O vazamento de uma conversa privada envolvendo o médico José Luiz Runco, ex-chefe do departamento médico do Flamengo, em conversa divulgada pelo Globoesporte, reacendeu uma discussão delicada no futebol brasileiro: a gestão dos bastidores e o respeito ao patrimônio do clube.
Na troca de mensagens, Runco tece duras críticas ao meia uruguaio Nicolás De La Cruz, dizendo que se ele for vendido, “será para qualquer coisa, menos jogar futebol”. A frase não é apenas cruel, ela é altamente prejudicial em todos os níveis, especialmente para o Flamengo.
De La Cruz foi uma das contratações mais badaladas do Flamengo recentemente. Vindo do River Plate com status de ídolo, o meia chegou ao clube com enorme expectativa e um custo alto, tanto em termos de investimento quanto de salário. O que o Dr. Runco fez, mesmo que em um grupo de WhatsApp, é um tiro no pé. Ao desqualificar publicamente um jogador que ainda está no elenco, ele sabota não apenas a imagem do atleta, mas o próprio valor de mercado do ativo rubro-negro.
No futebol moderno, onde clubes são geridos como empresas e jogadores são tratados como ativos financeiros, essa exposição é devastadora. A maioria dos clubes pelo mundo observam com lupa o comportamento de atletas e as informações de bastidores. Um áudio como esse, vindo de alguém com histórico relevante no clube, pesa. De La Cruz pode até deixar o Flamengo no futuro, mas a forma como ele é desvalorizado dentro do próprio clube será levada em consideração por qualquer comprador.
No Flamengo, o nome pesa mais que o jogo

O episódio também escancara uma falha recorrente na política de contratações do Flamengo: apostar em nomes de grife, muitas vezes sem uma análise profunda do contexto físico, técnico e mental dos atletas. De La Cruz, embora talentoso, chegou com um histórico preocupante de lesões, algo que já era evidente desde os tempos de River Plate.
E ele não é o único exemplo. Basta olhar o histórico recente do clube para ver um padrão que se repete: jogadores caros, com nome, mas que não entregam. Alcaraz, que chegou por empréstimo junto ao Southampton, não conseguiu se firmar, mesmo com minutos em campo; Arturo Vidal, com toda sua história no futebol europeu, chegou mais como figura de marketing do que como reforço técnico e saiu sem deixar saudades; e Kenedy, outro nome de impacto midiático, foi uma contratação que beirou o inexplicável, passando mais tempo no departamento médico do que no campo.
O que esses nomes têm em comum? A impressão de que foram contratados mais pelo nome no futebol mundial, marketing e barulho da torcida, do que pelo momento a qual viviam.
O prejuízo é técnico e financeiro
Com contratações mal planejadas e declarações destrutivas como a de Runco, o Flamengo sai duplamente derrotado: no campo e no mercado. Quando um jogador como De La Cruz, ainda em idade produtiva e com mercado internacional, é taxado de forma pejorativa por alguém de dentro da estrutura do clube, seu valor despenca. Ao mesmo tempo, o time perde a oportunidade de recuperar o investimento com uma possível venda, e ainda se afunda na desconfiança da torcida e da crítica especializada.
Por conta disso, é preciso que o Flamengo se reinvente fora das quatro linhas. Ter uma diretoria mais profissional, um departamento médico blindado de polêmicas e uma política de contratações baseada em dados, desempenho e planejamento.
Enquanto decisões continuarem sendo tomadas com base em nome ou pressão externa, episódios como o de De La Cruz e Runco continuarão manchando a imagem do clube e, principalmente, trazendo duplo prejuízo financeiro.
A torcida rubro-negra, acostumada a títulos e protagonismo, merece mais do que vazamentos vexatórios e contratações frustradas. O Flamengo tem estrutura, dinheiro e visibilidade, mas invariavelmente a falta de profissionalismo da alguns aparece trazendo danos ao clube que tenta a qualquer custo vender a imagem de mais profissional do Brasil.
(Imagem de capa: Anderson Romao/AGIF)