O Fluminense precisava de uma resposta. Depois de semanas de atuações abaixo do esperado, eliminações e uma crise que parecia não ter fim, o Tricolor encontrou justamente contra o líder do Campeonato Brasileiro a atuação que tanto procurava. Na noite de sábado, no Maracanã, a equipe venceu o Palmeiras por 3 a 2, de virada, em uma partida marcada por intensidade, entrega e uma postura completamente diferente da apresentada nos últimos compromissos.
O detalhe que torna o resultado ainda mais interessante é que o Fluminense entrou em campo sem Luis Zubeldía. O argentino foi demitido na quinta-feira (13), dois dias depois do empate por 0 a 0 com o Independiente Rivadavia, pela ida das oitavas de final da Libertadores. O desempenho naquele jogo foi tão preocupante que Fábio precisou realizar intervenções importantes para evitar uma derrota em casa.
Marcão, então, assumiu o comando interinamente e teve pouquíssimo tempo para trabalhar. Segundo relatos sobre a preparação, o treinador teve apenas um treinamento antes de enfrentar o Palmeiras. Ainda assim, o Fluminense apresentou talvez sua melhor atuação no ano. A pergunta, portanto, não é apenas se o time recuperou a confiança. É entender o que realmente mudou em tão pouco tempo.
Marcão não teve tempo para mudar tudo, mas mudou o comportamento
Seria exagerado afirmar que Marcão conseguiu transformar taticamente o Fluminense em apenas um treinamento. Não houve tempo suficiente para uma reformulação profunda. O que apareceu no Maracanã foi algo mais básico, mas também extremamente importante: comportamento. O Tricolor jogou com intensidade, disputou cada bola e mostrou uma vontade de atacar que havia desaparecido em boa parte da crise.
Contra o Palmeiras, o Fluminense não se intimidou mesmo quando esteve atrás do placar. Gustavo Gómez abriu o marcador, mas a equipe continuou buscando o jogo e conseguiu empatar ainda no primeiro tempo, com Hulk. Na etapa final, o Palmeiras voltou a ficar na frente com Maurício, mas o Fluminense respondeu rapidamente com Kevin Serna e continuou pressionando até encontrar a virada nos acréscimos.
Essa postura talvez seja a principal diferença em relação ao período final de Zubeldía. Antes da mudança, o Fluminense parecia um time sem confiança, com pouca criatividade e incapaz de reagir quando as coisas davam errado. Contra o Palmeiras, aconteceu justamente o contrário. O time sofreu dois gols e, em vez de diminuir o ritmo, aumentou a intensidade. Isso não é necessariamente uma mudança tática, mas é uma mudança fundamental de mentalidade.
A crise do Fluminense estava além dos resultados
A demissão de Zubeldía aconteceu em um momento de forte pressão. O Fluminense já vinha de uma sequência sem vitórias após a retomada das competições depois da pausa para a Copa do Mundo e acumulava atuações preocupantes. O empate diante do Independiente Rivadavia foi o ponto de ruptura: mesmo em casa, o Tricolor teve dificuldades para criar e terminou a partida dependendo de Fábio para não sair derrotado.
Antes disso, o Fluminense também havia sido eliminado da Copa do Brasil pelo Vasco. Após o empate por 0 a 0 no primeiro jogo das oitavas, o Tricolor perdeu por 3 a 1 na partida de volta, no Maracanã, encerrando sua participação na competição. A eliminação para o maior rival aumentou ainda mais a pressão sobre um elenco que já vinha sendo questionado.
O problema, portanto, não era simplesmente perder partidas. Era a sensação de que o Fluminense não conseguia apresentar uma resposta. Contra o Vasco, contra o Independiente Rivadavia e em outros compromissos recentes, o time demonstrou dificuldades para criar e, principalmente, para impor seu jogo. Por isso, a atuação contra o Palmeiras chamou tanta atenção: em apenas alguns dias, o Tricolor voltou a demonstrar personalidade.
Cano e a força de jogadores experientes
A vitória também teve um significado especial para Germán Cano. O atacante marcou o gol da virada aos 46 minutos do segundo tempo e encerrou um longo período de dificuldades físicas. Depois de passar por cirurgia no início do ano e conviver com problemas físicos, o argentino finalmente balançou as redes pela primeira vez na temporada 2026.
Mais do que o gol, Cano participou diretamente da reação. No lance do empate, cabeceou na trave antes de Serna aproveitar o rebote. Poucos minutos depois, apareceu novamente na área para desviar de cabeça a finalização de Martinelli e garantir a vitória. Foi uma atuação que simboliza a reação emocional do Fluminense: um dos principais nomes do elenco voltou a ser decisivo justamente quando a equipe mais precisava.
O jogo também mostrou a importância de jogadores experientes em momentos de pressão. Hulk participou da reação ao marcar o primeiro gol, enquanto Ganso voltou a ter protagonismo na construção das jogadas. O Fluminense pareceu mais disposto a utilizar a qualidade de seus principais jogadores em vez de simplesmente controlar a partida.

Vitória muda o ambiente, mas não resolve os problemas
A vitória sobre o Palmeiras é enorme para o Fluminense, mas seria um erro tratar o resultado como prova de que todos os problemas foram solucionados. O Tricolor ainda precisa mostrar consistência. Uma grande atuação depois de uma troca de treinador pode representar o início de uma recuperação, mas também pode ser apenas uma reação pontual de um elenco pressionado.
O calendário não permitirá muito tempo para comemorar. O Fluminense ainda precisa decidir sua situação na Libertadores. Após o empate sem gols no Maracanã contra o Independiente Rivadavia, a equipe terá de buscar a classificação no jogo de volta, em Mendoza, no dia 18 de agosto.
É justamente essa partida que poderá dizer se a mudança de ambiente realmente aconteceu. Se o Fluminense repetir a intensidade, a entrega e a coragem apresentadas contra o Palmeiras, haverá motivos para acreditar que a saída de Zubeldía provocou uma reação importante no elenco. Se voltar a apresentar os mesmos problemas de criação e organização, a vitória sobre o líder poderá ser encarada apenas como uma noite excepcional.
Por enquanto, porém, Marcão conseguiu algo que parecia difícil há poucos dias: devolver confiança ao Fluminense. Em apenas um treinamento, ele não teve tempo para construir um novo time. Mas conseguiu recuperar algo que estava faltando: competitividade. Contra o Palmeiras, o Tricolor voltou a jogar como uma equipe que acredita que pode vencer. Agora, precisa provar que essa mudança não foi apenas emocional, mas o começo de uma nova fase.



