A vitória do Brasil por 2 a 1 sobre o Egito deveria ter servido apenas como o último ajuste de Carlo Ancelotti antes da estreia na Copa do Mundo. O gol decisivo de Endrick, a boa atuação de Bruno Guimarães e a consolidação de alguns nomes importantes para o elenco eram os temas que pareciam destinados a dominar o debate pós-jogo.
Mas bastou uma falha de Marquinhos para que uma discussão antiga voltasse à tona: afinal, o capitão da seleção brasileira continua sendo um titular incontestável ou parte de suas limitações vem sendo escondida pelo contexto extremamente favorável que encontra no PSG?
O erro foi simples de descrever e difícil de justificar. Após o Brasil abrir o placar, Marquinhos tentou um passe para trás sem perceber a aproximação de Mostafa Zico. O atacante egípcio interceptou a bola e empatou a partida. Foi uma jogada que lembrou outros momentos traumáticos da trajetória do defensor pela seleção, especialmente porque não aconteceu em uma situação de grande pressão adversária, mas em um lance controlado, daqueles que um jogador de sua experiência normalmente resolve sem dificuldades.
O próprio zagueiro admitiu a falha após a partida. O problema, porém, vai muito além de um erro isolado.
O peso de um histórico que nunca desaparece
A carreira de Marquinhos é curiosa porque existe uma diferença significativa entre a percepção que ele possui nos clubes e aquela construída na seleção brasileira.
No PSG, ele é tratado há anos como um dos grandes líderes do projeto esportivo do clube. Capitão, multicampeão nacional e peça importante nas campanhas europeias, construiu uma reputação de defensor moderno, técnico e confiável. Nesta temporada, inclusive, foi um dos pilares da equipe que voltou a conquistar a Liga dos Campeões sob o comando de Luis Enrique.
Mas quando veste a camisa da seleção, a avaliação costuma ser mais complexa. Não porque Marquinhos seja um mau jogador. Muito pelo contrário. Sua qualidade técnica é indiscutível. O problema é que alguns dos momentos mais marcantes de sua trajetória pelo Brasil vieram acompanhados de falhas individuais ou atuações abaixo da expectativa.
Foi assim na eliminação para a Croácia na Copa de 2022, quando desperdiçou uma das cobranças de pênalti. Foi assim em partidas importantes das Eliminatórias. E agora voltou a acontecer justamente às vésperas de mais uma Copa do Mundo.
A questão central não é o erro contra o Egito em si. É o fato de ele reforçar uma sensação que nunca desapareceu completamente.
O PSG protege Marquinhos?.
O sistema montado por Luis Enrique no PSG oferece aos defensores uma série de mecanismos de proteção que poucas equipes do mundo possuem. O time francês normalmente controla a posse de bola durante a maior parte dos jogos, pressiona imediatamente após perder a bola e conta com meio-campistas extremamente agressivos na recuperação.
Isso significa que os zagueiros passam menos tempo expostos a situações de transição defensiva e enfrentam menos confrontos diretos do que enfrentariam em outras equipes.
Além disso, Marquinhos costuma atuar ao lado de parceiros fisicamente dominantes, o que permite que suas qualidades na saída de bola e na organização defensiva sejam potencializadas.
Na seleção brasileira, o cenário é diferente. O Brasil não controla os jogos da mesma maneira que o PSG. Os espaços aparecem com maior frequência. Os erros individuais são mais punidos. E, principalmente, o nível de proteção coletiva nem sempre é o mesmo.
É justamente nesses contextos que as fragilidades do capitão parecem surgir com mais frequência.
Ibañez e Bremer estão batendo na porta
Se Marquinhos saiu pressionado, Roger Ibañez deixou o amistoso contra o Egito em situação oposta. O defensor teve uma atuação segur. Venceu duelos físicos, mostrou velocidade nas coberturas e passou uma sensação de segurança que o Brasil nem sempre encontrou durante a partida.
Mais do que isso, Ibañez oferece algo que Ancelotti valoriza profundamente: versatilidade. O treinador italiano gosta de jogadores capazes de cumprir múltiplas funções sem comprometer a estrutura da equipe. Ibañez pode atuar em qualquer posição da linha defensiva e parece confortável tanto em sistemas de quatro quanto de três defensores.
Sua evolução nas últimas temporadas também chama atenção. Aos 27 anos, vive o auge físico da carreira e parece mais maduro taticamente do que em sua passagem pela Roma. A boa atuação contra o Egito fortaleceu uma candidatura que já vinha ganhando força internamente.
Outro nome que saiu valorizado foi Bremer. O defensor da Juventus entrou no segundo tempo e ajudou a estabilizar um sistema defensivo que havia perdido confiança após o empate egípcio.
Sua principal virtude talvez seja justamente aquilo que muitos críticos apontam como uma limitação de Marquinhos: simplicidade.
Bremer raramente tenta soluções arriscadas. Não força passes desnecessários. Não assume riscos excessivos na saída de bola. Sua prioridade é defender.
Pode parecer uma característica básica para um zagueiro, mas em torneios curtos como uma Copa do Mundo isso costuma ter enorme valor.
Especialmente quando um erro individual pode custar uma eliminação.
A braçadeira não garante a titularidade
Existe outro elemento importante nessa discussão.
Marquinhos é capitão da seleção brasileira há anos. É um dos líderes mais respeitados do elenco e possui enorme influência dentro do grupo.
Mas liderança não pode ser confundida com titularidade automática.
Ancelotti construiu sua carreira justamente por não ter medo de tomar decisões difíceis quando considera necessário. No Real Madrid, deixou estrelas no banco. No Milan, reinventou funções. No Chelsea, priorizou desempenho acima de status.
Seria surpreendente imaginar que ele abriria mão desse princípio justamente na seleção brasileira.
Se Ibañez e Bremer continuarem apresentando desempenho superior, a discussão inevitavelmente chegará à comissão técnica.
O debate que o Brasil evitou durante anos
Durante muito tempo, Marquinhos foi tratado como uma unanimidade.
Talvez porque a seleção tenha passado por tantas dificuldades em outras posições que questionar seu principal zagueiro parecesse desnecessário. Talvez porque suas atuações pelo PSG criassem uma blindagem natural ao redor de seu nome.
Mas o amistoso contra o Egito mostrou que esse debate finalmente chegou.
Isso não significa que Marquinhos deva perder a vaga imediatamente. Sua experiência, qualidade técnica e liderança continuam sendo ativos importantes para qualquer equipe.
O que mudou é que a concorrência parece mais forte do que nunca.
Ibañez vive grande fase. Bremer oferece estabilidade. Gabriel Magalhães também permanece como uma opção consolidada.
Pela primeira vez em muitos anos, a posição de Marquinhos parece genuinamente ameaçada.
E talvez essa seja uma excelente notícia para o Brasil.
Porque seleções campeãs normalmente não são construídas sobre hierarquias intocáveis. São construídas sobre meritocracia, desempenho e competição interna.
A falha contra o Egito não define a carreira de Marquinhos. Mas ela pode ter aberto uma discussão que a seleção brasileira vinha adiando há tempo demais: o capitão ainda é o melhor zagueiro do país ou apenas o nome mais consolidado de uma geração que finalmente encontrou novos candidatos para ocupar seu lugar?
(Foto: Kirk Irwin/AFP)
