação de um treinador. A mesma pessoa que parecia estar sem respostas passou a ser elogiada por sua capacidade de reorganizar a equipe. A diferença não está apenas nos resultados, mas na demonstração de que Hürzeler conseguiu aprender com a crise.

Da quinta divisão alemã à elite da Premier League

A trajetória de Hürzeler ajuda a explicar sua relação com o trabalho e com a necessidade de adaptação. Nascido em Houston, nos Estados Unidos, e criado na Alemanha desde os dois anos, ele teve uma carreira como jogador que não alcançou o nível esperado. Depois de passagens pelas categorias de base e por equipes como Bayern de Munique, Hoffenheim e 1860 Munique, uma sequência de lesões contribuiu para que abandonasse o futebol profissional aos 23 anos.

Em 2016, aceitou uma função de jogador e treinador no Pipinsried, clube que disputava a quinta divisão alemã. Para complementar a renda, trabalhou em uma galeria de arte, vendendo pinturas a clientes ricos da Baviera. O emprego, no entanto, não durou muito. Hürzeler acabou demitido porque dedicava tempo demais a assistir a partidas de futebol.

A história revela uma característica que se tornou central em sua carreira: a obsessão por entender o jogo. Hürzeler não tratava o futebol apenas como uma atividade prática. Queria estudar comportamentos, observar movimentos e compreender como as decisões individuais se relacionavam com o funcionamento coletivo.

Essa curiosidade também apareceu quando passou a trabalhar em níveis mais altos. Durante sua passagem pelo St. Pauli, visitou o centro de treinamento do Tottenham para observar o trabalho de Ange Postecoglou. Fez tantas perguntas que o treinador australiano precisou pedir a outro integrante da comissão técnica que assumisse a conversa.

O interesse por diferentes métodos não significava falta de convicção. Pelo contrário, Hürzeler parecia acreditar que um treinador precisa continuar aprendendo para desenvolver suas próprias ideias. Essa postura ajudou a construir sua reputação na Alemanha e ganhou importância quando assumiu o St. Pauli.

Em 2024, conduziu o clube de Hamburgo de volta à Bundesliga depois de 13 anos de ausência. O sucesso chamou a atenção do Brighton, que procurava um substituto para Roberto De Zerbi. A contratação colocou Hürzeler diante de um desafio muito maior: provar que sua capacidade de desenvolver equipes também funcionaria em uma das ligas mais exigentes do mundo.

O treinador aprendeu a entender as pessoas antes de exigir resultados

Uma das características mais interessantes de Hürzeler está na maneira como enxerga a relação entre treinador e jogador. Em uma entrevista ao jornal britânico The Guardian, em 2024, ele comparou o trabalho de um técnico ao de um vendedor de arte.

Para convencer alguém a comprar uma pintura, explicou que não basta afirmar que ela é extraordinária. É necessário compreender as necessidades, os desejos e os valores do cliente. Na visão de Hürzeler, o mesmo princípio se aplica ao futebol: o treinador precisa entender a pessoa por trás do atleta, sua educação, sua história e aquilo que o motiva.

Essa abordagem ajuda a explicar por que ele conseguiu atravessar a crise no Brighton sem perder completamente a confiança do elenco. A mudança de estratégia não foi apenas uma correção tática. Também exigiu que o treinador compreendesse quais jogadores poderiam ajudar a recuperar o equilíbrio e quais comportamentos precisavam ser ajustados.

É uma qualidade importante para um técnico jovem, especialmente em um clube que desenvolve atletas e precisa combinar competitividade imediata com valorização de jogadores. O Brighton não possui os mesmos recursos dos gigantes ingleses, portanto depende de encontrar soluções coletivas e maximizar o rendimento de seu elenco.

Hürzeler também parece entender que a liderança não consiste em provar que o treinador está sempre certo. Em determinados momentos, a melhor maneira de preservar uma filosofia é aceitar que o caminho escolhido inicialmente precisa ser modificado.

Essa capacidade de adaptação pode ser tão importante quanto a intensidade que exige dentro de campo. Um treinador que insiste em suas ideias independentemente das circunstâncias corre o risco de transformar convicção em teimosia. Hürzeler demonstrou que consegue reconhecer esse limite.

O interesse dos gigantes pode ser o próximo teste

A recuperação do Brighton colocou Hürzeler em uma posição muito diferente daquela que ocupava no início do ano. Com o time novamente competitivo e a possibilidade de disputar uma vaga na Champions, seu trabalho passou a chamar atenção fora da Inglaterra. O nome do alemão foi associado ao Manchester United, caso o clube decida procurar um novo treinador para substituir Michael Carrick.

O interesse é compreensível. Hürzeler é jovem, tem experiência em contextos diferentes e demonstrou capacidade de conduzir uma equipe por uma crise sem abandonar o projeto de longo prazo. Mas o interesse de um gigante também traz uma pergunta importante: será que ele está pronto para assumir um clube no qual a pressão por resultados é ainda maior?

O Brighton oferece um ambiente no qual o treinador pode desenvolver jogadores, ajustar o elenco e construir uma identidade ao longo de várias temporadas. No Manchester United, as expectativas são diferentes. A torcida exige títulos, a imprensa acompanha cada decisão e qualquer sequência negativa pode se transformar em uma crise institucional.

O próprio período recente no Brighton mostra que Hürzeler ainda tem aspectos a desenvolver. A recuperação foi impressionante, mas aconteceu depois de uma fase em que a equipe perdeu estabilidade e o treinador precisou rever suas escolhas. O desafio agora é demonstrar que consegue manter o nível competitivo sem depender de uma reação depois de uma queda tão acentuada.

Existe também um motivo para o alemão considerar a permanência. O Brighton lhe ofereceu tempo, recursos e confiança, inclusive com um novo contrato de longo prazo e cerca de £150 milhões destinados a contratações na janela de verão. Depois de construir a recuperação, Hürzeler tem a oportunidade de transformar o bom momento em um projeto capaz de levar o clube a uma competição europeia de elite.

Sair imediatamente poderia representar um salto na carreira, mas também significaria abandonar um trabalho que ainda está em construção. Permanecer permitiria que ele consolidasse sua identidade e demonstrasse que o Brighton pode competir regularmente com equipes de maior orçamento.

A decisão dependerá menos do prestígio de um eventual interessado e mais daquilo que Hürzeler pretende construir. Aos 33 anos, ele já percorreu um caminho incomum: abandonou a carreira de jogador, trabalhou em uma galeria de arte, começou a treinar na quinta divisão alemã e chegou à Premier League como o técnico permanente mais jovem da história da competição.

A crise de fevereiro poderia ter interrompido essa trajetória. Em vez disso, tornou-se uma etapa importante de seu desenvolvimento. Hürzeler aprendeu que uma filosofia precisa ser acompanhada de flexibilidade, que a confiança do elenco depende da capacidade de reconhecer problemas e que resultados sustentáveis exigem mais do que convicção.

Agora, o desafio é outro. Ele precisa mostrar que a recuperação do Brighton não foi apenas uma reação pontual, mas o início de uma equipe capaz de permanecer entre as melhores da Inglaterra. Se conseguir isso, o interesse dos gigantes poderá se transformar em algo muito mais concreto.

Em fevereiro, os torcedores pediam sua demissão. Meses depois, discutem se o clube conseguirá mantê-lo. A mudança resume a velocidade com que o futebol transforma percepções, mas também revela algo mais importante sobre Fabian Hürzeler: ele não precisou convencer o Brighton de que estava certo o tempo todo. Precisou demonstrar que era capaz de aprender antes que fosse tarde demais.

(Foto: Getty Images)