Automobilismo Fórmula 1

Fórmula 1 acerta ao voltar à África, mas acordo com Ruanda mostra que a categoria ainda ignora o custo político de suas escolhas

A volta da Fórmula 1 à África é uma conquista que deveria ter sido celebrada há muito tempo. Mais de três décadas depois do último Grande Prêmio realizado no continente, em 1993, a categoria anunciou um acordo de dez anos com Ruanda para organizar uma corrida em Bugesera, nos arredores da capital Kigali, a partir do início da década de 2030. A iniciativa pode aproximar o campeonato de milhões de fãs africanos, ampliar a presença internacional do automobilismo e abrir espaço para que uma nova geração se reconheça em um esporte que passou tempo demais sem uma etapa no continente.

O problema não está em levar a Fórmula 1 à África. Está em como a categoria escolhe os parceiros que tornam esse retorno possível. Ao fechar o acordo com o governo de Paul Kagame, a F1 volta a demonstrar uma contradição que acompanha sua expansão internacional: a disposição de tratar grandes eventos como instrumentos de desenvolvimento, turismo e integração global sem dar o mesmo destaque às condições políticas em que esses projetos são realizados. Ruanda apresenta um plano ambicioso de infraestrutura e promoção turística, mas também enfrenta denúncias documentadas de repressão à oposição, restrições à liberdade de expressão e violações de direitos humanos. A Human Rights Watch voltou a registrar essas preocupações em seu relatório sobre o país em 2026.

É nesse ponto que a lembrança do Grande Prêmio do Vietnã se torna importante. A corrida de Hanói nunca chegou a ser realizada: foi adiada e depois cancelada em 2020 por causa da pandemia de Covid-19. Posteriormente, o projeto deixou de avançar, em um contexto que também incluiu a prisão e a condenação por corrupção do então presidente do Comitê Popular de Hanói, Nguyễn Đức Chung. A condenação não demonstrou que o Grande Prêmio estivesse envolvido no caso, mas revelou os riscos de construir um evento esportivo de enorme visibilidade em torno de estruturas políticas e administrativas que podem ser abaladas por escândalos.

O episódio vietnamita não é uma cópia exata do caso ruandês. Os contextos são diferentes, e seria incorreto atribuir ao projeto da F1 no Vietnã uma relação com a corrupção que não foi demonstrada. Ainda assim, os dois casos levantam uma pergunta que a categoria parece não ter respondido de maneira satisfatória: quais critérios devem pesar quando a escolha de um anfitrião envolve muito mais do que a capacidade de construir um circuito e pagar para receber a corrida?

O retorno à África é necessário, e pode ter um significado que vai além do calendário

A ausência da Fórmula 1 na África sempre foi uma lacuna difícil de justificar em um campeonato que se apresenta como mundial. Enquanto a categoria ampliou sua presença na Ásia, no Oriente Médio e nas Américas, o continente africano permaneceu fora do calendário desde o Grande Prêmio da África do Sul de 1993. A decisão de voltar, portanto, responde a uma demanda legítima de fãs e de figuras importantes do esporte, entre elas Lewis Hamilton, que há anos defende a realização de uma corrida africana.

A escolha também pode criar oportunidades econômicas. O projeto prevê um circuito permanente de aproximadamente seis quilômetros, com 17 curvas e mudanças de elevação, próximo ao futuro aeroporto internacional de Bugesera. Segundo os responsáveis pelo acordo, a corrida faz parte de um plano mais amplo de investimentos em turismo, infraestrutura e desenvolvimento comercial. A Fórmula 1, por sua vez, afirma que pretende produzir benefícios econômicos e sociais duradouros.

Esses objetivos não devem ser descartados apenas porque o país anfitrião enfrenta problemas políticos. A população ruandesa não pode ser reduzida ao governo que a representa, assim como a falta de uma corrida africana não deveria ser tratada como um detalhe secundário diante das controvérsias que cercam a candidatura escolhida. O acesso a grandes eventos esportivos, a formação de profissionais locais e a possibilidade de desenvolver negócios ligados ao automobilismo são objetivos legítimos.

Mas promessas de desenvolvimento não são garantias de desenvolvimento. A construção de um circuito e a chegada de visitantes podem gerar empregos e atividade econômica, mas também exigem investimentos públicos e privados, planejamento e transparência. Sem informações claras sobre financiamento, custos, riscos e distribuição dos benefícios, é difícil avaliar quanto da riqueza criada por um Grande Prêmio realmente chegará à população.

A F1 não deveria exigir que os fãs escolhessem entre duas posições extremas: celebrar a presença do esporte na África ou ignorar as críticas ao governo que receberá a corrida. É perfeitamente possível defender o retorno ao continente e, ao mesmo tempo, cobrar explicações sobre as condições políticas e econômicas do acordo. A questão é justamente impedir que uma conquista legítima seja utilizada para encerrar uma discussão que deveria apenas começar.

O caso do Vietnã mostrou que um Grande Prêmio não existe fora da política

A experiência de Hanói deveria ter ensinado à Fórmula 1 que a viabilidade de uma corrida não depende apenas da pista, da infraestrutura e da capacidade de atrair patrocinadores. O projeto vietnamita foi anunciado com grande ambição, e um circuito urbano chegou a ser preparado para receber a categoria. A estreia prevista para 2020, no entanto, foi primeiro adiada pela pandemia e depois cancelada. Em seguida, o projeto saiu do calendário, em meio a mudanças políticas e à condenação de um dirigente local por corrupção.

É importante distinguir os fatos: a pandemia foi o motivo oficial do cancelamento da edição de 2020, e o caso de corrupção envolvendo Nguyễn Đức Chung não foi apresentado como prova de irregularidades na organização da corrida. O aprendizado, portanto, não é que a Fórmula 1 tenha sido diretamente implicada em um esquema corrupto no Vietnã. É que projetos esportivos desse porte ficam expostos às circunstâncias políticas e institucionais dos países em que são implantados.

Um contrato de longo prazo pode parecer sólido no anúncio e se tornar vulnerável quando autoridades mudam, investigações avançam ou prioridades públicas se alteram. O investimento em instalações específicas, a mobilização de fornecedores e a expectativa de retorno turístico não desaparecem automaticamente quando uma corrida deixa de acontecer. E, quando o planejamento não é transparente, o público fica sem condições de saber quem assumiu os custos e quem arcou com as perdas.

Ruanda apresenta uma configuração diferente, mas o risco de reputação também merece atenção. O acordo prevê dez anos de parceria, enquanto o circuito ainda precisa ser construído e a data exata da primeira corrida depende da conclusão das obras. Isso significa que a F1 está se comprometendo com um projeto cuja execução ainda será acompanhada por anos de decisões financeiras, administrativas e políticas.

A categoria tem todo o direito de procurar novos mercados. O que não deveria fazer é confundir a assinatura de um contrato com a comprovação de que todas as condições para uma parceria responsável estão presentes.

(Foto: Divulgação/Formula 1)